Um retrato em 15 momentos de Jorge Sampaio, o Presidente que tinha a coragem de chorar

Foto: Marcos Borga

Jorge Fernando Branco de Sampaio, que morreu a 10 de setembro, a poucos dias de completar 82 anos, Presidente da República (PR) entre 1996 e 2001 e entre 2001 e 2006, teve, sobretudo na segunda metade, um dos duplos mandatos mais difíceis da democracia. Trabalhou com cinco governos e indigitou quatro primeiros-ministros, dois do PS (partido de que se manteve militante, mesmo enquanto PR), António Guterres (1999) e José Sócrates (2005), e dois do PSD, Durão Barroso (2002) e Pedro Santana Lopes (2004). Por duas vezes, dissolveu o Parlamento, na primeira forçado pelas circunstâncias (após a demissão de Guterres) e na segunda forçando as circunstâncias (desfazendo-se de Santana Lopes). Assistiu, mais ou menos impotente, à degradação da situação económica do País, no início do século. Foi uma voz diplomática forte, estabelecendo excelentes relações com algumas das figuras mais marcantes da política internacional. O caso Moderna, tendo no centro uma guerra entre fações da maçonaria e uma empresa de sondagens liderada por Paulo Portas; o caso do urânio enriquecido; os 75 vetos políticos e 16 pedidos de fiscalização da constitucionalidade; o processo Casa Pia e a Operação Furacão; as mortes de grandes figuras nacionais, como Amália, Costa Gomes, Melo Antunes ou Álvaro Cunhal; a independência de Timor e a transferência de Macau para a administração chinesa; dois referendos (interrupção voluntária da gravidez e regionalização) e uma revisão constitucional (1997); o 11 de Setembro e a segunda Guerra do Golfo; a estreia de Portugal no mapa dos megaeventos (Expo’98 e Euro2004), a que se somaram inúmeros problemas de saúde, traçam o resumo dos dez anos que mudaram o mundo e o País, na transição do milénio. Numa aproximação imediata aos seus concidadãos, não evitava as lágrimas sempre que a emoção o tocava. Tinha uma lágrima fácil e “certeira” e isso humanizou-o como a nenhum outro Chefe de Estado.

Em 2006, Jorge Sampaio despediu-se da Presidência com 71,6% de opiniões positivas, mais do que o próprio Mário Soares. Logo de seguida, os areópagos internacionais reconheceram a sua estatura de estadista, o seu talento diplomático e a sua condição de cidadão do mundo. Experiente, prestigiado, poliglota, assertivo, dialogante, culto, foi indicado por Kofi Annan como “enviado especial do secretário-geral da ONU Para a Luta Contra a Tuberculose”, entre 2006 e 2007. Daí para a frente, até 2013, passou a ser o alto representante da ONU para a Aliança das Civilizações, uma missão que tinha em vista o diálogo entre o Ocidente e, sobretudo, o mundo árabe e muçulmano. Senador entre os senadores de Portugal, embora sem intervenção política ativa, assistiu, ao vivo, no final de 2016, à posse de António Guterres como secretário-geral da ONU. Nova Iorque estava, então, no tempo e no espaço, muito distante do sótão de Algés, pertencente ao seu antigo aliado e, depois, adversário no PS, quando, com Vítor Constâncio, Salgado Zenha e outros, todos eles membros do ex-secretariado do PS, conspirara contra Mário Soares – falecido poucos dias depois da cerimónia na ONU.

No culminar de um percurso pessoal que era, também, nacional, Jorge Sampaio tinha caminhado muito para chegar ali – e o País, também por sua influência, fizera uma caminhada paralela de afirmação no mundo. Poderíamos destacar centenas de episódios marcantes, no percurso do homem, que se confundem com o da própria História portuguesa da segunda metade do século XX. O jornalista José Pedro Castanheira, seu biógrafo, teve matéria para concluir dois volumes de mais de mil páginas cada um. Escolhemos lançar um olhar sobre 15 momentos-chave. A começar pelo princípio…

1

Uma família “inglesa”

Jorge Sampaio era um jovem diferenciado. O pai, Arnaldo Sampaio, foi diretor-geral de Saúde e fica na História sanitária portuguesa como o grande pioneiro dos programas de vacinação. O jovem Jorge teve como cenário de infância as paisagens húmidas de Sintra. É verdade que nasceu, em setembro de 1939, na Rua da Beneficência, em Lisboa, na Clínica Bensaúde, fundada por um dos seus antepassados, mas a sua “criação” passa pelo chalé de família, na vila de Byron, rodeado de hortas, jardins, bosques e penedias. Aos 8 anos, parte com a família para os EUA, reforçando a sua costela estrangeirada, acentuada por uma mãe, professora de Inglês, que fala, em casa, a língua de Shakespeare. Este background há de compor a sua coroa de glória, muitas décadas depois, na fluência e na clareza do discurso, numa célebre entrevista à CNN que se tornaria, de imediato, uma enorme vitória da diplomacia portuguesa. Mas não antecipemos.

