Gomes Cravinho: A história do ministro que enfureceu os militares

Após três anos de relativa paz com os militares, João Gomes Cravinho entrou num terreno minado, há quase dois meses, ao impor a reforma da organização dos comandos das Forças Armadas e das competências das chefias dos três ramos – Marinha, Exército e Força Aérea. O desconforto foi tal que, dada a impossibilidade constitucional de manifestações de desagrado por parte do setor, ganhou uma frente de contestação mediática, com 28 antigas altas patentes, encabeçada pelo ex-Presidente da República, general Ramalho Eanes. O ministro da Defesa, que foi a resposta de António Costa à tempestiva saída de Azeredo Lopes, devido ao escândalo do assalto de Tancos, já assegurou que, aqui ou ali, pode haver um ajustamento ao plano, que permaneceu na gaveta ao longo de vários governos e está agora no Parlamento.

À beira dos 57 anos, Gomes Cravinho é acusado pelas associações militares de avançar unilateralmente com uma alteração ao topo das estruturas, sem mostrar disponibilidade para negociar, quando as Forças Armadas se batem com a falta crónica de efetivos e de equipamentos face às exigências das operações no âmbito da NATO (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e da ONU (Organização das Nações Unidas). Esta é uma imagem diametralmente oposta àquela que o governante cultivou junto dos mais próximos e dos que consigo têm trabalhado, desde que aterrou em Lisboa, vindo da London School of Economics, no final da década de 1980.

Política Seguiu os passos do pai, João Cravinho, na década de 1990, e chegou a secretário de Estado de Sócrates, sendo um dos responsáveis pelo Tratado de Lisboa (TL) e pela cimeira UE-África. Em cima, na tomada de posse como ministro, com a equipa negociadora do TL, e com Kofi Annan


Muito cedo o atual ministro deu nas vistas. Concluídos os estudos académicos, em Economia e Relações Internacionais, e cumprido um ano e meio na Escola de Sargentos do Exército, onde esteve como alferes miliciano (contratado), Gomes Cravinho mostrou ter os genes da política. Dos quatro filhos de João Cravinho, antigo ministro das Infraestruturas do Governo de Guterres, com a britânica Ann Titterington, foi o único a seguir, ainda jovem, as pisadas do pai. Os outros três – Andrea, Julia e David – optaram por permanecer longe dos holofotes. Em 1991, com 26 anos apenas, apresentou um estudo demolidor para o então governo de Cavaco Silva, ao concluir que o abstencionismo político da comunidade portuguesa na questão do apartheid era interpretado pelos cidadãos negros como um apoio ao regime.

Financiado por Bruxelas e pelo Centro de Informação e Documentação Amílcar Cabral (CIDAC), o relatório Portugueses na África do Sul. Retrato Político de uma comunidade emigrante citava o conceituado docente Es’kia Mphahlele: “[Os portugueses] São mais racistas do que o pior dos colonialistas brancos.” Gomes Cravinho lançou aquela pedra no charco, ao mesmo tempo que preparava a tradução da peça Fera Amansada, de William Shakespeare, a pedido da atriz e encenadora Graça Lobo, avançaram à VISÃO fontes próximas da família. Em 1994, foi observador internacional, nas históricas primeiras eleições pós-apartheid, que levaram Nelson Mandela à presidência da África do Sul.


Forças Armadas tiveram, em 2020, mais 771 incorporações do que em 2019

No regresso do doutoramento em Oxford, em 1995, começa a lavrar um percurso académico. Criou o curso de Relações Internacionais na Universidade de Coimbra, com José Manuel Pureza, Boaventura de Sousa Santos e Luís Moita. “Pensámos e desenhámos um currículo inovador e de sucesso. O João, com quem tenho um companheirismo académico e laços de amizade pessoal, trazia a noção e pensamento sobre cooperação internacional, cimentados por um ativismo juvenil que terá tido no CIDAC”, sinaliza Pureza. O atual deputado do BE no Parlamento recusa pronunciar-se sobre a reforma nas Forças Armadas, mas enaltece o companheiro de academia: “Tenho dele a imagem de rigor, diálogo e liberdade de pensamento.”

A convite do secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, em 1999, elabora o relatório sobre o futuro de Timor-Leste pós-referendo sobre a independência. E torna-se representante do Estado na OGMA – Indústria Aeronáutica de Portugal, por nomeação de Júlio Castro Caldas, ministro da Defesa. É já à beira dos 36 anos, perto do pedido de demissão de Guterres, em 2001, que é empossado presidente do Instituto da Cooperação Portuguesa. Demitiu-se, em abril de 2002, no início da gestão de Durão Barroso, por discordar da fusão do ICP com a Agência Portuguesa de Apoio ao Desenvolvimento.

