Autárquicas: Carlos Moedas, o candidato que ainda tem de se apresentar em Lisboa

Contratempos Moedas está em desvantagem contra Medina: falta-lhe notoriedade na rua e programa só agora é revelado Foto: ©Enric Vives-Rubio

Bom dia. Sou o Carlos Moedas e sou o candidato à Câmara de Lisboa. Posso entrar?” Repetiu a deixa até à exaustão. Porta sim, porta sim, pela estrada de Benfica, na manhã do último sábado, 10 de julho, o candidato de PSD, CDS, PPM, MPT e Aliança à autarquia da capital entrou em restaurantes, pastelarias, papelarias, frutarias, boutiques, sapatarias. Porém, tal esforço traduziu-se somente num voto prometido.

Conta-se pelos dedos de uma mão quem atrasou o passo para aproveitar a disponibilidade do candidato. Apenas duas súplicas para tapar um buraco na estrada e outras três para salvar o Mercado de São Domingos de Benfica. Já lá vão dois meses de pré-campanha, 24 ações de rua em todas as freguesias do concelho – apenas esta com a presença de imprensa, da VISÃO –, mas quase ninguém o reconhece. Carlos Moedas mantém a postura calma, discreta, que lhe é característica, sem assumir o seu lugar no duelo contra o atual presidente Fernando Medina (PS), tal como as estruturas locais do PSD planearam.

Concelhia e distrital sociais-democratas e o antigo comissário europeu andam a dois ritmos. Pelas primeiras, a aposta consistiria numa retórica que sublinhasse as propostas por cumprir de Medina e as responsabilidades do autarca socialista no caso Russiagate. Quanto ao candidato, a opção passa por se concentrar no programa, que deixou até esta quarta-feira por apresentar. As propostas da coligação para a cidade surgem uma semana após Medina se ter lançado oficialmente na corrida eleitoral, logo com uma proposta concreta de encher o olho – tornar as creches gratuitas para a classe média, ao longo do mandato, até 2025.

Replicar exemplo do PS No deserto Mercado de São Domingos de Benfica, Moedas defendeu que o espaço tem potencialidade para ser “renovado”, “à imagem do de Campo de Ourique”, na freguesia liderada por Pedro Costa (PS), filho do primeiro-ministro Foto: ©Enric Vives-Rubio

O presidente da distrital de Lisboa do PSD, Ângelo Pereira, admite esta divergência de estratégias, indicando que Carlos Moedas está “mais concentrado em apresentar soluções” e a distrital “queria mostrar mais as falhas de Medina, que tem revelado muitos problemas de carácter e tem feito muito mal à cidade”. Contudo, acrescenta que percebe e apoia a fórmula idealizada pelo candidato, e que não há qualquer dificuldade de comunicação entre a equipa que acompanha mais de perto Moedas (elementos próximos da direção nacional, como Paulo Ribeiro, João Montenegro e Hugo Carvalho) e as estruturas locais laranjas. Da concelhia também há um esforço em passar uma imagem que contrarie os alegados conflitos e tricas que andarão a minar a candidatura. Luís Newton, o presidente, garante que “não há nada que tenha sido implementado no terreno sem o aval do candidato”, desmentindo que os cartazes, pagos pela concelhia, que apontavam falhas à liderança de Medina, não tenham sido aprovados por Moedas, como afirmam fontes ligadas à estrutura local.

O cientista político José Filipe Pinto fala numa “discrepância evidente entre o partido e o candidato” por causa da postura de um e de outro, sugerindo que o caminho da campanha deveria ser o identificado pelas estruturas locais, “quando estas avançaram com os cartazes a identificar os erros de Medina, só não identificaram as falhas todas”. “Moedas está a apostar numa política soft, numa mensagem de tranquilidade, como se o cargo de comissário europeu fosse um ativo”, analisa o também professor na Universidade Lusófona, que acrescenta que “isto é uma luta a dois” e que se Moedas quiser ganhar vai ter de atacar mais e aceitar toda a ajuda vinda das máquinas partidárias que o apoiam, em especial do PSD.

Rui Rio tem as maiores expectativas em relação a Moedas e já disse que ganhar Lisboa, no próximo dia 26 de setembro, seria “um marco que suplantaria” todos os objetivos dos sociais-democratas para as autárquicas. Apesar de tal meta, financeiramente o líder do PSD não dá carta-branca a Moedas. Já o secretário-geral e coordenador autárquico do partido, José Silvano, mete a pressão toda no próprio candidato – que, do seu ponto de vista, é quem tem mais a perder com um mau resultado, uma vez que fica de fora da corrida à sucessão de Rio.

