Autárquicas: Os candidatos sub-30

“Mas tens 20 anos e vais ser candidato à Câmara Municipal?” foi a reação de incredulidade, quando Mário Bettencourt Amaro, aluno do mestrado integrado em Engenharia Aeroespacial, contou aos colegas do Instituto Superior Técnico que era candidato à Câmara Municipal de Alenquer. A semanas de mais umas eleições autárquicas, a surpresa é justificável, quando, segundo os dados mais recentes da Direção-Geral da Administração Interna (DGAI) sobre o perfil dos autarcas eleitos em 2013, a média de idades ronda os 49 anos.

Mário está agora no terceiro ano de um dos cursos com a média mais alta do País e o envolvimento na política pode não parecer um passo óbvio. Mas as surpresas não acabam aqui – e o ambiente familiar explica alguma coisa: “A minha mãe foi comunista, em jovem, e o meu pai chegou a ser segurança de Álvaro Cunhal”, conta. O que torna ainda mais improvável a posterior filiação dos membros do seu núcleo duro familiar… no CDS.

“Misha” Shemliy  Volt  | Tomar
Candidato com dois países no coração, finalista em Gestão, tem como referência o Presidente da Ucrânia, seu país de origem

A filiação partidária vem, assim, dos 17 anos, tendo-se iniciado à boleia da reativação da Juventude Popular (JP) de Alenquer. Aos 18 anos, transitou para o partido e no último Congresso do CDS-PP, em janeiro de 2020, que elegeu Francisco Rodrigues dos Santos para líder, foi-lhe proposta a liderança da Distrital de Alenquer. Tinha 19 anos. Um ano depois, ao apresentar uma das candidaturas mais jovens desta corrida às autárquicas, o presidente “Chicão” já chamava “Marão” a Mário. Agora, o futuro engenheiro aeroespacial é cabeça de lista pela coligação Fazer Cumprir Alenquer, que integra cinco partidos: CDS-PP, Nós, Cidadãos! (NC), Aliança, PPM e MPT e ainda cidadãos independentes.

Ativismo é na política
Se, entre os amigos de Mário, já habituados a vê-lo envolvido numa “panóplia de coisas”, música, desporto e o pelouro de política educativa na Associação de Estudantes da sua universidade, a reação passou da incredulidade ao respeito, entre os próximos de Diogo Chiquelho as reações não terão sido muito diferentes. Diogo, 22 anos, viu o associativismo estudantil “impulsionar a veia política”, e já integra o Núcleo de Estudantes de Direito e Solicitadoria e a Associação Académica da Universidade Lusíada do Porto. “Não é à toa que quase todos os nossos políticos tiveram uma bagagem associativista muito grande, é algo muito semelhante à atividade política”, afirma. Recém-licenciado em Direito, é a aposta do PAN para a Câmara Municipal de Viseu. Quando comunicou a decisão aos pais, a reação foi de cautela. “Estamos a falar de um jovem que está a entrar num mundo de tubarões e obviamente eles têm receio de que seja comido vivo. Mas, apesar de ter 22 anos, já mostrei capacidade para que confiem em mim e para dar a cara por uma candidatura.

Ana Isabel Silva  BE | Santo Tirso
Em 2017, a investigadora de Bioneurologia não tinha um candidato do BE, em quem votar, na sua terra. Agora, é ela

O jovem jurista é natural da freguesia do Campo, em Viseu, lugar que parece encaixar na perfeição num candidato que afirma uma grande ligação ao ambiente, à ecologia e à questão animal. “Sempre fui muito crítico e desde pequeno que tive atenção às questões políticas. Na escola, era aquele aluno com quem o professor se chateava porque me insurgia contra o que achava errado. Depois acabava por ‘levar por tabela’”, conta.

Recorda como aos 13 anos já tinha interesse pelos telejornais, pelos debates da Assembleia da República. Aos 18 anos decidiu que era a sua vez. “Entendi que uma das melhores formas para exprimir o nosso ativismo é a política, é por aqui que tudo se consegue. Ora, não me identificando com ideologias de esquerda ou direita, conceitos que considero caducos e castradores, acabei por me filiar no PAN.”

