Governo: Crónica de uma remodelação por anunciar

Foto: Miguel A. Lopes/ LUSA “A meus braços!” António Costa continuará a segurar Eduardo Cabrita – pelo menos, mais algum tempo

No mesmo dia em que António Costa foi mandado para casa, para cumprir isolamento profilático, o caso do acidente com o carro de serviço do seu ministro da Administração Interna ganhava uma dimensão política imprevisível. À distância, confinado, António Costa observou, pela TV, o momento fatal em que, perante repórteres, o Presidente da República, acompanhado por Eduardo Cabrita, instava o ministro a prestar esclarecimentos sobre o caso. A “crise Cabrita” agravava-se: o ministro era entalado, em direto, por Marcelo Rebelo de Sousa, num derradeiro episódio de um mal-estar continuado, entre Belém e o MAI, desde o caso Ihor Homeniuk (o ucraniano morto nas instalações do SEF no aeroporto de Lisboa) e desde que, ainda antes das presidenciais, em resposta a alguns remoques de Belém, Cabrita insinuara que só a sua competência na prevenção dos incêndios, pós-2017, tinha permitido a recandidatura de Marcelo.

António Costa quer usar o ciclo de dois anos pós-autárquicas para atacar a maioria absoluta

Quarta-feira, dia 30, o primeiro-ministro, embora vacinado contra a Covid-19, era colocado de quarentena, sendo a “ordem” extensiva a outros membros do seu gabinete (com quem, por esse motivo, ficaria impedido de reunir presencialmente). Nesse mesmo dia, as versões contraditórias em torno do acidente, depois dos desmentidos da Brisa relativamente à alegada falta de sinalização nas obras da A6 – a propósito do atropelamento mortal de um trabalhador, pelo carro em que seguia o ministro – dominavam a agenda mediática. E, agora, o primeiro-ministro tinha de lidar com tudo isto, à distância, por ligações online ou por telemóvel.

Depois, aos vários setores do PS que já antes pediam (em privado) uma remodelação governamental antes das autárquicas, vieram juntar-se, esta semana, os líderes de PSD e CDS. Rui Rio diz “mata”: “É notório o desgaste e a desorientação do Governo.” E Francisco Rodrigues dos Santos diz “esfola”: “O Governo está a decompor-se.” Ambos sabem que Costa não remodelará a seu pedido e os dois estão a trabalhar para manter os ministros mais frágeis em lume brando. Perante isto, que fazer?

Crise “Cabrita” adia remodelação?
A reação imediata de Costa à crise Cabrita foi, apurou a VISÃO, a de não expor o ministro, enquanto o caso incendiar a Imprensa ou o inquérito ao acidente não for concluído. Se já não tinha vontade de remodelar – nem de se desfazer de Eduardo Cabrita –, “muito menos o faria em cima destas notícias”, diz à VISÃO um elemento próximo do primeiro-ministro. “Isso seria tirar o tapete ao ministro, de quem, ainda por cima, é amigo pessoal, e reconhecer a culpa de Cabrita.” E acrescenta a mesma fonte: “Por outro lado, remodelar agora mas manter Cabrita no lugar retiraria qualquer efeito mediático benéfico que tal mexida pudesse produzir.” Desta forma, em vez de precipitar uma remodelação, o caso que envolve Eduardo Cabrita apenas a empurrou mais para a frente.

Segundo soube a VISÃO, junto de fontes próximas de São Bento, a remodelação dita “antecipada” nunca esteve nas cogitações do chefe de Governo, o que o próprio reforçou em entrevista ao Público, no fim de semana. Além de resistir a remodelar sob pressão, Costa está confortável com as sondagens. A vantagem, nos estudos de opinião, mau-grado a posição menos popular de alguns ministros – a começar por Cabrita –, é lida em São Bento como uma folga que dispensa, para já, muitas mexidas. António Costa admite refrescar o Governo apenas após as autárquicas, para as quais parte em clara vantagem. Incluindo em Lisboa: a aposta na capital é crucial e esvaziar o candidato do PSD, Carlos Moedas, é entendido como prioritário, no Largo do Rato, tendo em conta, sobretudo, o potencial de Moedas como eventual sucessor de Rui Rio, no PSD. A presença e o discurso de Costa na apresentação da recandidatura de Fernando Medina, esta segunda-feira, são entendidos como prova disso.

