José Pacheco Pereira: “O problema da direita é estar desfasada da realidade”

José Pacheco Pereira Fotografado nesta segunda-feira, 9, no polo do Arquivo Ephemera, num armazém da antiga zona industrial do Barreiro

“Caibo mal apenas na little box [a caixinha] em que me metem.” Esta frase, na nota introdutória do novo livro de José Pacheco Pereira, 72 anos, Personalia (da Tinta-da-China) que é lançado nesta quinta-feira, 12, resume a ideia de uma obra que contempla alguns textos inéditos e que recupera, sobretudo, textos publicados, ao longo do tempo, no blogue Abrupto e em jornais, revistas e publicações diversas. “A qualidade de político”, escreve Pacheco Pereira, “é, por nenhuma boa razão, avassaladora e, como tende cada vez mais a ser um insulto, com o estado atual da radicalização nas chamadas ‘redes sociais’, serve os seus fins e tem publicidade assegurada”. Por isso, o que encontramos em Personalia é o outro lado do intelectual, a reflexão transversal ao tempo – e aos tempos históricos –, a recuperação de episódios sobre figuras universais (embora, algumas desconhecidas), em que o real se confunde com a recomposição formatada pela imaginação do autor. A política está sempre lá, claro, mas Pacheco, nestes escritos de breve leitura – 168 páginas –, cose-se, fundamentalmente, às paredes da pólis. Num dos armazéns da antiga zona industrial do Barreiro, na Rua 48, onde mantém um dos polos do imenso Ephemera, o maior arquivo privado nacional, recebe-nos de mangas arregaçadas, a acarretar livros, documentos e pastas, uma das quais reúne boa parte do quinto tomo da monumental biografia de Álvaro Cunhal, que ele há de terminar um dia destes.

No seu livro, declara-se “especialista do efémero”. O que é um “especialista do efémero”?
Quem trabalha com a História percebe que muito pouca coisa fica para a História. E se isso é verdade para a História em geral, é verdade para a História de Portugal, é verdade para a História da Literatura, etc. Ou seja: percebe-se que o tempo é um implacável selecionador. E, portanto, a maioria das coisas a que atribuímos valor, na realidade, não só não tem o valor que lhe atribuímos como não deixa especial registo. Isto [o arquivo Ephemera] está cheio de coisas que entram nesse catálogo. Aliás, no prefácio do meu livro, falo de um autor, o Pigault-Lebrun [transição entre os séculos XVIII e XIX] que foi um grande bestseller e que, hoje, não só ninguém o lê como está completamente esquecido. E eu trabalho com personagens: as principais mas também com personagens secundárias e, até, terciárias. E o que é muito relevante para a História está cheio de personagens secundárias e terciárias. Essas personagens, embora não marcando nada de decisivo, traduzem o espírito do tempo.

Quer dizer que muitas das personalidades do nosso quotidiano, em Portugal, hoje proeminentes em várias áreas, terão apenas uma nota de pé de página?
Na esmagadora maioria dos casos, nem isso.

Mas consegue identificá-las?
Não, isso não consigo.

Para que anda uma pessoa a ler, a estudar, para depois vir um imbecil qualquer discutir, com estatuto de igualdade, assuntos sobre os quais não faz a mínima ideia? Por que razão uma pessoa há de mostrar-se pacífica perante alguém que diz umas banalidades e que a gente percebe que nunca leu nada?

Ora, no dia em que morre Mário Soares, por exemplo, temos a consciência de que esta figura não será apenas uma nota de pé de página…
Nesse caso, sim, como nos de Álvaro Cunhal, Sá Carneiro, Ramalho Eanes… Mas essas são figuras que protagonizam mudanças, cortes no tempo, recomeços… Posso dizer-lhe que já lidei, nos meus trabalhos de investigação, com imensa gente de extrema importância – mas que desapareceu completamente do mapa. Quando uma obra de História tem apenas um volume, em mil figuras conhecidas… nem uma sobra. Nem uma. Nesse sentido, sou, também, um especialista do efémero.

