“Se não me arranjo, criticam. Mas os meus antecessores até podiam andar com a mesma gravata três dias”

Foto: Lucília Monteiro

Em Matosinhos, caso único, duas mulheres lideram a câmara e a assembleia municipal. Das 32 autarquias governadas no feminino (em 308), Luísa Salgueiro, 52 anos, socialista, preside à mais populosa. Foi vereadora, deputada e a primeira mulher dirigente de uma comissão da NATO. Aos 15 anos, já assistia a julgamentos. Pós-graduada em Direito do Ambiente, não perdeu alma de jurista e é viciada no Diário da República. Neste primeiro mandato, já foi infetada pelo coronavírus, curou-se e deu à luz o Plano Municipal para a Igualdade de Género. Conversa à volta das atribulações e sonhos de uma mulher no poder local.

Lançou uma campanha para combater a desigualdade de género e os papéis sociais tradicionais. Matosinhos é um sinal de que ainda há um longo caminho a percorrer?
O dia a dia mostra isso e aqui não fugimos à regra. Há muitas desigualdades em relação às mulheres: de género, remuneratórias, de carreira. Existem mais mulheres desempregadas e são elas a maioria enquanto beneficiárias do rendimento social de inserção. A sociedade inclusiva ainda está em construção, mesmo no âmbito da comunidade LGBTI+, em que também criámos condições especiais…

Ainda encontra muita resistência nessas matérias?
Muitas, mas escondidas. As pessoas sabem que fica mal ter atitudes discriminatórias em público. Temos um centro de atendimento e apartamentos para a comunidade LGBTI+, mas há quem não goste de saber que espaços desses vão abrir no seu bairro. Não se derrubam estereótipos e preconceitos rapidamente.

O seu percurso na política foi prejudicado por ser mulher?
Quando Narciso Miranda me convidou para vereadora em Matosinhos, era uma espécie de três em um: mulher, jovem e independente. Era “bonito” ter gente assim na equipa. Ele conseguiu três coisas mudando apenas uma pessoa: aquilo tudo era eu! [Risos] No Parlamento, para chegar a coordenadora ou presidente de comissão, era complicado. Após a “lei das quotas”, isso mudou, mas, em reuniões do PS, ainda ouvi dizer: “Ah, vai ser difícil fazer listas. As mulheres não querem, têm os filhos.” Quando fui para deputada, a minha filha tinha 3 anos. Quando saí, tinha 15.

Quando foi vereadora, trouxe-a para a câmara ainda bebé…
Veio logo após as seis semanas. E foi ficando até eu ser deputada. Quando já andava na escola, perguntava: “Ó mãe, e o nosso gabinete? Ó mãe, e o nosso computador?” E eu dizia: “Filha, o gabinete e o computador não são nossos.” É sempre bom não estarmos muito tempo nos lugares, pois até a minha filha já achava que era tudo nosso! [Risos]

Das 308 câmaras municipais, apenas 32 são presididas por mulheres. O que é que isto diz sobre o País e a sua evolução?
Continuamos um País desigual. Ainda é difícil afirmarmo-nos na política ou nas empresas quando se trata de lugares de topo. São mundos muito masculinos. Não é fácil inverter a situação a breve prazo, de forma natural. Para estar na primeira linha política, é difícil gerir a atividade partidária. Há dias em que vivo só para isto. Sem o suporte da família, não conseguiria. Quando há filhos ou pais dependentes, por norma, as mulheres estão mais presentes. É difícil ver homens nesse papel. A política exerce-se quase a tempo inteiro, e temos dificuldade em libertar-nos de compromissos pessoais, familiares e profissionais para participar em igualdade.

Há também um problema de visibilidade. Num trabalho sobre mulheres autarcas, a investigadora Amália Afonso verificou que, durante sete meses e 420 edições do Público e do JN, não houve uma presidente de câmara na primeira página…
Muitos líderes políticos masculinos vivem para isso. Se calhar, não somos tão proativas ou talvez sejamos mais modestas. Ah, mas no Dia da Mulher ligam-me. É o estereótipo. Se o tema for o aeroporto, telefonam ao presidente da Câmara Municipal do Porto, mas não querem saber a opinião da de Matosinhos. Estive com o Governo a resolver problemas com os voos da Emirates e da Turkish Airlines, e ninguém ligou. Mais grave é quando decidem ouvir quem tem pensamento, na região, sobre determinado assunto: são sempre os mesmos e sempre homens. Cabe às mulheres mudar a atitude. Quantos opinion makers e comentadores são mulheres? E quantas mulheres têm espaços de opinião? Temos de ser mais reivindicativas.

