Investigação: Ameaça extremista no PSD

Quando era presidente da Câmara do Porto, Rui Rio tinha um par de frases em alemão nos seus dois telemóveis. “Pensa sempre primeiro” era uma. “Aprende sempre qualquer coisa” era outra. A forma como o líder social-democrata está a gerir a estratégia do partido em relação ao Chega leva os mais críticos a pensar que talvez tenha esquecido ambas. “É fundamental uma clarificação no PSD – a discutir seguramente no próximo congresso – interditando qualquer diálogo ou entendimento, pré ou pós-eleitoral (incluindo coligações ou acordos de incidência parlamentar), em eleições autárquicas e legislativas, com o Chega”, afirma à VISÃO Jorge Moreira da Silva, ex-ministro dos governos de Pedro Passos Coelho, quebrando o silêncio a que se remeteu desde novembro.

Nessa altura, o partido celebrara um acordo parlamentar com o Chega nos Açores para assim garantir a viabilização do governo de coligação liderado pelo PSD. a pretexto do diálogo com aquela força política, o antigo vice-presidente do PSD e putativo candidato à sucessão de Rio escreveu então um artigo no jornal Público em que detalhou as razões pelas quais considera o partido de Ventura “xenófobo, racista, extremista e populista”.

Memória Francisco Sá Carneiro, fundador do PPD/PSD, rejeitou sempre acordos com o extremismo de direita e nem sequer admitia dialogar com “forças reacionárias que hostilizam os princípios democráticos”

André Ventura anunciou que pedirá uma reunião a Rui Rio para avaliar “a construção de uma maioria de direita”, mas sem confundir eleitorados. Contudo, para o ex-dirigente Jorge Moreira da Silva, qualquer acordo com o Chega “seria não só muito grave no plano dos princípios – na medida em que violaria os valores do PSD, alicerçados no personalismo, no primado da dignidade da pessoa, na igualdade de oportunidades, no combate à exclusão e na não discriminação étnica e social – como seria igualmente desastroso no plano eleitoral, entregando o eleitorado moderado e de centro ao PS”. Embora aplauda a decisão de excluir coligações com a ultradireita nas autárquicas, Jorge Moreira da Silva não ignora os sinais contrários. “Não posso deixar de expressar a minha preocupação com a presença do líder do PSD (e, já agora, dos líderes do CDS e da IL) na iniciativa do MEL (Movimento Europa e Liberdade) que, procurando federar o espaço de centro-direita, conta com a presença do líder do Chega.”

Revolta e contestação
As negociações para enquadrar a presença de Rio na convenção do MEL não foram fáceis, soube a VISÃO junto da direção social-democrata. A sua participação terá até explicações mais prosaicas, apesar dos sinais políticos dados pelo facto de, no mesmo evento, participarem três dirigentes do Chega, entre eles o próprio deputado e líder Ventura que, há dois anos, até desprezou a iniciativa. “Qualquer líder de direita e centro-direita devia estar envergonhado de participar num movimento como este (…) É um favor que me fazem não me convidarem”, afirmou então. Dois anos volvidos, ei-lo a pisar o palco, legitimado pela “aula magna” da direita.

Quanto ao presidente do PSD, não foi indiferente à amizade com Jorge Marrão, fundador do movimento e partner da multinacional Deloitte. Apesar de torcer o nariz a oradores conotados com a oposição interna – casos de Miguel Morgado e Miguel Pinto Luz –, Rio sentiu-se confortado com a participação dos socialistas Sérgio Sousa Pinto e Álvaro Beleza, mas condicionou a sua presença à circunstância de poder encerrar a convenção e não se expor a críticas ou perguntas inconvenientes da plateia. O que foi aceite.

As vozes insatisfeitas com a estratégia mansa do líder do PSD em relação ao Chega e aos populismos de direita olham desconfiadas para a convenção do MEL e levantam fervura. Em certos casos, as críticas até juntam personalidades sem afinidades pessoais ou políticas internas. “Espero que não se esteja a caminhar para um entendimento com o Chega, assumido ou implícito, nas autárquicas e também num futuro governo”, adverte Pacheco Pereira à VISÃO.