Azeredo Lopes O ex-ministro da Defesa foi o membro do Governo que mais tempo esteve em lume brando. E só saíu numa remodelação mais alargada Foto: MB

Mesmo assim, uma remodelação terá sido ponderada, depois de notícias que davam como havendo, na direção do PS, quem pretendesse mudanças, antes da chegada dos fundos europeus, no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). A questão é que os principais “candidatos” a serem substituídos nem sequer ocupam pastas fundamentais na gestão dos fundos europeus: é impensável, por exemplo, a saída de Pedro Siza Vieira (ministro de Estado da Economia e Transição Digital), como difícil será retirar João Leão (ministro de Estado e das Finanças), João Pedro Matos Fernandes (Ambiente e Ação Climática, com o pelouro da transição energética, embora este esteja menos firme…) ou Nelson de Souza (Planeamento, igualmente menos firme do que os dois primeiros). Já Pedro Nuno Santos (Infraestruturas e Habitação) é um caso à parte, como adiante veremos.

Tendo ponderado tudo, António Costa terá concluído que, nesta fase de wait and see (primeiros efeitos da aplicação dos fundos, resultados da vacinação e evolução da pandemia, época de incêndios e preparação das autárquicas), é difícil convencer nomes fortes a entrarem no Governo. Por outro lado, os dossiers entregues a Eduardo Cabrita – precisamente o dos incêndios e o da preparação eleitoral – tornam-no praticamente indispensável, neste momento. Mas, depois das autárquicas, será outra conversa…

Contrato a termo certo
E é no cenário pós-autárquicas que o primeiro-ministro está a trabalhar. Com a imunidade de grupo atingida, o PRR sobre rodas e a economia a recuperar, é esse ciclo final de dois anos, até às legislativas, que Costa estará a pensar atacar, tendo em vista a maioria absoluta, em 2023. E que mexidas poderão verificar-se? Augusto Santos Silva, por ser uma das cabeças do executivo que melhor pensa em termos políticos, poderá transitar de pasta, para assumir funções mais próximas do primeiro-ministro. Santos Silva viaja menos do que é suposto para um ministro dos Negócios Estrangeiros e, durante a presidência europeia, pouco foi visto em Bruxelas, delegando em Ana Paula Zacarias quase tudo. Aliás, a secretária de Estado dos Assuntos Europeus é um nome forte, “até por ser mulher”, para uma promoção, ajudando a manter a (já de si, modesta…) quota feminina no Governo, caso Francisca van Dunen (Justiça) venha a sair. Outra que poderá abandonar é Marta Temido. Com a pandemia controlada, a ministra da Saúde poderá vir a declarar “missão cumprida” e querer sair credibilizada. Maria do Céu Antunes, ministra da Agricultura, e Graça Fonseca, ministra da Cultura, são consideradas elos mais fracos. Só que, para que a eventual remodelação tenha impacto e não se fique por pastas menos visíveis, a vassourada teria de incluir um nome de peso (e Van Dunen pode não bastar): com anticorpos em Belém e péssima imprensa, Eduardo Cabrita é o mais óbvio. Mas só num momento de baixa intensidade, e não sob pressão.

Quanto a Pedro Nuno Santos, tem para já o lugar assegurado, pela simples razão de que, no Governo, tem menos margem para a “conspiração”. Ele é tido como o mais forte candidato à sucessão de Costa e não perde uma oportunidade de se demarcar. Fique no Governo ou saia pelo seu pé, ele proferirá, no congresso do PS, adiado para o outono, o discurso mais aguardado. Por isso, o ministro das Infraestruturas é um caso à parte. E, a ir para casa, só se for por motivos similares aos do próprio António Costa: isolamento profilático.

Dança de cadeiras?

Nomes na corda bamba

Francisca van Dunen ministra da Justiça
Tirando Eduardo Cabrita, é o nome mais forte do Governo que pode ser substituído. Mas a necessidade de manter a quota feminina joga a seu favor…

Graça Fonseca ministra da Cultura
No seu historial de governante conta alguns casos e gaffes marcantes. Mas o seu peso junto do primeiro–ministro é um trunfo importante.

Maria do Céu Antunes ministra da Agricultura
Várias fontes ligadas ao setor consideram que a sua escolha para a pasta foi um erro de casting. Mesmo ajudando a cumprir as quotas, é o elo mais fraco.

Marta Temido ministra da Saúde
Concluída a vacinação, controlada a pandemia, é possível que saia pela porta grande, depois de ter cumprido a missão. Terá manifestado vontade de sair, mas, para já, é indispensável.

Augusto Santos Silva ministro dos Negócios Estrangeiros
É um dos pesos-pesados e o mais político dos ministros. Costa precisa dele, mas pode não ficar no MNE, mudando de pasta.

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