Tornou-se, então, um estudioso do tempo e do que influencia os vários tempos…
Exatamente…

E, nesse sentido, teve a necessidade de estudar o efémero. É isso que o arquivo Ephemera guarda?
Nós, na Ephemera, somos “omnívoros”. A nossa atenção quanto ao que é importante para a História vai mudando. Coisas que hoje nos parecem relevantes amanhã estão esquecidas. É um processo de seleção natural que muda com as mentalidades, com as gerações e com os tempos. Por exemplo, quando nós olhamos para a propaganda política, verificamos a ascensão e a queda de várias das suas formas. O autocolante! Usar um autocolante de um partido ou de um candidato era símbolo de pertença. “Eu pertenço a um partido. Eu apoio um candidato.” Andava-se com autocolantes na lapela, nos transportes públicos. Hoje, mesmo que surja algum autocolante, ele é retirado quando se sai do grupo (do comício, da reunião, da manifestação)… Nós, na Ephemera, estamos a cobrir as campanhas autárquicas. Pelos meus cálculos, serão, por todo o País, umas sete a oito mil candidaturas. E onde antes havia o cartaz, hoje há o outdoor. E os outdoors estão cada vez mais parecidos entre si – e não se distinguem dos outdoors dos agentes imobiliários da Remax… À distância, não percebemos a diferença e já temos fotografado, por engano, anúncios da Remax! Com uma inovação: agora há uma tendência para o “engraçadismo”, político; aqueles que já são pensados para aparecer naqueles programas de televisão que se debruçam sobre cartazes insólitos.

E os materiais utilizados na propaganda política também registam ascensões e quedas?
Sim. Registamos a ascensão e a queda do plástico. A ascensão atual de mensagens em caixas de medicamentos – já tem que ver com o envelhecimento da população. E a ascensão e a queda de muitos dos brindes que são oferecidos também é interessante e diz-nos muito sobre o tempo.

Pandemia “No princípio, navegava-se à vista, e não podia ser de outra forma. Depois, já com o conhecimento acumulado, o Governo deve ouvir os especialistas, mas tomar, ele, as decisões…”

E a evolução do conteúdo da mensagem política?
Veja a campanha presidencial de 1986: é o primeiro momento em que as águas se dividem entre a esquerda e a direita, e não entre outras identificações. As pessoas, antes, não diziam muito se eram de esquerda ou de direita; uns diziam que eram marxistas, outros que eram do CDS, outros que eram do MRPP… “Eu sou nacionalista, eu sou socialista, eu sou social-democrata”… No final, para a segunda volta, o que sobrou? Mário Soares e Freitas do Amaral. Esquerda e direita. É um momento de viragem.

Quase no início do livro, avisa quanto à sua “arrogância”. Não será antes falta de paciência? Falta de paciência para com um certo ramerrame político, social, mental?
Sim, talvez seja mesmo falta de paciência – mas é sobretudo a falta de paciência para com a “ignorância atrevida”. Para que é que anda uma pessoa a estudar, a ler, a trabalhar em determinadas matérias e aparece um imbecil qualquer que lê meia dúzia de coisas, ou passou por um programa de televisão, e acha que pode discutir os temas com o mesmo estatuto de quem se dedicou e de quem estudou? Isso é um fenómeno muito presente que as redes sociais potenciaram.

As suas críticas à deriva de direita, mais radical, do PSD remetem para a avaliação que faz ao consulado de Pedro Passos Coelho?
Em grande parte, foi Passos Coelho quem encostou o PSD à direita. Ele foi o maná que está na base da radicalização da direita portuguesa e colocou a captura do PSD no centro da vida política. A tudo isto, não é estranho o surgimento de projetos de comunicação social que colocam o projeto político à frente da própria sustentabilidade financeira e que fazem o jogo da radicalização política. Ainda que finjam que criticam o Chega, acabam por seguir os mesmos temas e a mesma agenda. Ao mesmo tempo, a crítica ao Chega, vinda do ponto de vista dos setores moderados, e dos setores moderados da comunicação social, é muito “fofinha”. Ora, a coisa mais importante que pode acontecer na política portuguesa, no próximo ano, é saber quem controla o PSD!

Essa “ignorância atrevida” tem ideologia?
É verdade que o grande ativismo da extrema-direita, nas redes sociais, nos leva a notar mais o fenómeno nesse espectro político. Mas a “ignorância atrevida” é transversal. Já discuti com “marxistas” que não fazem a mínima ideia do que estão a falar. E o que se há de fazer? Por que razão uma pessoa que, apesar de tudo leu aquilo, há de permanecer pacífica perante alguém que diz umas banalidades e que a gente percebe que nunca leu nada?