Recrutado pela direção de Rio para o órgão consultivo do Conselho Estratégico Nacional, do qual sairão as bases do programa eleitoral do PSD nas legislativas de 2023, o historiador considera “um caminho sem retorno” qualquer ponte entre os sociais-democratas e o partido de André Ventura. “O diálogo com a extrema-direita é um erro político grave que ainda espero ver corrigido”, reforça Pacheco Pereira, crítico da presença do líder na conferência do MEL, movimento que considera “braço armado de um lóbi empresarial” apostado em reconfigurar a direita à boleia do peso eleitoral do PSD. Por isso mesmo, perguntou, irónico, no Público: “O que é que Rui Rio está a fazer lá?”

Em novembro, o antigo líder da bancada “laranja” na Assembleia já avisara: o acordo parlamentar entre os sociais-democratas e o Chega nos Açores “vai envenenar o PSD e a vida política nacional”. A isso juntou-se agora a escolha da advogada Suzana Garcia para candidata autárquica (ver texto à parte), que, não pertencendo ao partido de Ventura, Pacheco Pereira considera produto da mesma massa: “A linguagem é a do Chega, ou seja, é a do populismo atual”, ilustra. “É um insulto à população da Amadora dizerem que essa é que é a boa candidatura para a Amadora. Eu, se fosse da Amadora, passava-me completamente”, reagiu no programa Circulatura do Quadrado (TSF/TVI).

Suzana e o “populismo arrivista”
A opção por Suzana Garcia já originou uma baixa no PSD: Jorge Humberto, vice-presidente concelhio, demitiu-se. “A referida estratégia política e a consequente candidatura com base no conteúdo discursivo ferem os meus princípios éticos e valores sociais, culturais e humanistas”, lê-se na carta endereçada ao líder do partido, ao vice-presidente, Salvador Malheiro, e ao secretário-geral, José Silvano. O ex-dirigente, apoiante da primeira candidatura de Rui Rio ao PSD, foi, entretanto, acusado de “parasitismo” por Carlos Santos Silva, presidente da estrutura local da Amadora. “A Suzana Garcia sabe que, na verdade, o ADN e o pensamento dela são Chega”, assumiu Ventura, em entrevista ao semanário Novo.

Com a autoridade de quem se demarcou do discurso “extremista” e dos tiques “populistas” do líder do Chega quando este encabeçou a lista do PSD à Câmara de Loures (2017), Teresa Leal Coelho ficou “absolutamente estupefacta” com o facto de a direção do partido apoiar a indicação de Suzana Garcia para a Amadora. “Até me pus a pensar: o Rui Rio, que foi um autarca corajoso no Porto e tem um perfil em linha com a educação da escola alemã, só pode ter sido enganado com a escolha desta senhora”, desabafou, à VISÃO, a vereadora da Câmara de Lisboa, negando animosidades pessoais. “Sem ofensa, mas pensei que se escolhiam candidatos pelo pensamento, pelo percurso ou pela obra feita nas autarquias, não pelo seu mediatismo. Não andamos aqui a jogar aos municípios, isto não é o Monopólio”, resume a antiga vice-presidente de Passos Coelho, chocada com o “populismo arrivista” da candidata: “Exterminar adversários políticos?! O que é isto?! Não concordo com muito do que o PCP e o BE defendem, mas quero que existam. É muito mau o PSD perder ou ganhar na Amadora com Suzana Garcia”, refere a ex-deputada.

Teresa Leal Coelho vê, contudo, diferenças entre a candidata e o líder do Chega: “O Ventura só revelou a faceta escondida quando se candidatou a Loures, mas tem pensamento, ainda que adornado com intervenções populistas, e executa a sua estratégia de forma racional, goste-se ou não.” E como deve o PSD lidar com ele? “Sem cedências nem conversas. O seu ideário não é democrático. Estive contra o acordo dos Açores e preocupa-me que o Chega seja legitimado e normalizado pelo PSD. Prefiro que o meu partido perca eleições do que desvirtue os seus valores”, assume, revelando ter conversado sobre o tema com o candidato do PSD à Câmara de Lisboa. “O Carlos Moedas garantiu-me que o Chega estava para lá do que ele considera a linha vermelha. Fiquei descansada.”

