CGTP: Ambiente de cortar à foice

FOTO: Marcos Borga

São dias agitados aqueles que se vivem na maior central sindical do País. Há quase um ano que, como protesto, os membros da corrente socialista não comparecem às reuniões do Conselho Nacional da CGTP-IN (Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses – Intersindical Nacional). Conotados com a ala PS, tais dirigentes acusam a liderança de Isabel Camarinha de uma maior dependência do PCP, de ter deixado cair a estratégia de abertura às tendências internas – levada a cabo pelo seu antecessor, Arménio Carlos – e de travar a discussão de propostas alternativas às que são submetidas pela Comissão Executiva.

Discórdia Paulo Gonçalves (em cima), do BE, defende uma CGTP mais na rua e em protesto contra as medidas do Governo

Mais recentemente, foi a vez da tendência bloquista seguir os mesmos passos dos socialistas e mostrar o seu descontentamento. Há já pelo menos dois encontros do Conselho Nacional que os sindicalistas ligados ao Bloco de Esquerda entram na sala para, minutos depois, deixar aquele órgão de 147 elementos, que assegura a coordenação da organização entre os congressos e aprova diversas medidas, como as estratégias de luta da CGTP. Em causa estará o facto de não conseguirem que as suas propostas sejam aceites para análise – entre as quais um endurecimento dos protestos nas ruas e a reivindicação de diversas medidas junto do Governo.

Do outro lado da barricada, Isabel Camarinha garante que “não há qualquer alteração no funcionamento” da Intersindical ou “muito menos um afunilamento da democracia interna”. “A CGTP está unida e coesa na grande necessidade de organizar os trabalhadores e exigir mais e melhores respostas, face ao que tem sido obtido”, assegurou, à VISÃO, a secretária-geral e militante do PCP que já chegou a ser candidata a deputada pelo partido. “Somos um coletivo, em que todos são ouvidos e em cujos órgãos são discutidas todas as propostas. Se há conselheiros que não o querem fazer, estão no seu direito. Os atos ficam para quem os pratica”, acrescentou.

Porém, o ponto de não retorno parece estar prestes a ser atingido. Fonte da tendência socialista da CGTP explicou que, “desde o Conselho Nacional de 4 de junho de 2020, os seus dirigentes passaram a não participar nas votações”. “Com a ausência nas votações, pretendemos não legitimar as decisões da corrente comunista maioritária, que está a impor um regresso a 1977 [ano do congresso de todos os sindicatos e em que a lei sindical foi alterada, estabelecendo o princípio da pluralidade sindical]”, frisou. Refira-se que, em fevereiro do ano passado, esta mesma corrente chegou a apresentar um candidato próprio a secretário-geral.

Um passo em frente e outro atrás

Considerado, por muitos, o precursor da abertura interna da CGTP às tendências socialista e bloquista, Manuel Carvalho da Silva só mostrou tal gesto na reta final dos seus 25 anos de coordenação, quando também terá começado a ocorrer o seu afastamento em relação ao PCP – do qual era militante. Já com o seu sucessor, Arménio Carlos, que chegou a secretário-geral em 2012 e saiu em 2020 (porque se aposentou), poucas mudanças houve. Aliás, a meio da sua liderança, no congresso de fevereiro de 2016, a maioria dos 730 congressistas da CGTP chumbou as alterações aos estatutos da central sindical, que permitiriam o direito de reconhecimento, representação e participação das tendências socialista, bloquista e independente.

Membro do núcleo duro da líder, o Secretariado-Geral, e da Comissão Executiva, órgão com cerca de 30 elementos e a quem compete estabelecer a estratégia da confederação, Fernando Gomes foi então o nome escolhido. Mas o dirigente do Sindicato dos Trabalhadores da Hotelaria não poderia levar a melhor, tendo em conta que a Comissão Executiva – a quem compete indicar um candidato a secretário-geral – já tinha na calha Camarinha, que venceu.

Do lado bloquista, que só conta com representantes no Conselho Nacional, mostra-se de outra forma a insatisfação “com o facto de a CGTP estar a afunilar no que toca à democracia e perante uma nova direção que trava a capacidade de participação”. Neste caso, os bloquistas entram nas reuniões, tentam entregar as suas propostas para discussão e, perante a recusa da mesa em, alegadamente, as aceitar, abandonam o parlamento da Intersindical.

“Esta situação tem vindo a agravar-se desde o congresso: quando apresentamos documentos alternativos aos que vêm da Comissão Executiva, ou não são distribuídos a todos os conselheiros ou nem sequer há discussão”, afiançou Paulo Gonçalves, porta-voz da tendência bloquista. Para este dirigente, “há uma grande diferença entre Isabel Camarinha e Arménio Carlos”. “No último mandato [de Arménio Carlos], houve documentos nossos que foram votados – um deles até foi aprovado por unanimidade. Havia mais abertura do que a da atual secretária-geral que, se nos ouviu mais do que cinco minutos num Conselho Nacional, foi muito”, admite, adiantando que algumas das propostas desta tendência passavam por “uma grande manifestação nacional contra as decisões do Governo sobre a aplicação da ‘bazuca’ europeia e a falta de aumentos salariais”.

À frente de uma organização com mais de meio milhão de sindicalizados, Camarinha rebate estas queixas, lembrando que “o conteúdo dos documentos é sempre consensualizado e com uma margem mínima de rejeição”. “Todos podem propor alterações. Se há conselheiros que não o querem fazer, estão no seu direito”, contrapõe.

“Nunca vi nada parecido com isto”

Quatro anos após ter abandonado a Comissão de Trabalhadores da Autoeuropa, o bloquista António Chora lamenta que haja na CGTP “um fechamento em torno da líder”, que está a criar uma “sensação de claustrofobia” nas tendências que a Intersindical alberga. Aos 66 anos, 23 dos quais como representante dos trabalhadores na maior exportadora nacional, avisa: “Nunca vi nada parecido com isto que é relatado.”

“Cerram-se fileiras, para esconder as debilidades – esta é a estratégia da corrente comunista. Não é nova e vem das bases. Já no Sindicato dos Metalúrgicos do Sul havia propostas que não eram distribuídas para discussão. Ainda que Carvalho da Silva, e até Arménio Carlos, se tenha esforçado por abrir a CGTP, há um núcleo que persiste, mesmo com gente mais nova, contra a renovação e com a ideia de que, se fraquejar, há uma derrota. E acirrou-se essa forma de estar”, disse, à VISÃO, o sindicalista que chegou a ser deputado do BE, por seis meses, em 2006, em regime de substituição.

Segundo Chora, “na CGTP ninguém se guia por ideias próprias, tirando Carvalho da Silva na reta final”. “Isto causa uma maior dessindicalização. Com o patronato a unir-se a uma só voz, é lamentável que as centrais sindicais [CGTP e UGT] não negoceiem, como fazem, em Espanha, as Comissões Operárias e a UGT”, aponta.

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