Santana Lopes: Em ano de regresso à Figueira, viagem pelas aventuras do “menino guerreiro”

Foto: Fernando Negreira Pedro Santana Lopes No exterior das instalações da VISÃO, antes das legislativas de 2019

As fotografias, publicadas no Facebook, a contemplar o porto da Figueira da Foz, as praias, as obras por si inauguradas há duas décadas relatando o trabalho dos bombeiros locais anunciavam, por si só, as intenções de Pedro Santana Lopes. O seu mural na rede social tornou-se uma espécie de postal para vender o município no litoral do distrito de Coimbra. Mesmo assim, o antigo líder do PSD e do Aliança achou que faltava simbolismo na sua candidatura às autárquicas de 2021 e esperou que as pontas se unissem: “No mesmo dia, à mesma hora, uns anos depois. Cá estou.” Foi com estas palavras que regressou no passado domingo, 9 de maio, às 19h45, 24 anos depois da sua primeira candidatura à Câmara Municipal da Figueira da Foz – que, contra todas as expectativas e sem uma relação evidente com a terra, conquistou, com quase 60% dos votos, aos socialistas, que detinham há mais de 20 anos o poder local.

Desta vez, candidata-se como independente pelo movimento “Figueira A Primeira”, que também já apresentou o nome de Cristina Figueiredo à Junta de Freguesia do Bom Sucesso. Santana ainda equacionou voltar para os braços dos sociais-democratas – que deixou, em 2018, para fundar o Aliança, após ter perdido para Rui Rio a liderança do PSD –, mas as negociações esvaziaram-se.

Chegou a ser considerado para Lisboa, Sintra, Torres Vedras. Porém, o antigo primeiro-ministro queria a Figueira da Foz, onde o centro cultural tem o seu nome e onde as sondagens internas do movimento “Figueira A Primeira” lhe dão a vitória, com uma vantagem confortável sobre o atual presidente da câmara (do PS), Carlos Monteiro, que se recandidata. E ainda mais confortável sobre o candidato do PSD, o atual presidente do Turismo do Centro, Pedro Machado, que tem razão dupla para estar apreensivo: a somar à popularidade de Santana no mesmo campo político, recorde-se que os sociais-democratas perderam a autarquia, em 2009, para os socialistas devido à migração de votos para uma candidatura independente de Daniel Santos, antigo vice de Santana.

É o regresso, poder-se-ia dizer inevitável, de um político que, por mais vezes que lhe seja vaticinado o fim da carreira, volta sempre. Ganhou e perdeu; ocupou quase todos os cargos na política e ameaçou muitas vezes, em mais de 40 anos, largar o ofício. Mas acabou sempre a honrar a célebre frase que deixou no Congresso do PSD, de 2005, em Pombal: “Não me despeço. Vou andar por aí.” Terminava, naquele dia, a sua liderança do partido, na sequência da derrota eleitoral das legislativas desse ano, em que ficou conhecido pelo hino do “Menino Guerreiro”, uma versão da música do brasileiro Gonzaguinha. Uma entre muitas histórias protagonizadas por Santana Lopes, algumas das quais aqui resgatadas.

Um Pritzker na gaveta e um túnel sem fim à vista
Os sociais-democratas acharam que correu tão bem a conquista da Figueira da Foz, em 1997, que, nas autárquicas seguintes, em 2001, Durão Barroso, o então líder laranja, decidiu repetir a receita em Lisboa, numa tentativa de retirar do poder o PS, que tinha a câmara desde 1990. Surpresa das surpresas, o resultado replicou-se e 856 votos separaram Santana do socialista João Soares, que diria ao semanário Expresso, sete meses depois: “O pior é que Santana Lopes tem mel.” Com mel ou não, a popularidade fez com que não chegasse a terminar o mandato, por ter sido indigitado primeiro-ministro, para substituir Durão Barroso, que, em 2004, foi presidir à Comissão Europeia. À frente dos destinos da câmara de Lisboa ficou António Carmona Rodrigues, um independente que vinha do Governo e que ainda lucrou com promessas eleitorais de Santana, para quem os quase quatro anos como presidente da capital não foram, nem por sombras, um passeio no parque.