Meditar nas ideias e nos comportamentos de Trump e no trauma que a sua presidência provocou ao Partido Republicano é a recomendação de Pedro Duarte a Rui Rio. “Qualquer acordo com o Chega é uma traição à matriz do PSD e deixará marcas para o futuro. E como se vê pelo exemplo dos Estados Unidos, não basta mudar de líder para ultrapassar isso”, adverte o antigo presidente da JSD e ex-secretário de Estado da Juventude. Pedro Duarte confessa-se “preocupado” com a “deriva extremista” do partido, acusando a direção de se “colocar ao lado do BE nas questões do Novo Banco” e de estar em sintonia com o Chega “nas críticas ao regime”.

Diretor da primeira campanha presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa, Pedro Duarte detesta a expressão “cerca sanitária”, mas defende algo idêntico: “A própria palavra ‘Chega’ tem um significado. É um partido que pretende acabar com o regime, tal e qual o conhecemos. Por isso, defendo linhas vermelhas e sou contra entendimentos”, refere, admitindo exceções: “Discordei do acordo dos Açores. Embora limitado e restringido, teve dimensão nacional e isso paga-se. Mas se me disserem que, em condições muito específicas e extraordinárias, há um ou outro município onde se justifica dialogar com o Chega, posso, contrariado, aceitar. Mas não gosto.” Para ele, o erro maior no momento atual é mesmo “o PSD deixar o PS à solta e ver esvair-se o voto útil”.

O Chega contagia?
Quem contribuiu para enxofrar ainda mais a polémica foi o primeiro-ministro numa entrevista recente à Notícias Magazine. “Rui Rio apareceu na liderança do PSD como querendo disputar o centro ao PS e agora já está naquela fase de disputar a direita ao Chega. E muito mais perigoso do que o Chega é a contaminação do PSD pelas ideias do Chega”, provocou António Costa. “Não acho que seja bom para a democracia que o PSD entre nesta deriva de namoro com o Chega e de esbatimento daquilo que são cordões sanitários que têm de existir entre a direita democrática e a extrema-direita. Preferia ter menos votos ao centro e um PSD que se mantivesse no seu lugar de sempre, na direita democrática, do que esta deriva insana em que o PSD agora entrou, porque não é saudável para o futuro da democracia”, acrescentou.

“Não, não e não”, reagiu Rui Rio na RTP, dia 5. “O que é que fiz para me chegar à direita? Nada”, reforçou. A única coisa que o líder do PSD admite é o facto de, “com a autonomia que lhes cabe”, os órgãos do partido nos Açores terem feito um governo de coligação sustentado por dois votos do Chega no parlamento regional, “e com o qual estou de acordo”, garante. Segundo Rio, as exigências do partido de André Ventura para tal – reduzir o número de deputados regionais e a “subsidiodependência”, criar um gabinete de luta contra a corrupção e reforçar a autonomia regional – não mancham a história social-democrata.

Na visão de Rio, o que existe, sim, é uma tentativa de “empurrar o PSD para a direita”, promovida pelo PS e pelos partidos à sua esquerda. Mas ele recusa considerar o Chega e os seus eleitores pegajosos. “A extrema-direita vai a eleições e há quem vote nela, um voto de um português no Chega – tal como de um francês na Le Pen, ou no Vox em Espanha – é um voto igual ao dos outros”, explicou o líder do PSD durante uma iniciativa online organizada pela JSD de Lamego sobre a ética na política e na vida pública. A estratégia é “não ostracizar, mas nunca permitir que passe a linha vermelha. O partido extremista até está integrado, mas apenas no que é aceitável em democracia”, assegura.

