Guia para decifrar os programas dos partidos: O que eles (realmente) prometem

Guia para decifrar os programas dos partidos: O que eles (realmente) prometem

Quem olhar para os programas eleitorais dos nove partidos com assento parlamentar facilmente identificará um conjunto de boas intenções que, do Bloco ao Chega, fazem do Portugal futuro um título de Lewis Carroll – embora não fosse bem na competição política que o conhecido escritor inglês estaria a pensar, ao descrever o seu País das Maravilhas. Lidos sem uma fina análise, os programas, mesmo optando por soluções contraditórias, parecem todos magníficos e, muitas vezes, coincidentes, nos seus objetivos. Às perguntas práticas formuladas, nas páginas seguintes, sobre temas que interessam à vida dos portugueses, por serem tão concretas, escapam, algumas vezes, as agendas ideológicas de cada um – desde o populismo securitário e com laivos xenófobos do Chega ao identitarismo que alguns cientistas políticos associam ao populismo de esquerda e que o BE representaria. Ainda assim, é possível identificar algumas linhas divisórias entre a “esquerda da distribuição” e a “direita da capitalização”. O tema dos impostos é uma das marcas mais divisórias. A ideia da flat tax, defendida pela Iniciativa Liberal, é paradigmática deste dilema, como notou o representante do Livre, Rui Tavares, no debate a nove, na RTP. Numa determinada simulação, no site da IL, um cidadão de baixos rendimentos pode até passar a ter uma borla fiscal, suponhamos, de 29 euros. Não é mau. Mas um “rico”, pagando a mesma taxa, terá centenas de euros de desconto. O primeiro, se levar o seu filho deficiente a uma consulta particular, vê esfumada a borla que a simulação liberal lhe garantira. O segundo fica com dinheiro para montes de consultas. A conclusão é caricatural: para a esquerda, os euros poupados, em impostos, desta maneira, pelo “rico”, poderiam ser aplicados, pelo Estado, por exemplo, na oferta do SNS, o que dispensaria a “consulta particular” e beneficiaria a sociedade. Mas, para a direita, esses apoios destinar-se-iam a subsidiar a falta de iniciativa e incentivo com que um Estado protetor infantilizaria os seus cidadãos, com a adjacente penalização de quem tem dinheiro e o pode investir, o consequente prejuízo no crescimento económico e menores possibilidades para melhorar as condições de vida de todos. Quem terá mais razão?…

Pagadores de promessas

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