Nos EUA, o clã acompanha o pai, a terminar um mestrado em Saúde Pública na Universidade Johns Hopkins, em Baltimore. O magnífico inglês que já exibe é aplicado, durante um ano, na escola pública norte-americana e no Conservatório Peabody. No exame final de piano, interpreta duas complicadas peças de Schumann. No regresso à Pátria, passa a viver em casa da avó materna, Sarah, em Lisboa, junto ao Liceu Pedro Nunes que ele frequenta até ao 5º ano.

Infância feliz O pequeno Jorge, à direita, na foto
Foto: D.R.

2

O líder estudantil e a PIDE

Em 1962, o jornalista Augusto Abelaira irá aplicar um golpe de rins à censura, numa altura em que qualquer referência à crise académica, espoletada pela proibição do Dia do Estudante, é proibida nos jornais. Abelaira cita os grandes oradores da História: “João das Regras, padre António Vieira, José Estevão, António José de Almeida, Jorge Sampaio…”. Neste bolo, o ilustre desconhecido passa despercebido aos censores. Foi a primeira vez que Sampaio viu o seu nome, em letra de forma, num jornal diário. O “grande orador”, prestes a fazer 23 anos, concluíra o curso um ano antes. Presidente da Associação Académica de Lisboa, é delegado na RIA (Reunião Interassociações) de que, pouco depois, será secretário-geral. A RIA marca o Dia do Estudante para 24 de março de 1962. O ministro da Educação Nacional, Lopes de Almeida, proíbe a realização da iniciativa e o governo fecha a cantina. A polícia de choque invade a Cidade Universitária. Os estudantes pedem uma explicação ao reitor, Marcelo Caetano. Liderada por Sampaio, uma delegação da RIA vai a casa de Marcelo que, embora figura da situação, se coloca ao lado dos estudantes.

Crise estudantil de 1962 O líder da Reunião Interassociações chegou a ser detido Foto: D.R.

A tensão dura semanas. Sem poder fazer greve, a RIA declara “luto académico”. Sampaio mantém as hostes mobilizadas. Num relatório, a PIDE refere-se à intervenção “do já conhecido Jorge Sampaio” que, “antes mesmo de iniciar a sua diatribe, foi longamente ovacionado”. É decretada uma greve de fome. A 11 de maio, 300 efetivos da PSP cercam a cantina. São presos mais de mil estudantes. Jorge Sampaio é um dos detidos. Está lançada a semente que inspirará muitos dos oficiais que, 12 anos depois, farão o 25 de Abril.

3

O advogado dos presos… e do Simões

Sampaio torna-se um dos principais juristas especializados em propriedade industrial. Pro bono, porém, inicia uma carreira e uma reputação de defensor de presos políticos, nos tribunais plenários. Esta circunstância permitir-lhe-á estabelecer pontes com o PCP. Em 1968, é convocado, por Pedro Ramos de Almeida, representante do PCP no grupo oposicionista FPLN (Frente Popular de Libertação Nacional), baseado em Argel, para uma reunião da oposição em Paris. A presidir aos trabalhos encontra-se o próprio Álvaro Cunhal, mas, quando percebe que Cunhal justifica e aprova a invasão de Praga pelos tanques soviéticos, desilude-se. Pelo meio, defende causas mais improváveis, como a do jogador do Benfica, António Simões, que tem um diferendo com a entidade patronal e fica a um fio de se transferir para o (seu, dele, Sampaio) Sporting… Em 1967, casa-se com a antiga caloira de Medicina, Karine Dias. Sem filhos, o divórcio acontece em 1971. Três anos depois, dá o nó com a algarvia, modelo e quadro da TAP, Maria José Ritta, de quem terá os filhos Vera e André. Pilar afetivo continua a ser, também, o irmão mais novo, o conhecido psiquiatra e escritor Daniel Sampaio.