Coloca-se numa posição elitista?
Não, é diferente. Eu tenho o maior respeito pelas pessoas que não tiveram oportunidade de estudar, que não tiveram condições para melhorar a sua educação ou a sua cultura… Estou a falar de coisas diferentes.

Passos Coelho esteve na base da radicalização da direita e colocou a captura do PSD no centro da vida política. Ao mesmo tempo, projetos de comunicação social, à direita, fingem criticar o Chega, mas seguem os mesmos temas e a mesma agenda

Mas, ao mesmo tempo, no texto introdutório do livro, parece ter sentido a necessidade de dizer que não vive na torre de marfim dos intelectuais: privou com os pescadores de Espinho, conheceu o operariado do Ave, testemunhou a emigração a salto…
Não é uma necessidade, é uma constatação de facto. Se for ver, as pessoas que, aqui no Barreiro ou em qualquer lugar, vêm falar comigo, notará essa proximidade. Às vezes, as pessoas têm dificuldade em dizer o nome do programa [Circulatura do Quadrado, TVI 24], às vezes só apreenderam uma ideia, mas a gente percebe que as pessoas acompanham, se interessam e entendem. Na sua maioria, são empregados de mesa, são trabalhadores das obras, são migrantes… E eles não sentem que a minha atitude seja elitista. Quem o sente são os tais ignorantes atrevidos…

Quem não lê não vive, como diz no livro – mas os livros serão o suficiente? Serão o principal?
São bastante. As duas coisas são importantes: eu aprendi com a vida e com os livros. Os livros não serão o principal. Mas… mas…

Ao reunir estes textos, que são uma ínfima parte do que vai anotando, terá seguido um critério?
Na verdade, foi um critério um tanto preguiçoso. É que eu tenho muito pouco tempo, mas lembrei-me destes textos para transmitir um lado mais fora do habitual…

Outros interesses, outros temas de que o vemos falar menos?
O lado da curiosidade. A curiosidade é o que distingue as pessoas.

Abjuração, traição, e o que distingue ambos os conceitos, com a invocação da história de São Pedro quando nega Cristo, merece a sua reflexão. É esta a sua história? Abjurou o maoismo ou traiu-o?
Eu nunca abjurei o maoismo. Foi um período da minha vida e do meu percurso…

“Especialista do efémero” “Sei demais, vi demais e li demais para sequer me preocupar com a ideia de deixar um legado. Não penso nisso”

Agora, muita direita também o acusa de abjurar, quando não trair – como ficou demonstrado na sua evocação a Otelo. (Ver caixa.) Não se livra de ser acusado de “traidor”, por uma certa direita. Veste esse fato?
Claro que não! Nem dou muita importância a essas reações de gente que só ouve com um ouvido. Nem isso me preocupa muito. Aliás, eu aprendi mais com os meus insucessos políticos. Quando fui presidente da distrital de Lisboa [do PSD], assisti a coisas inimagináveis, do género de eu abrir uma porta e cair-me à frente um tipo que estava encostado a escutar. Pessoas que falsificaram assinaturas, que foram denunciadas em público, que reconheceram o que fizeram – e pensa que isso lhes prejudicou a carreira?… Ainda hoje estão lá, sãos e salvos… Quando se veem estas coisas, tem-se uma ideia do que pode ser a vida política…

O certo é que muita gente, no PSD, se sente incomodada com algumas das coisas que o senhor diz e escreve.
O programa do PSD foi muito maltratado pela prática do PSD. Mas continua a ser um programa reformista e social-democrata.

Essa crítica dirige-se a Pedro Passos Coelho? (Ver caixa.) A direita sempre tem um problema, em Portugal?
O problema da direita é não ter votos…

Além desse aspeto, que nome tem “o problema”? Rui Rio…
… Não!

O livro “Personalia” reúne textos dispersos em que Pacheco Pereira mostra uma diversidade de interesses reveladora de um homem eminentemente curioso. “É o que distingue as pessoas”

André Ventura? António Costa?
Não. O problema é estar desfasada da realidade. É uma sequência de atos que traiu a base natural de apoio do PSD e, mesmo, do centro-direita, nomeadamente, durante o período da Troika, sacrificando as classes médias-baixas e os mais desfavorecidos.

