António Costa e Rui Rio: Tão amigos que eles eram

Fria Relação de Costa e Rio conhece dos piores momentos, perante palavras azedas do líder do PS sobre o presidente do PSD

Longe vão os tempos em que António Costa e Rui Rio, quase numa versão de Senhor Feliz e Senhor Contente, defendiam “entendimentos de regime”, “acordos a dez anos” e concertavam ataques à gestão do País por Pedro Passos Coelho, durante o último resgate financeiro. Os mesmos que foram juntos a uma reunião do exclusivo clube internacional Bildeberg, e que uma década depois, em 2018, até delineavam estratégias de descentralização e de aplicação dos fundos europeus do Portugal 2030, já com o PS no poder e suportado pela Gerigonça. Ou, mais: quando Rio até teve a histórica do partido Manuela Ferreira Leite, à beira das legislativas de 2019, a aplaudi-lo por “vender a alma ao diabo para pôr a esquerda na rua”, já que assumiu que viabilizaria um governo do PS em caso de os sociais-democratas saírem derrotados das urnas.

Como na vida, tudo tem um fim; e esse começou a ser cavado pelo líder socialista há quase um ano, aquando das negociações para o Orçamento Suplementar, em que fez questão de frisar que preferiria atirar a toalha ao chão, a ter de depender de um apoio laranja para governar. Eis que, numa última entrevista, por estes dias, num momento em que já decorrem negociações à esquerda para a proposta orçamental de 2022, Costa aprofundou o fosso que tem vindo a criar relativamente ao presidente do PSD, ao mimosear Rui Rio com o epíteto de “cata-vento”, de líder “sem noção”, no que às questões da Justiça diz respeito (“como os adeptos de um clube de futebol comentam a atuação de um árbitro”), e de dar a mão ao extremista Chega – entre outras acusações.

Há quem veja nas palavras do primeiro-ministro a leitura de um guião inacabado, com várias frentes por onde pode avançar a narrativa, sem que haja o risco de um desfecho inesperado: aproximar-se da esquerda, quando mais precisa dela para responder à crise socioeconómica e quando as reuniões com o PCP correm sobre rodas nesse sentido, focar o PS nas autárquicas, para repetir a vitória de 2017 face ao PSD no número de câmaras ganhas, e até – em certo ponto – afirmar Rio como o verdadeiro líder da oposição, quando André Ventura já morde os calcanhares do social-democrata nas sondagens, na disputa por esse lugar. Todavia, na reação que teve, mais de 24 horas depois de um acanhado tweet, e já com a cabeça fria, o presidente do PSD deixou claro que este é o ponto de não retorno, ao apontar falta de “nível” às palavras que Costa proferiu na entrevista à TSF, ao Diário de Notícias e Jornal de Notícias. E, nas fileiras dos dois lados da barricada, não já só se assume a rotura como se aponta o “exagero” no discurso do socialista.

Para David Justino, vice-presidente do PSD, o que acabou de acontecer “foi que Costa deixou vir ao de cima que se está nas tintas para a economia e para os problemas sociais do País; o que quer é fechar um acordo rapidamente com a esquerda, para ter um Orçamento concluído e não contaminar as autárquicas”. “Esta entrevista nem foi o ponto de viragem; porque, esse, começou no verão do ano passado. Mas é importante: Costa acaba de nos libertar. Não vale a pena o PSD invocar o interesse nacional, para atingir entendimentos, se é este o PS que se tem pela frente”, assumiu à VISÃO.

Negociações PS já anda em reuniões com PCP há semanas, sobre a execução do Orçamento de 2021 como para desenhar o de 2022

Costa foi lacónico sobre a relação que o presidente do PSD tem tido com o setor da Justiça, e mais concretamente com o Ministério Público – há muito que Rio defende que à frente da Procuradoria-Geral da República deve estar alguém que não um magistrado e que o Conselho Superior da Magistratura não pode continuar a ser controlado por quem deve ser fiscalizado na sua atuação. “Um cata-vento tem uma grande vantagem sobre o doutor Rui Rio: é que um cata-vento ao menos tem pontos cardeais, o doutor Rui Rio não tem”, disse o socialista, que falou ainda de um PSD contaminado pelo Chega. Como é hábito desde que assumiu a liderança do partido, Rio aguardou por segunda-feira para reagir a algo que aconteceu no fim de semana. “A entrevista não teve o nível que deve ter para um primeiro-ministro. Os insultos, quase, que ele me fez não interessam para o futuro do País”, disse. Ainda no domingo, escreveu no Twitter que em causa estava uma “entrevista de nível rasteiro”, que servira para apagar o facto de o Parlamento Europeu ter criticado o Governo “pela politização que fez na nomeação do procurador europeu”.