Homem de Família Com a segunda mulher, Maria José Ritta, mãe dos dois filhos, André e Vera Foto: D.R.

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À procura de um partido

Líder natural de um grupo que vem dos tempos de escola e da faculdade, inicia os célebres almoços semanais do Hotel Florida, em que participam, entre outros, João Bénard da Costa, José Manuel e Miguel Galvão Teles, Nuno Brederode Santos, Joaquim Mestre, Vera Jardim (sócio de escritório), Jorge Wengorious, Ferro Rodrigues, Nuno Portas. O núcleo duro dos “sampaístas” discute à mesa os grandes temas. No 1º de Maio de 1974, como líder histórico dos estudantes de 1962, está inscrito para falar, como Mário Soares e Álvaro Cunhal, mas é na qualidade de representante do MES (Movimento de Esquerda Socialista) que o faz. Só que, quando o movimento passa a partido, no final de 1974, o MES adota o marxismo-leninismo e Sampaio afasta-se. Sempre à procura de uma via alternativa entre a social-democracia e o comunismo, forma o GIS (Grupo de Intervenção Socialista), para o qual se transfere a maioria dos amigos do Florida. Nessa altura, Sampaio está longe de ser um moderado. Embora não preconize a ditadura do proletariado, também não opta pela linha do socialismo democrático. Melo Antunes leva-o, entretanto, para o IV Governo Provisório, em que sobraçara a Secretaria de Estado da Cooperação Externa. Em 1978, negoceia a sua entrada no PS, a convite de Mário Soares, que quer atrair os bons quadros do “sampaísmo”. Mais tarde, no grupo do ex-secretariado, que também integra António Guterres, Salgado Zenha ou Vítor Constâncio, na sequência das presidenciais de 1980, Sampaio fará a sua travessia do deserto. Em 1986, porém, depois de terem apoiado a candidatura de Mário Soares contra Salgado Zenha, os contestatários do ex-secretariado estão reabilitados. E, em 1988, após a demissão de Vítor Constâncio, avança para a liderança, derrotando Jaime Gama.

Com Mário Soares Na noite da vitória do primeiro PR civil, que substituiria dez anos depois. Foi Soares que o levou para o PS Foto: D.R.

5

Uma conversa com o espelho

Foi de manhã, à frente ao espelho, que Jorge Sampaio encontrou o candidato do PS à Câmara Municipal de Lisboa, em 1989: “Naturalmente, sou eu próprio”, como repetiu, perante os jornalistas, na declaração em que anunciou a candidatura. A 17 de dezembro de 1989, as autárquicas eram um duro teste à sua capacidade política. Competia-lhe ganhá-las, derrotando o poderoso PSD de Cavaco Silva que governava com maioria absoluta. O carismático dirigente do CDS, Nuno Krus Abecasis, estava de saída, e esta oportunidade lançaria as bases para uma vitória nas legislativas de 1991. A direita coligada já encontrara um candidato forte, criativo, jovem e carismático: Marcelo Rebelo de Sousa. Sampaio passara as últimas semanas à procura de um candidato forte que o PS pudesse apoiar. Um a um, todos os “generais” (como António Guterres) declinaram. Outras possibilidades, como os arquitetos independentes Nuno Portas (seu amigo, que também recusou) ou Gonçalo Ribeiro Telles não entusiasmavam. Uma sondagem do Expresso dá Marcelo à frente de todos os candidatos apontados pelos jornais como possíveis escolhas do PS, incluindo o filho do Presidente, João Soares, que quer chegar-se à frente – e que tem uma ideia radical: a de liderar uma coligação que inclua o PCP. Em desacordo total está António Costa: o jovem ex-estagiário (28 anos) do escritório de Sampaio partilha com Vera Jardim a convicção de que “não há qualquer vantagem numa aproximação com o PCP”

Jorge Sampaio revê o filme de Vítor Constâncio, quando bateu com a porta, sentindo-se boicotado pela linha histórica e soarista: “Não tenho generais!”, proclamara o antigo ministro das Finanças de Mário Soares. E Sampaio precisa de um golpe de asa. Ninguém lhe apontará a falta de generais, quando ele próprio se considerar a melhor solução. E a revelação sentida frente ao espelho há de mudar-lhe o destino. Se queremos um trabalho bem feito, temos de ser nós a fazê-lo ou, um dia, outros poderão no nosso lugar… chegar a Presidente da República.