Acordos pós-eleitorais?
Internamente, Rui Rio não mudou uma vírgula ao seu discurso: por muito que o Chega se ponha em bicos de pés, as indicações são para o deixar a falar sozinho, pelo menos até dar sinais de moderação. O líder “laranja” proibiu coligações autárquicas com o partido de Ventura, mas diz-se de mãos atadas caso alguns autarcas do PSD precisem do Chega para formar maiorias num cenário pós-eleitoral. “Nesses casos, não posso fazer nada. Seria a mesma coisa que Durão Barroso querer impedir-me de fazer um acordo com o Rui Sá, da CDU, quando ganhei a Câmara do Porto, em 2001”, terá exemplificado o líder do PSD a alguns dos dirigentes mais próximos.

Por estes dias, uma das preocupações de Rio é a fuga de votos e de militantes que, em certas zonas do País, com o Alentejo à cabeça, se inclinam para o Chega ou são favoráveis a entendimentos entre o PSD e o partido de Ventura.

Vice-presidente da Câmara de Cascais, Miguel Pinto Luz representa uma das correntes internas que consideram o Chega de “centro-direita” e um parceiro domesticável pelo PSD, descontadas algumas das suas ideias mais radicais.

Longe do torrão pátrio há também quem pense assim. É o caso de Jorge Afonso, antigo presidente da JSD de Caminha, emigrado na Bélgica desde 1998. É ele o coordenador da página não oficial PSD Europa, no Facebook, um caso de sucesso com mais de 53 mil seguidores e cujo alcance semanal, segundo dados oficiais daquela rede social fornecidos pelo próprio autor à VISÃO, atinge, por vezes, três ou quatro vezes mais leitores. A página promove publicações e imagens corrosivas para a generalidade da classe política, bem ao estilo – gráfico e de conteúdo – de outras difundidas pelo Chega. A pretexto da denúncia da “corrupção xuxialista” e das esquerdas, compara Portugal à Coreia do Norte e à Venezuela, dá gás a insultos aos governantes do PS e promove até as opiniões do professor João Lemos Esteves, visado numa investigação do Público a propósito das suas “invenções” e “teorias da conspiração”, parte das quais motivaram uma queixa-crime por difamação movida por Pacheco Pereira.

Entendemo-nos? Ventura quer mais diálogo com o PSD, mas Rui Rio resiste e pede moderação ao Chega

“Passista assumido”, mas apoiante de Rio, aquele militante do PSD da emigração e administrador da página, já defendeu o Chega nas suas publicações e admite que as posições de Ventura conquistam terreno social-democrata: “Eu próprio concordo com posições dele”, reconhece, admitindo o desejo de que o PSD venha a dialogar com o Chega. “Se quisermos ser maioria, teremos de fazer essa ponte. Mas falta passar a mensagem.”

Balsemão e Mota Amaral com Rio
Ao contrário do que se possa pensar, Rui Rio não é uma ilha cercada de críticos e adversários por todos os lados. Manuela Ferreira Leite e Nuno Morais Sarmento saíram a terreiro a defendê-lo logo após o polémico acordo dos Açores. “Não temos autoridade moral para excluir André Ventura”, defendeu a ex-líder do PSD na TVI, elogiando a “coragem” do líder do partido. “O apoio às nossas propostas não se recusa”, explicou o vice-presidente, mesmo assumindo que o Chega tem posições “racistas” e “xenófobas”.

Dois fundadores do PSD concordam com a estratégia seguida pelo atual líder em relação ao Chega, embora um deles, Mota Amaral, recuse pronunciar-se ao detalhe sobre questões nacionais. “Por muito que André Ventura considere que pode manter atitudes e diversões provocatórias em relação aos Açores, o acordo não tem outro conteúdo que não seja regional”, avisa. O antigo governante do arquipélago faz uma “avaliação muito positiva do compromisso assumido” e, atenuando diferenças, lembra que um dos deputados do Chega “era, até há pouco tempo, autarca do PSD em Lagoa, São Miguel”.

