Pedro Arroja sobre o Chega: “Nunca estive tão próximo de um partido”

Passou discreto pelo congresso, mas está livre para assumir um papel na arena política. Redigiu o programa económico do Chega e o partido, reconhece, é um fato que lhe assenta bem. Pode dizer-se muita coisa do gestor de ativos e patrimónios, mas ninguém é indiferente a este adepto do “milagre económico” de Salazar, Franco e Pinochet, da liberalização das drogas e crítico da presença de mulheres nas direções partidárias, “um sinal de degenerescência [a entrevista foi feita antes de se saber que Ventura reforçara a direção com mais mulheres]”.

O que o trouxe aqui?
O [ex-]vice-presidente Diogo Pacheco de Amorim, cuja família conheço há muitos anos, convidou-me para fazer o programa económico do Chega. Falta aprová-lo, mas a experiência de trabalho com o professor e coordenador Gabriel Mithá Ribeiro foi excelente.

Quais são as linhas gerais?
O programa dá primazia à sociedade civil, à livre iniciativa, à economia de mercado e defende impostos baixos. Onde os arranjos espontâneos das famílias ou das empresas resolverem problemas, o Estado não será chamado. É uma conceção de Estado flexível, oposta ao social. Um exemplo: no ranking das escolas, as primeiras 40 são privadas e, dentro delas, as católicas. Não admira: os padres e as freiras ensinam pessoas há milénios. As famílias não precisam de escolas públicas, sabem muito bem fazer escolhas. Mas a ideia central do programa é a da autorresponsabilidade, por oposição ao princípio da autovitimização, defendido pelos socialistas.

O Chega preenche-o?
Sinto muitíssima afinidade com o ideário do Chega, o partido veste o fato adequado aos portugueses, nas ideias e na doutrina. O socialismo e o liberalismo anglo-saxónico são opostos à nossa cultura católica. Ao contrário da IL, que nisso se aproxima do BE, o Chega não é liberal nos costumes. Eu, se calhar, até sou, mas não fiz o programa para mim, nem para os meus quatro filhos. Fi-lo para os meus oito netos. Temos uma taxa de natalidade baixa e valorizo o facto de o Chega dar prioridade à família, enquanto os socialistas defendem o Estado, que é o monopólio da força. Em primeiro lugar deve estar a família, depois a empresa e em último o Estado.

Atribuem-se ao Chega posições extremistas. Sente-se em casa?
Na imigração, temos de ser seletivos, não podemos deixar entrar toda a gente. O critério tem de ser económico, ou seja: perceber em que setores são necessários imigrantes e dar-lhes condições. Quanto aos ilegais, temos de pô-los fora – é o que nos fazem a nós – e manter um contingente para refugiados políticos ou religiosos, como no Canadá, onde vivi. Também não me agrada a subsidiodependência, não podemos ter pessoas a viverem eternamente à custa de subsídios do Estado e que se desabituem de trabalhar. O subsídio deve ser uma solução de última instância. 

Quase aposto que vai tornar-se militante…
É bem provável, nunca estive tão próximo de um partido. Precisamos de uma força disruptiva que ataque os problemas. O principal é a Justiça. Não teremos um jogo limpo, próspero e competitivo enquanto o árbitro Estado não for imparcial e isento. O sistema de Justiça está dependente do poder político: se quiserem ser promovidos, os juízes têm de agradar ao PS e ao PSD. Estranho, por isso, que, numa Justiça tão lenta como a nossa, o André Ventura tenha sido condenado, no caso do bairro da Jamaica, em poucos meses. E o mesmo aconteceu com a pronúncia do presidente da Câmara do Porto, pessoa honorável, no caso Selminho, em ano de autárquicas. Isto é batota feita por PS e PSD. De resto, a questão do extremismo não me preocupa. Devo ser o economista a quem têm atribuído mais adjetivos, incluindo esse. Confio na minha cabeça. Se a minha mulher e os meus filhos me dissessem isso, ficaria preocupado. Mas estou casado há 45 anos e não devo ser esse louco, extremista ou radical que pensam. Estou reformado e tenho toda a liberdade para me dedicar à política, não preciso dela. Espero que acredite que não estou no Chega à procura de um emprego…

Faço-lhe essa justiça…
Não vejo onde está o mal de o Chega ser radical. O radical vai à raiz dos problemas. É preciso abanar isto e tem de ser alguém vindo de fora do sistema. É uma alteração necessária e desejável. O Chega vai às raízes da cultura nacional, defende um liberalismo comunitário e um programa compatível com as nossas tradições. Os portugueses estão fartos deste Estado que lhes leva o rendimento e manda fazer isto e aquilo. Só falta meter-se na nossa cama e dizer como a gente há de fazer a coisa. O Chega deu-me esperança. Falta apenas a mensagem programática e intelectual que complemente a mensagem disruptiva do André. Acho que posso ajudar.

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