Coligação Por Lisboa Em 1989, com o comunista Rui Godinho e os socialistas João Soares e Vasco Franco. Uma equipa de betão Foto: LUSA/Alberto Frias

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A geringonça da era analógica

Às 18h30 de quinta-feira, 20 de julho de 1989, dois homens, de fato escuro, gravata e ar grave, sobem discretamente pelo elevador da antiga sede nacional do PS, na Rua da Emenda, ao Chiado, em Lisboa. Trata-se de Rui Godinho, candidato da CDU a Lisboa para as autárquicas de dezembro desse ano, e de Luís Sá, dirigente do PCP que liderara, em representação dos comunistas, o processo negocial para a formação da coligação Por Lisboa. Lá em cima, aguardam o vereador lisboeta do PS, Vasco Franco, o assessor para a Imprensa de Jorge Sampaio, António Manuel, o urbanista Fonseca Ferreira, futuro autor do planeamento estratégico para a capital, e o arquiteto Nuno Portas. Numa salinha ao lado, senta-se o próprio secretário-geral do PS e candidato socialista a Lisboa. À mesma hora, na sede do Largo do Rato, uma delegação do PS e outra do PRD discutem a eventual participação dos renovadores numa candidatura conjunta. Os socialistas têm o cuidado de convocar a Imprensa para esta. A manobra de diversão quase resulta, mas um órgão, o extinto semanário O Jornal, faz a sua manchete, no dia seguinte, com os bastidores do encontro do Chiado. Recorde-se o texto de primeira página daquele semanário: “Os partidos Socialista e Comunista chegaram a acordo, nas últimas horas, acerca dos principais pontos para uma coligação para a câmara de Lisboa. A Comissão Nacional do PS e o Comité Central do PCP deverão ratificar, no fim de semana, os termos desse entendimento. O Jornal revela os pontos mais difíceis em que ‘esbarrou’ a negociação e os encontros, muitos deles secretos, que se efetuaram para se obter uma plataforma cujo significado ultrapassa o município da capital. Quinze anos depois do 25 de Abril, aí está o primeiro acordo entre os dois maiores partidos da esquerda portuguesa.” Fazia-se História. Mas iriam decorrer mais 26 anos até que António Costa e Jerónimo de Sousa imitassem Sampaio e Cunhal…

Líder do PS Cartazes de campanha em 1991. Cavaco aumenta maioria… Foto: D.R.

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1991, uma campanha triste

A 19 de julho de 1991, Jorge Sampaio, líder do PS, viu o PSD reforçar a maioria absoluta obtida em 1987. O País recebia o euromilhões europeu, crescia a um ritmo de 8% ao ano e prosperava numa febre de obras públicas que lhe alteraria a face, para sempre. Cavaco Silva estava no auge. A maneira hermética e redonda de se exprimir também não ajudou um Sampaio demasiado tímido e demasiado sério. Palavroso, rebuscado, com linguagem de advogado e frases compridas, sem preocupação com os sound bites, Sampaio não conseguia fazer-se entender pelo homem da rua. Ao contrário, com palavras simples e mensagens diretas, Cavaco proclamava, na Guarda, que, se quisessem “continuar a comprar frigoríficos”, as pessoas tinham de votar no PSD. A sempre delicada constituição das listas de deputados não ajuda. Sampaio revela desconhecimento dos hábitos e das relações locais de forças, dentro do PS. Sem paciência para a pequena política, pouco dado aos “negócios de mercearia”, comete, pelo caminho, alguns erros crassos. Arredado de cabeça de lista, o histórico Manuel Alegre vocifera numa manchete: “O PS tratou-me pior do que a PIDE!” Com este protesto, consegue regressar a nº 1 pelo círculo de Coimbra. Os jornais andam semanas entretidos com o candidato-mistério que Sampaio anunciara para fechar as listas – e que entraria na quota do secretário-geral. Um jornal diz que o “senhor x” é Sousa Franco, antigo dirigente do PPD, mas, quando o verdadeiro nome é revelado, declara-se o anticlímax: trata-se do desconhecido João Menezes Ferreira, que acabaria a contracenar com Artur Albarran num popularucho concurso televisivo chamado A Cadeira do Poder