Família e maratonas
Gomes Cravinho é casado com Jessica Rachel Hallett, que o acompanhou, como embaixador da União Europeia, na Índia e no Brasil, de 2011 a 2018. Aquela especialista em arte islâmica e curadora do Museu Gulbenkian foi madrinha do NPO Setúbal, um dos novos navios patrulha oceânicos da Marinha, em 2019. O ministro é amante de corridas – a última, digna desse nome, foi a Meia Maratona de Lisboa, em 2019. Mas, no passado domingo, participou num corta-mato em Torres Vedras. Adora descobrir trilhos. Em agosto do ano passado, chegou a perder a orientação na Portela do Homem, Terras de Bouro, ao desviar-se para dentro do mato. Tem dois filhos já adultos, Helena e João Pedro, que frequentam o Ensino Superior fora do País. Ela, após o Secundário no UWC Atlantic College, no País de Gales, rumou aos EUA para fazer Economia, em Yale. Ele seguiu mais o trajeto da mãe e apostou em História e Arqueologia, em Edimburgo, no Reino Unido. São poucas as vezes em que surgem juntos em público. Um dos últimos eventos em que isso aconteceu foi em setembro de 2020, com Gomes Cravinho, acompanhado pelo pai, pelo tio e pelo filho, a inaugurar o monumento aos combatentes, em Alte (Loulé), de onde a família é originária. 

Os mais próximos garantem que se guia por uma pontualidade britânica. Um dos melhores exemplos, destacam, aconteceu em fevereiro de 2007, quando era já secretário de Estado da Cooperação, a convite do ministro dos Negócios Estrangeiros, Freitas do Amaral. Em Paris, na Conferência sobre o Líbano, avisou o protocolo francês de que teria de falar até às 13 horas. Abandonou o evento às 13h15, porque tinha à sua frente ainda três oradores. Com o recém-eleito secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, e a secretária de Estado dos Estados Unidos, Condoleezza Rice, na sala, o Presidente francês Jacques Chirac chegou a questionar se Portugal ainda ali estava para intervir.

Segundo Ana Gomes, com quem Cravinho chegou a cruzar-se em Timor-Leste, o ministro da Defesa “não se fica pela rama, é muito bem preparado e com um enorme sentido prático”. Terá dado provas disso com a eficaz presidência portuguesa da União Europeia, em 2007, ao organizar a cimeira Europa-África. “Foi um excelente secretário de Estado da Cooperação e fiquei muito agradada com o facto de ter substituído Azeredo Lopes”, admite a ex-eurodeputada, que questiona “a metodologia da reforma que levou à reação dos ex-chefes militares”. “Quando vi Ramalho Eanes, alguém tão reservado, encabeçar um grupo crítico, percebi que algo não estaria bem. É preciso discutir este tema, sobre o qual não tenho grandes objeções, se resultar numa maior racionalização e em sinergias dos ramos”, aponta.

Uma das últimas conquistas nesse governo de José Sócrates foi ter conseguido que o País se sentasse no Conselho de Segurança da ONU, na qualidade de membro não permanente – o que se verificou após a saída do PS do poder, com Gomes Cravinho a atacar na altura nas redes sociais o “atávico sentimento anti-Sócrates”.


Família Casado com Jessica Hallett, especialista em arte islâmica, Cravinho revela pouco da vida privada, como aconteceu em Alte, onde esteve ao lado do filho, do pai e do tio

Um perfil perfeito para Costa serenar um setor debaixo de fogo pela gestão de Azeredo Lopes. Apesar de o ex-ministro ter saído devido ao inquérito ao roubo das armas em Tancos, acumulara outras polémicas, como as mortes nos Comandos ou a discriminação homossexual no Colégio Militar, que levou à demissão do Chefe do Estado-Maior do Exército. Mas, para o setor, Gomes Cravinho encetou várias roturas – a primeira das quais, no relacionamento com os representantes dos militares. “Acabou com a tradição de ter um militar como chefe de gabinete, optando por um diplomata”, disse António Costa Mota, da Associação de Oficiais das Forças Armadas (AOFA), que acusa o governante de “alguma arrogância e prepotência”. “Não lida bem com as críticas. Já é ministro há três anos e só recebeu a AOFA uma vez”, lamenta.

Fez relatório contra
o apartheid, deixou Chirac
pendurado e criticou
“atávico sentimento
anti-Sócrates” após
queda do Governo PS

Assim que o Governo anunciou a intenção de concentrar no Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, Silva Ribeiro, os poderes dos comandos dos três ramos, “foram pedidas audiências a 16 entidades”. “Passou um mês, o Parlamento já aprovou na generalidade a Lei de Defesa Nacional e a Lei Orgânica de Bases das Forças Armadas, e o Ministério da Defesa nem sequer nos respondeu”, critica.

Cravinho tem destacado o “apoio muito alargado” à reforma, pelo facto de o PSD estar ao lado do PS. Contudo, desconhecem-se as alterações que o Parlamento fará aos diplomas e se Marcelo Rebelo de Sousa, que é o Comandante Supremo das Forças Armadas, promulga as alterações. Para já, apurou a VISÃO, o ministro estará a cumprir um guião que Costa terá feito chegar aos gabinetes: acelerar na execução das reformas que ficaram paradas em 2020.

Percurso

De Londres ao Restelo, onde fica o Ministério da Defesa, passando pela Índia e pelo Brasil

Academia
Na London School of Economics faz o bacharelato e o mestrado em Economia, até 1987. Regressa depois a Oxford, onde conclui o doutoramento, em 1995.

Coimbra
Cria o curso de Relações Internacionais, na Universidade de Coimbra, em 1996.

Assessoria
Assessor de Luís Amado, secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, de 1999 a 2000.

Cooperação
Presidente do Instituto da Cooperação Portuguesa, de 2001 a meados de 2002.

Governo
Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, de 2005 a 2011.

Diplomacia
Embaixador da UE na Índia e no Brasil, entre 2011 e 2018. Sai para o Ministério da Defesa.

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