Filho do “Euromaidan”
Aos 22 anos, não é a primeira vez que Diogo representa o PAN em eleições – já nas autárquicas de 2017, com apenas 18 anos, integrou a lista à Assembleia e à Câmara Municipal de Viseu, e em 2019, nas legislativas foi o nº 3 pelo círculo eleitoral de Viseu à Assembleia da República. Já Mykhaylo Shemliy, mais conhecido pelo diminutivo Misha, candidata-se à Câmara Municipal de Tomar nas suas primeiras eleições – e nas do próprio partido, o Volt.

Misha é natural da Ucrânia. “Mas, para mim Portugal já é como o meu país, tenho dois países que são meus”, diz entre risos. O jovem não esquece o passado do seu país que o despertou para a política. “A Revolução Ucraniana de 2014 [movimento conhecido por “Euromaidan”] teve impacto na minha mentalidade e levou-me a prestar mais atenção a movimentos políticos”, explica. O seu país de origem continua a inspirá-lo, apontando como referência o atual Presidente, Volodymyr Zelensky. “Era um comediante e agora está a sair-se bem, o que só nos mostra que a democracia pode levar qualquer cidadão a qualquer cargo”, anota.

Marcos Gomes   IL | Santarém
Aos 20 anos, foi “mandar vir” para a Assembleia da República. Hoje, este gestor de produtos sabe o valor de fazer ouvir a sua voz

Tal como Zelensky, também Misha não tem qualquer background político: aluno do último ano da licenciatura em Gestão de Empresas no Politécnico de Tomar, foi há apenas três anos, em 2019, que começou o seu envolvimento. Entrou para o Volt, dois anos após ser fundado como movimento em Portugal, começando como vice-coordenador da distrital de Santarém. A falta de experiência é uma crítica à qual Misha já está habituado. No entanto, encara-a como algo positivo. “De experiência já todos estamos fartos. Na maioria do País as caras não mudam e esse é que é o problema.” Vê numa câmara municipal jovem a oportunidade de “inovação, mudança, motivação e entusiasmo”, como explicou na apresentação da candidatura, num discurso iniciado com “algum nervosismo”, mas que acabou confiante.

Apresentação “foi brutal”
Também Gonçalo Santos, 24 anos, recorda com emoção o dia em que apresentou a sua candidatura pela CDU à Câmara Municipal de Sernancelhe. “Foi brutal”, afirma. Congratula-se de ter conseguido reunir 50 pessoas no bar da “praia”, não o dos famosos Morangos com Açúcar, mas da sua terra, o Freixinho, perto do rio Távora, que “tem muita água, mas não tem praia fluvial”. “Nesse dia até comi menos. Inverti a pirâmide de Maslow”, afirma, divertido, explicando como colocou a realização pessoal à frente das necessidades físicas, subvertendo a teoria do psicólogo Abraham Maslow. As referências a grandes autores não poderiam faltar ao estudante do mestrado em Ensino de Filosofia no Ensino Secundário, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde também se licenciou em Filosofia, e onde teve a oportunidade de dar algumas aulas.

Gonçalo Santos   CDU  | Sernancelhe
Estudante de mestrado de Ensino de Filosofia, ofereceu-se para avançar como candidato. E a sua juventude é um trunfo

O jovem comunista rejeita ser tratado pelo termo millennial ou geração z, nomes que considera que “não ficam bem [aos jovens]” pelas dificuldades que enfrentam, “quer a tentar arranjar emprego, nos baixos salários ou a concretizar os seus sonhos”. Pelo contrário, vê-se como alguém cujo objetivo é “fazer renascer a força de Abril”, mês que desempenha um grande significado na sua vida. Tem 24 anos, feitos “antes de abril”, em março, e, foi também no mês dos cravos que decidiu propor ao partido a sua candidatura. “Disse que estava interessado em participar e em dar extensão ao projeto. Eles aceitaram e chegámos a acordo facilmente, porque viram que estava muito empenhado”, conta.

“Carreira” desvirtua política
Nas redes sociais, os comentários são positivos, evidenciando que a juventude é “o futuro” e “a força motriz”, qualidades que também ressaltam entre as pessoas da sua lista. “Convidei um senhor que se declarou feliz – ele já não via a hora em que apareceria uma candidatura da CDU forte e válida e disse-me que lhe nasceu uma alma nova. Também um professor, que adorei ter como docente, afirmou que eu era um jovem dinâmico e que era um grande erro se não me ajudasse. Eu vibro com isto e eles veem isso”, explica. E conclui, citando Ortega y Gasset: “O homem não pode fugir à sua circunstância.”

