Quem é Cristina Rodrigues, a deputada influencer?

Cristina Rodrigues tem uma equipa pequena, mas procura complementá-la com a ajuda dos cidadãos no dia a dia Foto: Marcos Borga

“Estamos a receber cada vez mais contactos e torna-se difícil responder a todos, mas temos de continuar a fazer um esforço para não deixar resposta nenhuma para trás.” Esta é uma das primeiras preocupações trazidas pela deputada não inscrita Cristina Rodrigues para a reunião com a sua equipa, depois das férias de verão. Partilha-a com Sara Martins, a sua chefe de gabinete (ex-PAN), Bernardo Gonçalves, que gere a comunicação (ex-PAN), e uma estudante de Direito, que queria conhecer o trabalho parlamentar de perto e voluntariou-se para prestar apoio à deputada. Encontram-se na antiga biblioteca da Assembleia da República – reservada para o regresso ao trabalho, uma vez que o seu gabinete está em obras – para falar sobre o modelo de trabalho que seguirão de ora em diante (presencial ou à distância); analisar os projetos-lei que deram entrada na última quinzena de agosto e os temas a que se vão dedicar nesta sessão legislativa.

Já trazem, no entanto, uma ideia formada sobre o timing em que querem divulgar as propostas, pois começaram por sondar os cidadãos, nas redes sociais, sobre o que estes preferem ver discutido de imediato no Parlamento. As mensagens continuam a chegar e Cristina Rodrigues ou Bernardo Gonçalves terão de responder, uma vez que o principal objetivo da deputada, desde que é senhora do seu destino parlamentar, é ser próxima dos eleitores. “Não faço de propósito para ser diferente, mas o feedback que tenho é que o meu método é diferente. As pessoas não estão habituadas a ter esta proximidade com os deputados. Noto isso quando voto de determinada maneira, se calhar inesperada, as pessoas vêm logo questionar-me e eu justifico-me sempre. Cada vez mais falam comigo para criticar, sugerir, apoiar. O que tem o seu custo: tenho de passar muitas horas a responder a mensagens, mas acho que isso faz parte das funções de um deputado”, diz à VISÃO.

Cristina Rodrigues deixou o PAN (partido pelo qual foi eleita nas legislativas de 2019, no círculo de Setúbal) no final da primeira legislatura, há um ano. Sentia-se sufocada e “aquém do trabalho que podia fazer”, conta. Apesar de admitir que enfrentar o hemiciclo sozinha é um grande desafio – além de ter de lidar com dificuldades regimentares e económicas – não se arrepende. “O meu trabalho enquanto deputada não inscrita é muito mais positivo”, acrescenta.

34

Projetos de lei

Entregou Cristina Rodrigues, na sessão legislativa anterior. Mais 27 do que a deputada não inscrita Joacine Katar Moreira. Deste total, a ex-parlamentar do PAN viu aprovados dois projetos de lei

Fim das touradas marca regresso
Na sessão legislativa passada, já enquanto deputada não inscrita, apresentou 34 projetos e propostas de lei no Parlamento, número superior às entregues pelo PS (24). E viu duas delas aprovadas, de acordo com o relatório de balanço da atividade parlamentar da Assembleia da República. O mesmo documento refere que a parlamentar viu aprovados 20 projetos de resolução dos 43 a que deu entrada. Cristina Rodrigues trabalha a um ritmo acelerado e é assim que quer continuar, nesta sessão legislativa. Para o regresso, traz na agenda a luta pelo fim das touradas e a criação de apoios às autarquias disponíveis para reconverterem praças de touros em espaços culturais – tema com que simpatiza há muito, mas com o qual avança só agora por ter sentido que era essa a vontade de muitos cidadãos, numa manifestação em que participou.

Está também a ultimar a redação de uma proposta para criminalizar a violência obstétrica. No dia em que a VISÃO a acompanhou, a deputada reuniu-se, pela internet, com médicos, doulas e ativistas para ouvir as sugestões e fazer alterações ao seu projeto-lei. O tema também lhe chegou por via digital, através de mensagens de algumas vítimas, e Cristina Rodrigues sabe que irá travar uma batalha demorada, mas não desmobiliza.