Num dos textos recuperados para este livro, o senhor defende que os políticos não têm um poder significativo…
E não têm. Veja o Paulo Morais, por exemplo, e a sua pugna pela “transparência”, em que ataca muito os deputados. Eu tenho uma objeção contra aquele discurso. A maioria dos alvos dele não tem nenhum poder. E, depois, passa ao largo dos que têm. Só uma pessoa que não percebe o funcionamento da corrupção em Portugal é que pensa que os deputados têm poder. As decisões estão noutro nível, nos gabinetes, nas pessoas que certos poderes fáticos aprovam ou vetam – sobretudo vetam – porque não são “fiáveis”…

O regime de “marca PS” acentuou este ambiente, é mais permeável aos tais poderes fáticos ou a situação é igual ao que sempre foi?
O fenómeno é transversal. O PS, que supostamente está mais distante desses poderes, acaba por fazer mais “favores”. As políticas de direita satisfazem mais naturalmente – e não pelo regime do “favor” – certo tipo de interesses. É verdade que tivemos o caso de Sócrates – mas, no fundo, a corte que o seguia é sempre a mesma de outros governos, quer à esquerda quer à direita. Eu não afirmaria que o fenómeno da corrupção se acentua com os socialistas no poder.

O Chega, pela sua crescente expressão eleitoral, afirma que não haverá alternativa de direita sem eles. Será assim?
Com o Chega, a direita radicaliza mas não cresce. Cresce o Chega à custa dos outros, à direita, que se esvaziam. Se bem que, se o PSD se radicalizar, também contém a subida eleitoral do Chega…

Democracia e demagogia são muito parecidas, têm pontos comuns. O que as separa é que a primeira tem regras e a segunda não. A demagogia rejeita as mediações, e o jornalismo é um mecanismo de mediação. Por isso, a demagogia descarta-o e desvaloriza-o

Há quem diga, por isso, que o pior que podia acontecer a André Ventura era o regresso de Passos Coelho…
Talvez seja verdade. E o pior que podia acontecer a Passos Coelho era regressar.

Também reflete sobre a importância da mentira para o estado de saúde das relações sociais. Também é importante – e necessária – na política?
Em certos casos, também é necessária. Há vários graus que distinguem os tipos de mentira. Se perguntar a um ministro das Finanças, que detenha poderes para isso, se ele vai promover uma desvalorização da moeda, ele dirá que não – ainda que a tenha prevista para o dia seguinte. Em relação a muitas matérias de Estado, é normal que haja omissões e até mentiras. Há mentiras que são funcionais e outras que têm um papel social; outra coisa é utilizar a mentira como instrumento político.

No livro, defende que a mentira está mais difícil, por causa da tecnologia. Dá como exemplos instrumentos como o GPS ou as câmaras a gravar em direto. Mas, por outro lado, a tecnologia também potencia a difusão mais acelerada da mentira, não concorda?
Potencia, mas isso não é culpa da tecnologia: é da iliteracia. Na escola, além de aprender a ler, a escrever e a contar, seria básico aprender a ver televisão e a consultar a internet. Se vemos imagens focadas de um confronto entre manifestantes e a polícia, é importante termos a noção de que não estamos, necessariamente, a ver a verdade. Tudo é manipulado, e as câmaras não alargam o espectro. Do mesmo modo, ao pesquisar na net sobre a vacina contra a Covid-19, podemos atribuir igual valor ao conhecimento científico e a um site conspirativo. É a diferença entre a Wikipedia e a Enciclopédia Britânica. Eu já vi um trabalho escolar sobre D. Afonso Henriques em que o milagre de Ourique é atribuído a um óvni. Consultar a internet não é o mesmo do que aprender. Aprende-se lendo, observando e com uma escola que não esteja completamente desfasada da realidade, como a que nós temos. O que se passa hoje com as redes sociais, que têm a fama de democratizar o acesso ao espaço público, faz-me lembrar a diferença entre democracia e demagogia – e os gregos antigos sabiam bem como distingui-las. A primeira coisa que temos de perceber é que são muito parecidas. Têm os mesmos mecanismos: a opinião da maioria ou do comum, por exemplo. A diferença é que a democracia tem regras e a demagogia não. E assistimos hoje a uma ascensão da demagogia.