A resposta tímida de Rio nos primeiros instantes é justificada por Justino como uma forma de estar do líder do PSD: “Nunca ouvirá dele críticas baixas como as de António Costa. Pode ser mais agressivo, acreditem. Mas descer ao nível do ‘cata-vento’? Rio não faz isso.” “Aguardem pelas negociações com a esquerda, para verem o que a noiva [a esquerda] vai levar para o casamento”, estima. O politólogo José Filipe Pinto traduz que a “imagem de marca de Rio não passa pela facilidade de resposta imediata que colha o aplauso do eleitorado”. “Sobra-lhe em racionalidade o que lhe falta em emotividade. Os estados de alma fazem parte da política, mas Rio recusa-se a cavalgar essa onda”, explica.

Pelas hostes socialistas, há quem ache que Costa teve “uma reação com uma componente emocional forte e um pouco excessiva, pelo menos na forma como se referiu a Rio”. “Não há nenhuma alteração substancial na estratégia de um primeiro-ministro de um Governo minoritário, principalmente numa crise grave”, admite o socialista Bacelar Vasconcelos. Segundo este constitucionalista, há dois mandatos no Parlamento, “não há uma alteração do percurso estratégico, que passa por negociar com a esquerda”. Ainda assim, “o futuro virá a comprovar, perante as circunstâncias que se começam a desenhar no horizonte, que o primeiro-ministro foi um pouquinho exagerado na forma como tratou o presidente do PSD”, alerta o parlamentar, quando os socialistas já levam há semanas, com o PCP, negociações sobre a execução orçamental de 2021. Mas também com vista a ter um Orçamento de 2022 pronto antes da data-limite de entrega no Parlamento, a 15 de outubro.

Os últimos encontros com os comunistas ocorreram há duas semanas, tendo estado em cima da mesa questões sobre a Saúde, adiantou à VISÃO fonte parlamentar socialista, que admitiu “haver maior fluidez na conversa” com a bancada liderada por João Oliveira. Maior do que aquela que existe entre o PS e a bancada dirigida pelo bloquista Pedro Filipe Soares, que tem estado ausente para gozar a licença parental pelo nascimento da filha e que foi substituído por Jorge Costa. Fonte do Bloco de Esquerda revelou que a coordenadora, Catarina Martins, só agora foi convocada para um primeiro encontro, com vista a iniciar as discussões. “Mas não há qualquer atraso, tem sido sempre por esta altura”, sinalizou à VISÃO, relativizando a alegada melhor relação entre PS e PCP.

Perante esta agenda, “o ataque a Rio tem a vantagem de criar a imagem de um perigo comum a toda a esquerda”, diz José Filipe Pinto, aludindo a um horizonte de um Orçamento com “medidas socialmente penalizantes” e de autárquicas em que “não se afigura previsível que o PS repita o estrondoso resultado de 2017”. “Costa é um político cauteloso e tático, mais do que estratega – o que Vilfredo Pareto [politólogo italiano do século XIX] designou como ‘raposa’”. Uma relação agitada entre os dois líderes, que o letrista Mário Martins traduziu um dia, em Tão Amantes que Nós Fomos: “Já mal te conheço, já nem te pertenço, quem fomos não vamos ser mais.”

Danças a dois

Foram várias as ocasiões em que Costa e Rio estiveram em diapasão, como autarcas e durante a gestão socialista do País:

Acordos
Em abril de 2018, Governo e PSD pactuaram acordos de regime para a descentralização e gestão de fundos europeus. A foto de Costa e Rio, em São Bento, fica para a posteridade.

Ameaça
PSD recuou no voto que recuperava os anos de carreira congelada de docentes, após Costa ameaçar demitir-se, em maio de 2019.

Incentivo
Em julho de 2014, três anos antes de Passos sair da liderança do PSD perante o desaire das autárquicas, Costa quis ser visionário: “Tenho muita estima pelo dr. Rui Rio e desejo-lhe muitas felicidades, desde logo na liderança do PSD.”

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