A deputada dedica-se sobretudo aos temas da defesa do ambiente, dos animais e das mulheres – as suas causas de toda a vida. Pois, “ser política nunca me tinha passado pela cabeça antes”, diz. Estudou Direito na Universidade de Lisboa e tornou-se advogada e ativista pelos direitos dos animais, tendo prestado apoio jurídico ao grupo de Intervenção e Resgate Animal (IRA), alvo de investigação por recurso à violência para resgatar animais em risco. Foi, então, no PAN – onde chegou a partir de “uma entrevista às cegas”, em 2014 – que aprendeu tudo o que sabe sobre a vida política.

Entrou para o departamento jurídico, mas depressa chegou a dirigente e, na legislatura de 2015-2019, foi chefe de gabinete do primeiro e então único deputado do partido, André Silva. Conheceu os meandros da Assembleia da República e da atividade parlamentar. Chegou mesmo a mudar-se, com as suas três cadelas resgatadas, do Seixal (onde cresceu e viveu a vida toda) para o bairro de Campo de Ourique, só para estar mais próxima do Parlamento. Foi também no PAN que começou a ganhar protagonismo e que teve os primeiros embates com a Imprensa. Na campanha eleitoral de 2019, mostrou, numa entrevista ao podcast Conversa, que não conhecia as propostas do partido para temas como o salário mínimo nacional. Mas foi eleita e voltou a dar que falar, um ano depois, quando se desfiliou do partido, poucos dias depois do eurodeputado Francisco Guerreiro. Hoje, sobre o PAN, só lamenta o rumo que o partido seguiu e “não ter conseguido reter a experiência de nenhuma das pessoas que trabalhou no gabinete, na legislatura anterior”.

A atenção do PS
Politicamente, Cristina Rodrigues continua a não se identificar com a esquerda nem com a direita. No entanto, tem sido uma interlocutora privilegiada para o PS. Ajudou a viabilizar o Orçamento do Estado de 2020 com a sua abstenção e, este ano, parte para as negociações com o Governo a dar sinais que descansarão os socialistas. Embora se recuse a anunciar a intenção de voto, antes de ver a proposta do executivo, faz “um balanço positivo” do rumo que tomaram as negociações do ano anterior e já viu “compromissos importantes, nomeadamente, ao nível dos direitos laborais, sociais, e em questões de habitação, que são fundamentais para o País”, no discurso de António Costa, no congresso do seu partido, no final de agosto. A deputada não inscrita marcou presença na reunião magna dos socialistas, mas recusa a interpretação de uma aproximação ao PS. “Eu não encaro isso como um sinal, porque o PS foi o único partido que me convidou para ir ao seu congresso. Se outros me tivessem convidado também teria ido”, explica.

Negociações para o OE 2021

Para viabilizar o Orçamento do Estado, este ano, a deputada espera que o Governo acolha propostas suas nas áreas da proteção animal, da cultura e da igualdade de género. Da lista que entregou ao executivo, constam a redução do IVA para 6% na alimentação dos animais e o aumento para 23% do mesmo imposto aplicado à venda de animais, com o intuito de incentivar a adoção. Cristina Rodrigues quer também que seja posta em prática a medida que já apresentou sobre o combate à pobreza menstrual, através da distribuição gratuita de produtos de higiene feminina em escolas, centros de saúde e associações de sem-abrigo. Vai bater-se ainda por uma verba para os hospitais fazerem obras e terem instalações que permitam que o pai ou outra pessoa acompanhe sempre a mulher durante gravidez, a divisão de espaços para pessoas que sofreram perda gestacional e a criação de uma clínica da mulher. Na cultura, a deputada pretende que seja dado um incentivo às autarquias que transformem as praças de touros em centros culturais.

Sobre o seu futuro no Parlamento, responde com um impulsivo “não sei”. “O meu objetivo final não é voltar a ser candidata”, continua. E acrescenta que não teve “qualquer conversação com nenhum partido sobre essa questão”.

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