Certa direita não perdoou as suas declarações a propósito da morte de Otelo…
O que eu disse do Otelo, quando ele morreu, foi o que sempre disse. Falei do seu lado irresponsável, das asneiras que fez… As pessoas é que só ouviram uma parte. Só ouvem com um ouvido. No cômputo geral, o Otelo será recordado pelo quê? No cômputo geral, o que fica do Otelo é o 25 de Abril! E, portanto, é muito mais relevante o que ele fez no 25 de Abril do que as asneiras cometidas posteriormente. Desde o primeiro minuto, eu disse sempre isto. O Otelo escreveu o melhor livro sobre o 25 de Abril. Porquê? É pela sua leitura que percebemos por que razão a oposição, em 48 anos, não conseguiu derrubar o regime – e eles conseguiram. Todas as regras conspirativas foram quebradas. Tudo aquilo que era recomendado a quem tinha atividade política clandestina ou ilegal para enfrentar o regime, as cautelas, os cuidados, os procedimentos, foi ignorado. Se quisermos, com aquele manual, aquilo nunca se faria, mas eles fizeram.

A demagogia tanto prospera em democracia como em ditadura…
Prospera sempre e é um instrumento político que pode ser usado de forma mais benigna ou mais maligna. Mas tem um princípio comum: é contra as mediações. O jornalismo de referência, por exemplo, é um mecanismo de mediação. Ora, com o crescendo da demagogia, o jornalismo torna-se descartável e indesejado. Há o jornalismo e o “jornalismo de cidadão”, que não é jornalismo nenhum.

E a pandemia? A política submeteu-se à agenda pandémica? Ou a pandemia é um assunto “demasiado sério para ficar nas mãos dos especialistas”?
Sim e não. Lá está: as coisas não são a preto-e-branco. A condução à vista, analisada retrospetivamente, parece caótica. Mas era a única possibilidade! Só que, quando se começou a acumular conhecimento, quando se percebeu quais eram algumas das características da ameaça – aí, já não se pode viver apenas da navegação à vista. Já é necessário medir os prós e os contras: abrir ou fechar? Abrir um bocadinho ou fechar um bocadinho? E, depois, sobrevieram fatores psicológicos com os quais é difícil lidar, seja qual for o governo. O cansaço, por exemplo, e, de novo, a demagogia. Nós, Ephemera, acompanhámos as primeiras manifestações negacionistas – nem a Imprensa aparecia – em que se falava das medidas como pretexto para pôr em causa as liberdades. Ora, a “liberdade” tem sido a palavra mais abastardada dos últimos tempos. Não há liberdade entre usar máscara e não usar. Entre usar cinto de segurança e não usar. Entre usar capacete na moto e não usar…

Tudo isso depende de decisões políticas…
Evidentemente. O poder político deve ouvir os especialistas e depois decidir – não deve estar à espera de que os especialistas decidam por si.

Não tenho quaisquer razões para estar otimista quanto à aplicação destes fundos europeus. Nem pela observação do passado nem pela do presente. Os mesmos de sempre já se colocaram na fila do costume…

Num dos pequenos textos do livro, cita Paul Morand sobre De Gaulle: “Deixar a política externa nas mãos de um militar que a pratica aos 77 anos é como colocar uma navalha nas mãos de um macaco.” Os dinheiros do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) são uma navalha colocada nas mãos de alguém?
Pela observação do anterior, dos exemplos passados, não tenho quaisquer razões para estar otimista quanto à aplicação do PRR.

E pela observação do presente?
Também não. Se observarmos a lista de interessados na aplicação dos fundos, reparamos que estão lá os da fila do costume. Não me refiro apenas a empresários ou a sindicatos… Refiro-me à fila do costume, aos mesmos de sempre.

A batata portuguesa, que, em contraponto à espanhola, Paulo Portas levou, uma vez, para um debate sobre eleições europeias, foi pretexto para um dos seus textos mais duros contra Portas. Agora, faz questão de recuperá-lo neste livro. Porquê?
Não há qualquer intenção escondida ao recuperar esse texto. Apenas procurei variar a temática… Aliás, tenho-me cruzado com Paulo Portas, sempre num clima de grande cordialidade. As pessoas pensam que eu tenho algum problema pessoal com o Paulo Portas… Não é verdade. Não tenho. Tenho muito mais, isso, sim, com os “ignorantes atrevidos” de que falei antes. Com o Portas, não. Critiquei-o politicamente, apenas.