Entre as polémicas mais destacadas, surge o tão prometido Túnel do Marquês, que veio a ligar as Amoreiras, o Marquês de Pombal, a Avenida António Augusto Aguiar e a Avenida Fontes Pereira de Melo. Santana tomou a obra que queria “para a História” e para “marcar um tempo” como uma prioridade do seu mandato. Dizia: “Se Deus quiser, a obra acaba antes do final de 2004 [ano do Campeonato Europeu de Futebol, em Portugal].” Meteram-se tribunais, recursos, suspensões e o túnel, por mais que o autarca tivesse pedido a Deus, só abriria em abril de 2007 e seria concluído em 2012.

E esta obra ainda viu a luz do dia, mesmo que oito anos depois. Já a renovação do Parque Mayer, que envolvia a criação de um casino no mesmo espaço para a financiar – e que Santana tão alegremente andou a exibir à Imprensa à frente do Teatro Variedades –, nunca saiu do papel. A ambição era tamanha que foi buscar, a Nova Iorque, o arquiteto Frank Gehry (vencedor do prémio Pritzker, em 1989). Mas as objeções às novas atividades do espaço das artes e os custos revelaram-se demasiado elevados, e o único que ainda lucrou algo com a situação (2,5 milhões em honorários) foi o arquiteto, que também projetou o Museu Guggenheim, em Bilbau.


Os violinos de Chopin
Os investimentos artísticos sempre foram uma das bandeiras de Santana, ou não tivesse ele sido secretário de Estado da Cultura no segundo governo de Aníbal Cavaco Silva. É por altura da sua nomeação, em 1990, que surge a famosa gaffe dos violinos de Chopin que só Santana consegue ouvir… Questionado sobre qual a sua peça de música erudita preferida, o então governante respondeu ser um Concerto de Violino de Chopin. O problema é que Chopin nunca escreveu uma peça para violino. Toda a sua obra foi escrita para piano.

Momentos da vida de Santana

Presidente do Sporting Clube de Portugal (1995 a 1996)

Secretário de Estado da Cultura durante o segundo mandato de Cavaco Silva (1990 a 1994)

Enquanto presidente da Câmara Municipal de Lisboa com o famoso arquiteto canadiano Frank Gehry, que Santana queria que renovasse o Parque Mayer

Demissão de primeiro-ministro (2004)

Candidato à liderança do PSD, em 2018. Perdeu as eleições para Rui Rio

Fundador e presidente do Aliança (2018-21)

A pala do estádio do Sporting
Ainda do tempo em que foi secretário de Estado da Cultura é a história da pala do estádio do Sporting. Alertado pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil, o governo interdita o estádio do clube lisboeta por razões de segurança enquanto não forem feitas obras na cobertura da bancada central. Estamos em 1992. A dar a cara pela decisão do executivo está… Pedro Santana Lopes, que três anos depois viria a ser presidente do Sporting. Sousa Sintra – o então dirigente – acusava o secretário de Estado de perseguição e vai buscar o engenheiro Edgar Cardoso, considerado um especialista na matéria e incumbido de dar um parecer favorável à pala. Cardoso não se poupou a esforços pelo clube, tendo chegado a subir à pala e a saltar sobre ela para provar a ausência de risco. Não lhe serviu de muito, já que Santana foi irredutível e o Sporting lá teve de fazer as ditas obras.

Big Show SIC e um quase adeus
A ligação de Santana Lopes ao Sporting conferiu-lhe ainda mais visibilidade, tendo, depois disso, integrado o painel de comentadores do programa da RTP1 Jogo Falado e escrito crónicas no desportivo A Bola. Já antes havia comprado ao Estado, através de uma empresa de que era sócio, os jornais Record e Diário Popular, e esteve na fundação do jornal O Liberal – um nado-morto. Tem uma longa e nem sempre feliz relação com os média, que teve um dos seus pontos altos, em 1998, quando Santana marcou uma conferência de imprensa para anunciar que se retirava da vida política. Motivo: sentia-se indignado pela forma como foi representado (um político que só gostava de copos e de mulheres) numa rábula do programa de humor Big Show SIC, do apresentador João Baião. Não passou de uma ameaça como muitas outras que fez ou que lhe fizeram, vaticinando o seu fim político. “A vida já me ensinou que, na política, pode-se morrer muitas vezes”, afirmou, numa entrevista, em dezembro de 2016.