O ex-presidente da Assembleia da República refere-se a Carlos Furtado, igualmente satisfeito com o caminho andado. “A experiência tem sido positiva, conquistámos espaço e só houve desconforto com o tamanho do governo regional, o maior de sempre na região. Mas acreditamos que a atual composição não se manterá até final do mandato”, assume, à VISÃO. Reconduzido na presidência do Chega/Açores no início do mês, Carlos Furtado olha para o acordo regional com o PSD enquanto primeiro passo de algo maior. “Isto terá de se refletir a nível nacional”, crê, dando como exemplo o desenlace eleitoral em Madrid, com o Vox a servir de suporte a uma maioria do PP. “Acho que vamos mesmo para aí. Só Rui Rio é que ainda não percebeu ou faz de conta que não percebe. Talvez ainda não tenha medido o pulso à população, mas se pensa que o PS ficará mais fofinho, desengane-se”, alerta.

Para Mota Amaral, as pretensões do Chega têm um obstáculo bem definido: “O doutor Ventura foi aluno distinto da Faculdade de Direito e sabe que o regime democrático está protegido pela Constituição e pelas instituições dele emanadas. Enquanto funcionarem, o Chega não oferece qualquer perigo nem me parece que o regime esteja em risco de colapsar”, ironiza.

Militante número um do PSD, à beira de publicar as suas memórias, Francisco Pinto Balsemão também não vê motivos para preocupações. “De todo. Foi dito desde o início que a realidade nacional não tinha qualquer relação com os Açores. Tudo o resto é folclore”, afirma à VISÃO. O fundador do PPD/PSD assume não apreciar o Chega e não vê no horizonte alianças de Governo que, admite, o deixariam desgostoso. Quanto a eventuais “arranjos parlamentares”, considera que a linha vermelha não deve ser apenas colocada ao PSD. Pelo contrário: “O PCP continua a defender regimes como a Coreia do Norte e não vejo que isso tenha sido um problema para o PS.”

Nos primeiros anos de democracia, conversar com os partidos de direita mais radicais “era uma questão que nem sequer se colocava”, garante Pinto Balsemão. “Sempre o dissemos. Nem era bem desinteresse, era mais desprezo…”, confirma. Rui Rio aderiu ao PSD por causa de Francisco Sá Carneiro. O fundador, figura de reverência evocada a propósito de tudo e mais alguma coisa, “era de centro-esquerda”, reconheceu o presidente do partido na RTP. Ele, porém, é diferente: “Sou claramente uma pessoa de centro”, autodefiniu-se.

Direitas Convenção do MEL também junta “Chicão” (CDS) e Cotrim Figueiredo (IL)

Salvaguardadas as distâncias e as épocas, como é que Sá Carneiro lidou com as direitas radicais e extremistas no pós-revolução? Logo em junho de 1974, o DN quis saber que postura assumiria o PSD face a essas forças políticas e ele garantiu que nem sequer reconheceria “as forças reacionárias que hostilizam os princípios democráticos”. Quatro anos volvidos, já com o PREC enterrado, não mudara: “Não temos qualquer afinidade com as forças de direita, nós não somos nem seremos nunca uma força de direita”, afirmou. Em 1979, nos Açores, já com a Aliança Democrática (AD) em campo, assumiu que esse grande bloco eleitoral composto por PSD, CDS, PPM e Movimento dos Reformadores deixava de fora PS, PCP e as “forças ou personalidades de extrema-direita”.

João Silva Carvalho viveu esses tempos por dentro. Fundador do PPD/PSD no Porto, íntimo de Sá Carneiro, abandonou o partido em pleno cavaquismo por causa dos ataques à regionalização e por não se rever no “regabofe” de então. A memória, essa, não se apagou. “O Francisco nunca quis quaisquer relações com a esquerda marxista nem com os extremismos de direita. E mesmo a aproximação ao CDS deu-se porque o PS rejeitou entender-se connosco”, lembra. “Ver o PSD dialogar, como aconteceu nos Açores, com um partido tão repugnante como o Chega, é, para mim, um desgosto enorme. Sá Carneiro nunca desceria tão baixo”.