Votaria nele para Presidente da República, se ele fosse o candidato da direita contra um candidato da esquerda?
[Sorrisos.] Não! Claro que não! Embora esta seja uma daquelas perguntas a que nunca devemos responder – mas há coisas de que eu tenho a certeza: não votaria no Paulo Portas para Presidente da República.

Tolstói é um escritor recorrente nestas suas reflexões. Cita-o, nomeadamente, para homenagear a beleza poética do inverno. Parece a sua estação favorita… Ou a identificação com uma estação do ano é um estado de espírito?
Tenho uma grande admiração por Tolstói. E, sim, num certo sentido, é a minha estação favorita… mas não tenho estados de espírito!

Paulo Portas? ‘‘As pessoas pensam que eu tenho um problema com o Paulo Portas. Não tenho. Mas não votaria nele para Presidente da República. É daquelas perguntas a que eu não devia responder… mas há coisas de que tenho a certeza: não votaria!”

E assume ter em comum com Simone de Beauvoir a aversão aos parabéns cantados em locais públicos ou aos coraçõezinhos das montras no dia de São Valentim – e todas essas coisas. Irrita-o, ou incomoda-o, a exposição pública da celebração privada?
Há quem diga que sou uma espécie de “bruto afetivo”, mas o que me incomoda é mesmo a pieguice. Estamos inundados de pieguice! Rodeados de pieguice por todos os lados!

Conta uma história sobre o patriotismo – neste caso, americano –, em que entra o David Crockett e a batalha de Álamo, em São José, contra os mexicanos. E diz que já quis ser como aqueles heróis – mas acrescenta que, entretanto, cresceu. O patriotismo heroico, a ideia de morrer pela Pátria, é uma infantilidade?
Não, nada disso. O patriotismo é um sentimento nobre, embora nem sempre as formas de expressá-lo sejam as melhores. E até acho que temos falta de patriotismo, por exemplo quando nem pestanejamos ao ver que o Parlamento, sem qualquer consulta a ninguém e perante a indiferença geral, abdica de poderes de soberania, nomeadamente orçamentais [no quadro das regras europeias]. Agora, quando vejo André Ventura ajoelhado aos pés do túmulo de D. Afonso Henriques, que, ainda por cima, nem sequer é santo, isso incomoda-me… O nacionalismo é uma coisa diferente, é afirmarmos que somos superiores aos outros.

Coraçõezinhos de São Valentim? Há quem diga que eu sou um ‘bruto afetivo’. Mas o que me incomoda é mesmo a pieguice. Estamos inundados de pieguice! Estamos rodeados de pieguice por todos os lados!

O nacionalismo é “a doença infantil do patriotismo”?
Num certo sentido, sim.

O que um “especialista do efémero” constrói como legado? O arquivo da Ephemera? A obra sobre Cunhal? E onde fica um pensamento próprio? Em livros como este? Ou ainda lhe falta escrever “O Livro”?
Isso não me compete a mim julgar. Não trabalho para isso. Se quer que eu lhe diga, nem penso nisso. Como digo no livro, “sei demais para atribuir qualquer valor a um reconhecimento, por um lado, por razões dos tempos, cheios de famas de 15 minutos e de salamaleques literários, mas porque eu próprio não dou muito valor a tudo isto, porque já vi muita coisa e já li muita coisa”.

Votou no PSD de Passos Coelho?
Não. E não tenho nenhum problema com Passos Coelho. A discordância era puramente política. Mas afastei-me, por livre e espontânea vontade, de todos os cargos do PSD – e cheguei a ser convidado… – porque, quando se discorda das políticas, não se pode lá estar. E o programa, o ADN do PSD foi traído com a deslocação à direita, para além da Troika, com o ónus da austeridade a incidir nos setores da sociedade que o PSD tinha ajudado a crescer. Para mais, com a ideia errada de um conflito entre o privado e o público, esquecendo que o Estado, em países como Portugal – ou como a Alemanha ou como a França! –, tirou muita gente da pobreza. Todo este discurso nem sequer é o do grande capitalismo, mas o do nosso capitalismo selvagem e incompetente. Ora, assumir esse discurso, como fez Passos Coelho, castrou o PSD. O PSD está castrado, por muitos anos.