Correr atrás do prejuízo
Outro fator que pesa a Moedas é o tempo que este demorou a transmitir as suas propostas concretas para a cidade, sobre a habitação, os problemas de estacionamento, o setor social, a economia, a cultura e a fiscalidade. Quis aconselhar-se com os partidos, com as pessoas que o acompanham. Só que deixou o verão chegar sem as divulgar, adiando o momento até esta quarta-feira, 14 de julho. O que, explica o politólogo José Filipe Pinto, pode jogar contra si: “No verão, a cidade está entregue aos turistas e aos pombos. Deveria ter divulgado aos poucos as ideias em vez de concentrar tudo em meados de julho, uma altura em que é mais difícil falar para os lisboetas.”

Pode ter perdido tempo crucial para se dirigir às pessoas e lhes explicar as suas ideias. “Carlos Moedas rodeou-se de intelectuais, mas quem ganha as eleições locais não é a intelectualidade. É o afeto”, continua José Filipe Pinto, que aponta a Moedas “falta de carisma, de pragmatismo”, e vaticina que se “continuar a não conseguir chegar às pessoas” corre o risco de “ter menos votos do que Teresa Leal Coelho [candidata do PSD a Lisboa] e Assunção Cristas [CDS], em 2017”, que juntas ficaram a 26 mil votos de Fernando Medina.

Carlos Moedas rodeou-se de intelectuais, mas quem ganha as eleições locais não é a intelectualidade. É o afeto

José Filipe Pinto, politólogo

À VISÃO, Carlos Moedas – que saiu da administração da Fundação Calouste Gulbenkian, onde não foi substituído, para aceitar o desafio de Rio – garante não encontrar desvantagens na sua estratégia. Diz gostar de falar com as pessoas e que, apesar de uma primeira sondagem o colocar 20,9% atrás de Medina e de reunir menos interação nas redes sociais, os lisboetas estão a reagir bem à sua campanha e que há mais pessoas que pensam votar em si do que aquelas que o expressam.

Ora, a passagem pelo Mercado de São Domingos de Benfica não foi o melhor exemplo de tal leitura. A equipa que acompanhou Moedas – onde seguiam o candidato à junta pelo movimento Novos Tempos, o fadista José da Câmara, Filipe Anacoreta Correia, do CDS, e o líder da distrital do PSD, Ângelo Pereira – foi deixando panfletos pelas duas únicas bancas abertas. O ex-comissário europeu interessou-se pelos problemas de Augusta Dias, 65 anos, vendedora de fruta e legumes. Todavia, mal o candidato se afastou, a comerciante – que não largou o molho de agrião que arranjava – não escondeu que já ouviu “muitas promessas” para revitalizar tal mercado, mas que continua ali “sempre à espera”. “Se tivéssemos estes clientes todos hoje é que era bom”, admitiu, a olhar para a comitiva que seguia Moedas.

“As pessoas estão com medo”

Moedas admite que a aposta é ganhar notoriedade, que faltará à candidatura. Mas recusa que Medina esteja em vantagem, como apontam as sondagens

Há dois meses na rua, uma sondagem a dar-lhe metade das intenções de voto de Medina e umas redes sociais tímidas. Está a conseguir chegar às pessoas?
O que sinto, quando ando na rua, é que as pessoas querem realmente uma mudança. Mas também vejo que as pessoas têm medo de dizer que vão votar noutro candidato; têm medo de dizer que querem mudar. O mesmo acontece nas redes sociais.

Sente desvantagem por as pessoas não o conhecerem bem?
Tenho uma vantagem clara no contacto direto, porque gosto mesmo muito de pessoas – gosto de estar com elas, de ouvi-las. E, em Lisboa, as pessoas sentem que não são ouvidas. Sou diferente de Fernando Medina. É uma questão de tempo e de me ir dando a conhecer aos que não me conheciam. É nesse caminho que estamos.

Além dos partidos, quem são as pessoas que o acompanham?
Temos muitos independentes. Por exemplo, a Helena Sacadura Cabral, o Francisco Guimarães, um jovem treinador de futebol de 24 anos, várias pessoas ligadas à ciência, como o Pedro Simas, o Ricardo Mexia, a Isabel Galriça Neto. Dão ideias transformadoras para fazermos de Lisboa uma cidade que cuida realmente das pessoas.

E a quem pede conselhos?
Falo com muitas pessoas sobre temas diferentes. Quando estou virado mais para a parte social, falo muito com a Isabel Galriça Neto, porque conhece bem o terreno. Falo muito com a Laurinda Alves sobre comunicação. No dia a dia, falo com as pessoas que me rodeiam, os meus assessores, a minha equipa. É uma rede de pessoas muito forte, que me tem apoiado no percurso que fiz de forma meritocrática.

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