8

Correr para Belém

Em fevereiro de 1994, Sampaio prepara a resposta que deve dar ao Expresso, caso fosse interpelado sobre as presidenciais de 1996. A frase é da autoria do amigo e estratego Nuno Brederode Santos: “Há um fator de natureza subjetiva que, sem ser decisivo, não deixaria de ser estimulante para a minha decisão: saber que me ia confrontar com o prof. Cavaco Silva.” Era o pré-anúncio. Poucos dias antes de formalizar a candidatura, em fevereiro de 1995, Sampaio avisou o secretário-geral do PS por telefone. Mário Soares, que queria escolher um sucessor – e que seriam todos menos Sampaio… – nem sequer foi avisado. Soares tenta convencer Almeida Santos, Vasco Vieira de Almeida, Carlos Monjardino, o procurador-geral da República Cunha Rodrigues, o reitor da Universidade de Coimbra, Rui Alarcão – e até o militante nº 1 do PSD, Pinto Balsemão, é sondado. O rival interno mais forte parece ser, entretanto, o carismático presidente da Câmara Municipal do Porto, Fernando Gomes, que também Guterres prefere. Mas é tarde. Antes de tornar pública a decisão, convidara o dirigente do PCP Carlos Brito para jantar em sua casa. Apenas estiveram o comunista e o casal Sampaio. Brito comunicou a decisão a Álvaro Cunhal que reagiu favoravelmente, com o pragmatismo de sempre: “É o candidato mais à esquerda que terá hipótese de ser eleito, em Portugal. Temos de fazer de tudo para o eleger.” É claro que, em 1996, o PCP apresentaria um candidato, Jerónimo de Sousa, mas este, convenientemente, acabou por desistir, a favor de Sampaio, à boca das urnas. No final, a 14 de janeiro de 1996, só chegaram ao boletim de voto Jorge Sampaio, que obteve 53,8% dos votos, e Cavaco Silva, com 46,2 por cento.

9

Ai, Timor… E a CNN a seus pés

Em Belém, o novo Presidente cria um Conselho Económico, com a representação das várias escolas económicas, junta nomes como Silva Lopes, Miguel Beleza, Teodora Cardoso, Teixeira dos Santos, Vítor Bento, Nogueira Leite ou Augusto Mateus. Uma espécie de Bloco Central das Finanças. Um comité de sábios que, sem a responsabilidade executiva por atos concretos, acaba por condicionar a política económica e orçamental. Nem Eanes nem Soares tinham ido tão longe… O estilo interventivo de Sampaio dá frutos diplomáticos na saga da libertação de Timor. Após o referendo pela independência do território, a Indonésia e as milícias pró-Jacarta trazem o caos e a destruição. António Guterres exerce pressão máxima sobre a administração Clinton e chega ao ponto de pôr em causa alguns dos compromissos na NATO. Jorge Sampaio convoca o embaixador dos EUA, em Lisboa, Gerald McGowan, às cinco da manhã do dia 6 de setembro de 1999. Tem carta-branca do governo: neste dossier, o Presidente já firmara os seus créditos e se mostrara decisivo.

Em Timor, ano 2000 Com Xanana Gusmão, ao fundo Foto: D.R.

Aquando da entrega do Prémio Nobel da Paz a D. Ximenes Belo e a José Ramos-Horta, em Oslo, Sampaio dispusera-se perante o pivô da CNN, Jonathan Mann, a participar num debate de mais de uma hora sobre a situação de Timor-Leste. Enfrentando em direto o embaixador da Indonésia junto das Nações Unidas, Nugroho Wisnumurti, que intervinha a partir de Nova Iorque, o Presidente esmagou, num inglês perfeito e com sólida argumentação diplomática, jurídica e humanitária, um a um, todos os argumentos da Indonésia. Numa intervenção de repercussão global, o Presidente tinha feito mais por Timor do que décadas de diplomacia portuguesa. E o próprio Sampaio confessaria ao seu biógrafo, José Pedro Castanheira, ter sido esse “um dos momentos mais altos” da sua vida política.

10

A pneumonia de Macau

Em dezembro de 1999, uma doença grave interfere diretamente nas obrigações de Estado. Em Macau, Jorge Sampaio assiste à cerimónia da transferência de soberania do território para a China, na noite de 19 para 20 de dezembro, mas decide abandonar Macau, noite adentro, logo após a transferência: o Presidente não quer acordar num território estrangeiro depois de nele ter entrado sob administração portuguesa. Inventa-se uma visita oficial à Tailândia e dorme, nessa noite, em Banguecoque. No dia seguinte, iniciava uma visita oficial a Timor-Leste. Só que, na antevéspera, na ilha de Coloane, em Macau, Sampaio resolvera fazer uma partida de golfe, debaixo de chuva miudinha e de algum frio, e aquilo que começou como uma constipação acabou em pneumonia. Agora, o Presidente da República tinha de ficar acamado, num País estrangeiro, por tempo indeterminado. Uma crise protocolar inédita. Sem contar com o cancelamento do programa em Timor-Leste, onde o esperavam já alguns ministros da República e empresários. As autoridades tailandesas providenciaram um programa oficial para a primeira-dama, enquanto o Presidente fazia novos exames. Depois de mais dois dias retido, Sampaio responsabilizou-se, pessoalmente, pelo regresso a Lisboa