Um pouco de memória
A respeito de extremismos e populismos de direita, Rio também deixou pegada política. No congresso de Barcelos (2004), falou da necessidade de o PSD reformar o sistema político “rejeitando a habitual demagogia e o populismo fácil”. A 25 de Abril de 2007, foi quase premonitório: “A questão do regime não se coloca, no imediato, ao nível das clássicas ameaças militares. Manifesta-se primeiro ao nível das escolhas livres dos cidadãos, bastando, para isso, olhar para o reforço que os movimentos de extrema-direita têm vindo a conseguir em sucessivos atos eleitorais por toda a Europa. E não se pense que estes fenómenos se travam à custa do recurso aos aparelhos judiciais, encarcerando os líderes – pelo contrário, a História demonstra exatamente o oposto”, afirmou, receoso da bola de neve que, não sendo travada, “tenderá a aumentar a simpatia popular por soluções antagónicas ao regime que o 25 de Abril generosamente conquistou para todos nós”.

Em 2012, no 38º aniversário da revolução, criticou os dirigentes partidários “que, de forma muito pouco séria, abraçam a postura demagógica” e que, “para caírem na boa graça do populismo mais primário, tomam medidas de punição irracional sobre a dita classe política”. Em 2018, na moção de estratégia com a qual se candidatou à liderança do PSD contra Santana Lopes, alertou para “os sinais de decomposição e fratura dos regimes democráticos ocidentais perante a emergência dos populismos e dos movimentos antissistema”.

Rio não se opôs, entretanto, a um acordo entre o PSD e o Chega nos Açores, nem recusou participar na iniciativa das direitas onde falará Ventura. Pelo meio, aceitou sufragar, na Amadora, uma candidata cujo perfil vários membros do partido consideram insultuoso face ao ideário social-democrata. Com tudo isto, abriu a caixa de Pandora, gerando discórdia. O presidente do PSD não quis falar à VISÃO. Mas se ainda é o político que considera o 25 de Abril, como afirmou um dia, a data mais importante da sua vida, e se gaba de ter aprendido no Colégio Alemão os contextos políticos, sociais e económicos que permitiram a ascensão da extrema-direita e do nazismo, talvez a metáfora do ovo da serpente não lhe seja estranha. “Nunca um governo liderado por mim se colocará nas mãos do Chega”, garantiu, há tempos, perentório. Dentro de “casa”, porém, nem todos estão convencidos.

Em que matérias o PSD e o Chega poderiam entender-se?

JUSTIÇA
O diagnóstico de Rui Rio sobre o estado da Justiça, um dos seus temas fetiche, agravado pelo facto de não ter conseguido envolver os partidos numa reforma do setor, poderá aproximá-lo de André Ventura. Mas o líder do Chega é dos mais críticos das magistraturas e das decisões judiciais, que acusa de serem brandas com criminosos e políticos.

MENOS DEPUTADOS
O Chega defende a redução de deputados à Assembleia da República dos atuais 230 para 100. O PSD não vai tão longe: Rio aceita fazer uma “redução moderada”, mas associada a outras medidas de dignificação da Assembleia. Em novembro, fruto do acordo dos Açores, Ventura ensaiou um gesto de boa vontade e retirou o projeto de revisão constitucional que previa a tal redução. Estava aberto, disse, o diálogo com o PSD.

MUDANÇAS NO RSI
Nos Açores, PSD e Chega acordaram combater a “subsidiodependência”. Na linguagem de Rui Rio e André Ventura a ideia é a mesma: acabar com o Rendimento Social de Inserção (RSI) para quem o vê como um fim, ou como quem diz, “para quem não quer trabalhar”.

REDUÇÃO DA CARGA FISCAL
PSD e Chega consideram muito elevado o esforço feito pelos portugueses no pagamento de impostos. Rui Rio falou mesmo, em anos recentes, da “mais elevada carga fiscal de sempre”, posta em prática pelo Governo PS. André Ventura não discorda e até já fez propostas de redução de impostos, embora alguns estudos tenham depois concluído que o Chega acabaria por aumentar os impostos dos portugueses que já têm rendimentos baixos.

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