Tal como Gonçalo, também Marcos Gomes rejeita a ideia de uma carreira na política. Encarando esta atividade como uma forma de fazer a diferença na vida das pessoas. Marcos tem 24 anos e é filiado na Iniciativa Liberal (IL) desde o final de 2019. O jovem lembra como recebeu com surpresa o convite para ser o candidato do partido à Câmara Municipal de Santarém. “Uma questão que coloquei foi se a idade não podia ser um obstáculo, e a resposta foi clara: ‘São os jovens que vão continuar Portugal e precisam de espaço para trabalhar e ter voz ativa.’” Agora, só vê vantagens numa equipa mais jovem: “Somos jovens, conscientes, qualificados e com espírito crítico, portanto esta idade traz vantagens que a experiência não garante”, afirma, confiante.

Mário Bettencourt Amaro   CDS | Alenquer
Até o “Chicão” já chama “Marão” a este futuro engenheiro aeroespacial. Os amigos passaram da incredulidade ao respeito…

Aos 20 anos, foi à Assembleia da República defender a continuação dos apoios financeiros às escolas privadas, nomeadamente ao Colégio Infante Santo, onde estudou, apesar de na altura já não o frequentar. Não conseguiu levar a sua avante, mas percebeu a importância de se fazer ouvir. Defende que existe hipocrisia quando se fala do envolvimento dos jovens na política. “Se não se interessam pela política, estão alheados. Se querem envolver-se, não têm experiência…” A terminar o mestrado em Controlo de Gestão, no Instituto Politécnico de Leiria, Marcos trabalha como gestor de produtos e orgulha-se de “não depender da política para viver”. “Não tenho a perceção da vida política como uma profissão, isso desvirtua o conceito.”

A primeira vez, em Santo Tirso
Ana Isabel Silva orgulha-se da herança familiar, que só recentemente ficou a conhecer. “O meu avô foi filiado num partido político de esquerda, depois do 25 de Abril, e chegou a ser deputado municipal em Santo Tirso. Só tomei consciência da importância disso depois de ele ter falecido”, conta, saudosa.

Diogo Chiquelho   PAN  | Viseu
Recém-licenciado em Direito, considera os catálogos ideológicos de esquerda e direita caducos e castradores

Aos 26 anos, nascida e criada em Santo Tirso, numa “família de esquerda”, Ana Isabel Silva é conhecida como ativista pelo fim da precariedade na ciência – um dos motivos que incentivaram a filiação partidária. Ana está a fazer o doutoramento na Universidade do Porto, onde também realizou a licenciatura em Bioquímica e o mestrado em Neurobiologia e é investigadora no i3S – Instituto de Investigação e Inovação em Saúde.

Hoje, orgulha-se de representar pela primeira vez o BE na sua terra como candidata à Câmara Municipal de Santo Tirso. Na apresentação da candidatura recordou ter sentido uma “sensação amarga” nas autárquicas de 2017: tinha exercido o dever de voto, mas não se sentiu representada. “Sempre votei no BE e naquela altura não tinha sequer essa opção. Tenho recebido imensas mensagens a agradecer, de pessoas que vão pela primeira vez votar no BE e numa mulher jovem”, conta. Segundo a candidata bloquista a Santo Tirso, “está na altura de a geração mais velha da política olhar para aquilo que os mais novos estão a trazer para cima da mesa”

O exemplo de Assis


Em 1989, o candidato socialista à Câmara de Amarante tinha apenas 24 anos. Francisco Assis, já licenciado em Filosofia, ganhou, com 45,6% dos votos e maioria absoluta em número de vereadores. Poucos auguravam um grande mandato para o então mais jovem presidente de câmara do País. Mas, em 1993, Assis seria reeleito com 58,8% dos votos e cinco em sete vereadores possíveis. Não admira que, dois anos depois, António Guterres o tenha ido buscar para integrar as listas de candidatos a deputados, tendo sido eleito pelo círculo do Porto. Daí para cá, é o que se sabe: Assis, atual presidente do Conselho Económico e Social (CES), foi líder parlamentar, deputado europeu e candidato a secretário-geral do PS.

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