Quatro primeiros-ministros Trabalhou com Guterres, Durão, Santana e Sócrates, e com cinco governos Fotos: José Antóniuo Rodrigues e D.R.

11

Choque com Armando Vara

No final do ano 2000, Fernando Gomes é remodelado e abandona o cargo de ministro da Administração Interna, sendo substituído por Nuno Severiano Teixeira. Armando Vara, ex-secretário de Estado, é promovido a ministro da Juventude e Desporto. E o chefe de Gabinete de António Guterres, Luís Patrão, um homem do lóbi socialista da Cova da Beira, do distrito de Guterres (Castelo Branco) e amigo pessoal de José Sócrates, substitui como secretário de Estado da Administração Interna. É neste contexto que surge o escândalo da Fundação para a Prevenção Rodoviária, entidade privada destinada a gerir dinheiros públicos, para fazer o que o governo deveria fazer diretamente: promover campanhas de prevenção rodoviária, avolumando-se suspeitas de colocações de boys e de favorecimento de empresas amigas fornecedoras. Sampaio entra em parafuso: está a um mês da própria reeleição e vê o principal partido que o apoia a embrulhar-se numa mal explicada operação. Guterres é chamado a Belém e, no dia seguinte, Armando Vara é forçado a demitir-se (arrastando o sucessor na secretaria de Estado, Luís Patrão). Com a determinação dos indecisos, quando “se passam”, Sampaio dera um forte puxão de orelhas ao primeiro-ministro, ameaçando-o: “Se não rolarem cabeças, não vou ficar calado!” E pede ao assessor e constitucionalista Jorge Novais que prepare uma declaração para, se necessário, ser lida a seguir à audiência com o chefe do governo e pressionar a demissão de Vara. Ao saber da demissão, a Presidência emite um comunicado bem explícito: “As instituições públicas e privadas financiadas pelo Estado devem ser constituídas com procedimentos insuscetíveis de crítica em Estado de Direito.” E os acontecimentos posteriores – a animosidade de Vara em relação a Sampaio, refletida de várias formas públicas – têm a sua explicação

12

Cimeira das Lajes, alta tensão

A 14 de janeiro de 2001, Jorge Sampaio é reeleito com 55,55% dos votos, contra os 34,68% de Ferreira do Amaral, apoiado pelo PSD. A 16 de dezembro, na noite eleitoral que ditou a derrota do PS nas eleições autárquicas, António Guterres demite-se para evitar “o pântano”. Ouvidos os partidos, o Presidente, em vez de convidar o novo líder do PS, o seu amigo Ferro Rodrigues, opta pela convocação de eleições antecipadas para 17 de março de 2002. Um ano depois, Durão Barroso, primeiro-ministro do PSD, é o anfitrião da “Cimeira da Guerra”, quando o Presidente norte-americano George W. Bush, o primeiro-ministro britânico Tony Blair e o presidente do governo espanhol José María Aznar desembarcam nas Lajes, nos Açores, para decidir a invasão do Iraque. O líder iraquiano, Saddam Hussein, é acusado de esconder dos observadores internacionais um enorme arsenal de armas de destruição em massa. Mas uma equipa internacional da AIEA (Agência Internacional de Energia Atómica), chefiada pelo sueco Hans Blix, que esquadrinhou o Iraque, desmente que elas existam. A Europa divide-se, com o Presidente francês, Jacques Chirac, e o chanceler alemão, Gerhard Schröder, a recusarem a intervenção militar ocidental. Mas Espanha e Portugal seguem a linha dura, no caso português, contra a opinião e as instruções do Presidente da República que, nos termos da Constituição, além de Chefe Supremo das Forças Armadas, tem a exclusiva prerrogativa de declarar a guerra ou fazer a paz e possui competências na área da política externa. É à última hora, na antevéspera, que Durão avisa o Presidente. Segundo posteriores revelações de Sampaio, a cimeira é-lhe “vendida” como um último esforço para evitar a guerra. Foi o contrário. O Presidente “apenas” dispõe da possibilidade de dissolver o Parlamento. Um dos requisitos é o facto de estar em causa o regular funcionamento das instituições, o que, neste caso, dada a quebra de confiança, existiu. Porque não agiu o Presidente? Indecisão, falta de coragem ou interpretação errada da gravidade dos acontecimentos? Terá ponderado fatores de ordem política interna? A grave crise económica desaconselhava uma crise política? O governo dispunha de uma maioria parlamentar. E os ventos de guerra que se sentiam no horizonte não eram propícios a que se “inventasse”.