Criou um partido e ofereceu-o
Da última vez que Santana morreu politicamente e ressuscitou, criou um partido – o Aliança (2018) – que, depois de ter tido fracos resultados eleitorais, viria a abandonar em setembro de 2020, no segundo Congresso, por considerar que o futuro do partido “só poderá existir” sem si, uma vez que a generalidade das pessoas ainda o ligava ao PSD. Entretanto, jantou com Rui Rio e foi considerado pelos sociais-democratas para as autárquicas, mas a reaproximação não se deu. Isso não impediu Pedro Santana Lopes de – tal como prometeu – continuar a “andar por aí”.

Palavras-chave:

Mais na Visão

LD Linhas Direitas
LInhas Direitas

O Governo está esquizofrénico

O Governo tem, de imediato, um país com três problemas graves, tão graves como a variante Delta, e não faz nada. Ou não quer, ou não sabe, ou não está interessado. Por agora só quer o dinheiro da UE, depositado no banco.

Política

Covid-19: Estamos muito longe dos números do tempo do estado de emergência, diz PR

O Presidente considerou que a situação da Covid-19 em Portugal está "muito longe" dos números do tempo do estado de emergência e recusou comentar um eventual recuo no desconfinamento

Mundo

Covid-19: Índia bate recorde de vacinação com mais de 8 milhões de doses inoculadas num dia

A Índia bateu hoje um novo recorde de vacinação contra a doença covid-19, com a inoculação de mais de oito milhões de doses num único dia, segundo dados oficiais citados pelas agências internacionais

EURO2020

Euro2020: Portugal com resultados negativos à covid-19 a dois dias do jogo com França

Os jogadores, equipa técnica e restantes membros da seleção portuguesa de futebol tiveram resultados negativos nos testes ao novo coronavírus, realizados três dias antes de defrontar a França, para o Euro2020, revelou hoje fonte oficial da federação

Visão Saúde
VISÃO Saúde

Covid-19: 3 gráficos para perceber como está a pandemia em Portugal

Os casos ativos (que só foram mais no final de março), o efeito da variante Delta na subida acentuada dos números em Lisboa e Vale do Tejo e o Rt a caminho, a passos largos, do vermelho na matriz de risco

Visão Saúde
VISÃO Saúde

Covid-19: Autoagendamento da vacina disponível hoje para maiores de 37 anos

O autoagendamento da toma da vacina contra a covid-19 ficará disponível hoje para pessoas a partir dos 37 anos na plataforma da Direção-Geral da Saúde (DGS) específica para estas marcações

EURO2020

Euro2020: Félix reintegrado e Mendes à parte na antevéspera da 'decisão' com a França

O avançado João Félix reintegrou hoje os treinos da seleção portuguesa de futebol, enquanto Nuno Mendes manteve-se à parte do grupo, a dois dias da 'decisão' com a França, na terceira jornada do Grupo F do Euro2020

Mundo

Israel testa laser aéreo para abater 'drones'

Israel indicou hoje ter utilizado um laser aéreo para abater 'drones' [aparelhos aéreos não tripulados] numa série de testes, "um avanço tecnológico" para fortalecer o sistema de defesa

Visão Saúde
VISÃO Saúde

Covid-19: Ministra da Saúde quer "ganhar tempo" com vacinação para conter variante Delta

A ministra da Saúde admitiu que a variante Delta do coronavírus SARS-Cov-2 se tornará dominante em Portugal e disse que a estratégia é acelerar a vacinação contra a covid-19

Sociedade

Asteroide tem nome de astrofísico português Nuno Peixinho

O astrofísico português Nuno Peixinho dá nome a um asteroide, descoberto em 1998 e que tem pouco mais de 10 quilómetros de diâmetro, anunciou hoje o Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA), onde é investigador

Visão Saúde
VISÃO Saúde

Gráfico da evolução da matriz de risco mostra Rt a chegar ao vermelho

A incidência da infeção com o coronavírus SARS-CoV-2 no continente ultrapassou hoje os 120 casos por 100 mil habitantes, enquanto o índice de transmissibilidade (Rt) subiu de 1,14 para 1,18 em todo o território nacional e de 1,15 para 1,19 em Portugal continental

Fotografia

Celebração do solstício de verão em Stonhenge canceladas, mas centenas juntaram-se no local, como mostram estas imagens

A pandemia obrigou a cancelar o tradicional evento em Stonehenge mas nem a presença da polícia nem as vedações ali colocadas impediram uma considerável aglomeração