Mais na Visão

Mundo

Covid-19: Reino Unido com mais casos diários do que quatro países europeus juntos

O Reino Unido registou quase meio milhão de casos de infeção pelo novo coronavírus, 50 mil apenas na última segunda-feira, somando mais casos do que Espanha, França, Alemanha e Itália e juntas

Politicamente Correto

Venham de lá essas eleições

O mundo é o que é e não o que gostávamos que fosse: o PSD continua a estar infinitamente mais próximo do PS do que o BE e o PCP. Viver nesta artificialidade, nesta mistificação de que há um bloco constituído pelos PS, BE e PCP não traz nada de bom

Exame
Exame

Weidmann sai do Bundesbank. O “falcão” da política monetária mostrou a bandeira branca?

O presidente do banco central alemão pediu para sair do cargo no final de 2021, cinco anos antes do final do mandato. Na despedida, e numa altura em que a inflação está a subir, Weidmann deixou avisos sobre o rumo da política monetária. Os analistas esperam que o sucessor tenha uma abordagem mais suave

OLHO VIVO

Propostas de Paulo Rangel: "Ver clareza de ideias no PSD é algo de muito refrescante"

A batalha da liderança no PSD e a grande entrevista de Paulo Rangel à VISÃO, as negociações do OE2022 e os preços dos combustíveis estarão em análise no programa de hoje

Mundo

Mais de 20 mulheres britânicas relatam momentos de perda de memória e garantem que foram injetadas em discotecas

Várias forças policiais estão já a investigar os diferentes relatos dos casos

Exame
Exame

O fardo fiscal está bem distribuído em Portugal?

O OE 2022 promete tornar o sistema fiscal português mais progressivo. Além de saber se o conseguirá fazer, é importante pensar se precisávamos disso. Será que a distribuição entre ricos e pobres é equilibrada em Portugal?

Visão Saúde
VISÃO Saúde

Covid-19: EMA prevê recomendação sobre vacina da Pfizer em crianças dentro de dois meses

A decisão da Agência Europeia do Medicamento sobre a administração da vacina contra a covid-19 da Pfizer/BioNTech em crianças entre os 5 e os 11 anos deve ser conhecida no final do ano

Igualmente desiguais

O exemplo de Aristides: heróis póstumos

A recente crise afegã, da qual ainda não começámos a sentir nem um décimo das consequências, veio colocar questões muito concretas relativamente à aplicação da Lei e desafiar os países a cumprirem o Novo Pacto Europeu para as Migrações que assinaram, mas que, aparentemente se mantem como letra, não morta, mas… caladinha, sem ondas

Política
Exclusivo

Os casos e as contas do Chega: Partido declara receitas de 600 mil euros e promete "muito dinheiro" para as legislativas

Quem são os pequenos e grandes contribuintes, assumidos e involuntários, do partido de André Ventura? Nomes, bastidores e o que (não) dizem as contas oficiais

Visão Saúde
VISÃO Saúde

Cirurgiões testam transplante de um rim de porco para um humano pela primeira vez

O órgão veio de um porco geneticamente alterado. Os cirurgiões que realizaram a operação têm esperança de que os suínos geneticamente modificados possam oferecer uma fonte de órgãos viáveis, salvando milhares de vidas por ano. Mas ainda há um longo caminho a percorrer

Exame Informática
Exame Informática

Aumento das emissões poluentes conduz a aquecimento da água dos lagos

Estudo que combina dados da Iniciativa de Mudança Climática da ESA e modelos matemáticos conclui que a ação humana tem papel fundamental no aquecimento das águas de lagos em todo o mundo

VISÃO VERDE
VISÃO Verde

Polémica “Climate Papers”: Como os países tentaram influenciar o relatório climático

A BBC teve acesso a documentos confidenciais que mostram de que forma os governos de vários países pressionaram o IPCC para apagar várias conclusões do seu Sexto Relatório de Avaliação. A Arábia Saudita, por exemplo, queria retirar a “necessidade de mitigação urgente” das alterações climáticas. E houve outros países a defender, na sombra, o carvão e o petróleo