Quebra de confiança A Cimeira das Lajes foi a causa de uma surda crise institucional entre o PR e o chefe do governo Foto: Luís Barra

13

O terramoto da Casa Pia

Nesse annus horribilis de 2002, em setembro, rebenta o processo Casa Pia. O principal arguido é o apresentador de televisão Carlos Cruz (que viria a ser condenado), mas as suspeitas (que se revelariam infundadas) arrastam algumas figuras maiores do PS, entre elas o secretário-geral, Ferro Rodrigues. Mais tarde, boatos procurariam enlamear o próprio Jorge Sampaio. Sem quaisquer indícios que comprometessem os principais dirigentes do PS ou o Presidente, as autoridades acabam por indiciar e deter Paulo Pedroso, um dos delfins de Ferro Rodrigues, quadro prometedor do partido, ex-ministro e deputado-“estrela”. A sua posterior absolvição – e indemnização em 100 mil euros por parte do Estado – fornece argumentos à tese da “cabala”, segundo a qual o processo Casa Pia teria sido orquestrado no sentido de decapitar a liderança socialista e remeter o PS para a oposição durante muitos anos. Em Belém, Sampaio segue os acontecimentos com apreensão. Cartas anónimas procuram lançar para a lama os nomes de altas figuras do PS, incluindo o de Jaime Gama. Em janeiro de 2006, já no final do mandato, o tabloide24 Horas faz uma manchete sobre um certo “envelope 9”, em que constariam as faturas detalhadas de altas figuras do Estado, incluindo as do Presidente da República. Em letras garrafais, o jornal escreve: “Até os telefonemas de Sampaio foram investigados no processo Casa Pia”. Afinal, segundo garante a PGR, o “envelope 9” apenas contém a faturação detalhada do arguido Paulo Pedroso.

14

Santana para a rua!

O governo começara mal, logo na posse: Paulo Portas não disfarçou a expressão de espanto ao ver associado o seu nome no cargo de “ministro de Estado, da Defesa Nacional e dos Assuntos do Mar”. Os “Assuntos do Mar” foram surpresa, até para ele. A trapalhada prosseguiu com o discurso de posse, na Assembleia da República, uma baralhada incompreensível que o novo primeiro-ministro justificaria com as “falhas informáticas” que repetiam frases no mesmo print… A mudança de pasta de Teresa Caeiro para a Secretaria de Estado das Artes do Espetáculo, poucas horas após ter sido anunciada por Portas para a Defesa, surpreendeu toda a gente, incluindo a própria. Dois meses depois da posse, sucessivos erros no concurso de colocação de professores dos ensinos Básico e Secundário em setembro e o consequente atraso no arranque do ano letivo não encontram qualquer explicação plausível da parte do ministério tutelado por Maria do Carmo Seabra. Em outubro, o ministro dos Assuntos Parlamentares acusa o comentador Marcelo Rebelo de Sousa de odiar o governo. Finalmente, apenas quatro dias após ter tomado posse do cargo de ministro, Henrique Chaves despede-se, acusando o chefe, na Lusa, de “falhas de coordenação e falta de lealdade”. Precisamente na véspera desta demissão, Cavaco Silva publicara o artigo em que criticava o fraco desempenho do governo, defendendo ser tempo de “os bons políticos afastarem os maus políticos” – o célebre texto da “boa e da má moeda”. Chamado de urgência pelo Presidente para uma reunião, a 29 de novembro, Santana soube que estava demitido. Sampaio iria dissolver o Parlamento. O resultado foi a única maioria absoluta do PS liderado por José Sócrates. Foi o povo que o elegeu, quando podia ter reconfirmado Santana. E se os portugueses estavam longe de imaginar o que se passaria depois, porque havia Sampaio de o fazer?…

Foto: Pedro Jorge Melo

15

Secretamente amado?

Em política, é muito mais difícil ser respeitado do que ser popular. Pouco expansivo, embora emotivo; com pouca capacidade de comunicação, embora bom orador; pouco carismático, embora um líder nato; de convicções inabaláveis e objetivos precisos, embora dado ao consenso, Jorge Sampaio nunca foi um político empolgante. A ausência de polémica ou de polarização em torno da sua figura não mobilizava as massas. E o seu papel na História, pouco histriónico, passa, volta e meia, erradamente, por “discreto”. Depois de ter deixado a Presidência da República, não voltou a intervir politicamente, mas dedicou-se a causas maiores: enviado especial do secretário-geral da ONU (Kofi Annan) Para a Luta Contra a Tuberculose, depois alto representante da ONU para a Aliança das Civilizações e vencedor do Prémio Nelson Mandela, e, finalmente, empenhado no apoio aos estudantes sírios em Portugal – e, nos últimos dias de vida, decidido a repetir a fórmula com as meninas afegãs –, Sampaio viu serem-lhe aproveitadas, pelas mais altas instituições mundiais, a sua vocação de homem solidário, a sua cultura, o seu fino trato nos areópagos internacionais, o seu sentido diplomático e os seus conhecimentos que fazem dele um dos portugueses mais prestigiados da História. Notou-se que, de uma certa forma, o elogio fácil que se faz dos mortos teve, desta vez, o toque especial de ser sincero e unânime. O funeral de Estado foi uma homenagem que entrou pelas casas dos portugueses, provocando recolhimento e reflexão interior, envolvido pelo mesmo silêncio, entrecortado de aplausos contidos, que se verificou na passagem do cortejo. Talvez ele o não soubesse, mas terá sido discreta, secretamente amado pelos seus concidadãos.

Últimos anos No terreno, como enviado especial do secretário-geral da ONU, Kofi Annan. Em cima, a cerimónia fúnebre, nos Jerónimos Foto: Marcos Borga

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Teste em vídeo ao mais recente Tesla Model 3

Já conduzimos o Tesla Model 3 Standard Range Plus. Trata-se do modelo mais acessível da marca, só com tração traseira e uma bateria de menor capacidade face às outras versões. Traz o melhor sistema de apoio à condução do mercado e está preparado, segundo a Tesla, para condução autónoma total, logo que o software esteja pronto e a lei assim o permita.

Visão Saúde
VISÃO Saúde

Novo estudo relança a dúvida sobre possíveis efeitos cancerígenos dos desodorizantes com alumínio

Os investigadores explicam que o alumínio presente em alguns desodorizantes "altera o DNA das células através de métodos equivalentes aos de substâncias cancerígenas reconhecidas, confirmando assim o seu potencial cancerígeno"

Exame
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Portugal "vendido" em feira na Alemanha como país de engenheiros e politicamente estável

Governo espera que mais de uma centena de empresas responda à chamada para representar Portugal enquanto país parceiro da Hannover Messe 2022, considerada a principal feira de tecnologia industrial a nível mundial. PME terão apoios à participação para mostrar. a alemães e não só, o melhor que se faz na indústria nacional. Que se destaca para além dos custos de mão de obra, diz o Executivo.

Exame Informática
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Aí estão os novos MacBook Pro

Apple Unleashed foi o palco da apresentação das novas propostas da empresa de Cupertino. Estes MacBook Pro trazem conector MagSafe, chips M1 Pro ou M1 Max estão disponíveis em versões de 14,2 ou 16,2 polegadas

Se7e
VISÃO sete

Já se sabe qual é o Melhor Pastel de Nata da região de Lisboa

Foi logo à primeira. A Padaria da Né, na Damaia, estreou-se no concurso do Melhor Pastel de Nata e ficou em primeiro lugar

Autárquicas 2021

Autárquicas: Moedas quer trabalhar "de forma incansável" para gerar consensos em Lisboa

O presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, comprometeu-se hoje a trabalhar "de forma incansável" para gerar consensos, com a obrigação de respeitar a legitimidade de cada vereador e o direito de exigir o respeito pelo mandato executivo

Exame Informática
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Plataforma de streaming da Globo chega a Portugal

Serviço da Globo com mais de 1000 títulos e 30 conteúdos originais exclusivos estreia-se em Portugal. Big Brother Brasil, Verdades Secretas 2 ou a telenovela O Clone são alguns dos títulos disponíveis