Mulheres e homens autarcas são escrutinados de forma idêntica?
Nós somos mais. Senti o primeiro impacto no interior da câmara, com os dirigentes. Para acatarem uma decisão, tinha de a repetir. Fui vereadora com três presidentes e também posso comparar: o escrutínio da população é muito maior agora. Aqui, investiu-se muito em obra nova, mas o espaço público degradou-se. E dizem-me: “Está a ver as pedras levantadas? A senhora, em sua casa, tem isto assim?! Nem por ser mulher sabe cuidar das ruas?!” O lixo: “Olhe para estes contentores! Você, em sua casa, põe o lixo assim?!” Habitação, humidades: “Olhe, doutora, tenho as paredes todas pretas. Quando arruma a casa, gosta de ver as paredes pretas?” Associam-me sempre ao asseio da casa, às arrumações e às limpezas [risos].

Isso não acontecia com os seus antecessores?
Andei muito com outros presidentes na rua e nunca tal ouvi. Exigem que cuide da cidade como uma dona de casa. E há a questão da imagem. Se não me arranjo, criticam. Se me arranjo, sou vaidosa. As avaliações ao trabalho incluem sempre esse parâmetro. Mas os meus antecessores até podiam andar com a mesma gravata três dias seguidos. Aqui, chamam-me “menina” e até gosto da expressão. Mas nunca ninguém tratou um presidente por “menino”. Dirigem-se a mim como “menina”, como se dissessem “ó cachopa, ó catraia”. O “menina” é carinhoso, até me sinto mais nova, mas também muito depreciativo.

Um escrutínio concreto: foi acusada de promover laços de família na câmara e defendeu-se com a lei. A questão ética não conta?
Refere-se a contratos com um primo e ao emprego da minha cunhada numa empresa municipal? Ela até veio ganhar menos e era a pessoa certa para a área da manutenção. Pedi-lhe para vir e só pensei na competência. O meu primo já trabalhava com a câmara, mas agora será prejudicado: já lhe disse para não se candidatar aos concursos. Aprendi e concordo que há dimensões a ter em conta para além da jurídica. Não posso ter apenas a perspetiva legal.

Já é tempo de o PS ter uma secretária-geral. E temos mulheres preparadas para isso. Digo-lhe já uma: Ana Catarina Mendes. Não sei se é a mais bem posicionada, mas é uma possibilidade

A autoridade e o exercício do poder são encarados da mesma maneira?
São. Mas um tempinho depois. A primeira atitude é a desconfiança: “Deixa ver se a rapariga tem unhas para isto.” E há uma expressão que detesto: “Tem de dar um murro na mesa.” Não gosto e nunca gritei numa reunião. Conto até dez, mas prefiro conquistar pessoas para as soluções. E sinto-me muito acarinhada nesta casa.

Sentiu mais resistência quando foi eleita deputada?
Foi pior. Ser do Porto já era um anátema, e o PS de Matosinhos carregava uma carga negativa, associada a divisões e lutas internas. Tentavam sempre perceber se eu era desta ou daquela fação. Quero muito desfazer essa ideia. O meu objetivo é pacificar o PS e a própria comunidade.

Em entrevista à VISÃO, António Costa admitiu que o próximo secretário-geral poderá ser uma mulher. Já é tempo?
Já. E temos mulheres preparadas para isso. Sem pensar, digo-lhe já uma: Ana Catarina Mendes. Não sei se é a mais bem posicionada, mas é uma possibilidade. Mas a questão de género não é decisiva.

Igualdade de oportunidades não é igualdade de resultados…
Do anterior governo para este aumentou o número de mulheres. E o PS já tinha adotado “quotas” antes da lei. Mas pode aproveitar a oportunidade dada pela Covid-19 e fazer reuniões dos órgãos nacionais por videoconferência, por exemplo. Isso permitiria às mulheres conciliar tarefas e participar mais. É preciso adotar métodos de trabalho inclusivos. Em Matosinhos, já há mais mulheres dirigentes, embora os diretores municipais sejam homens. Queremos adotar o direito a desligar para que os funcionários não respondam a emails fora das horas de trabalho, garantir apoio à infância de retaguarda para diferentes horários e adaptar a agenda de reuniões. São pequenos gestos, mas dos quais esperamos grandes efeitos.

Ana Mendes de Almeida ficou em primeiro num concurso internacional para procuradora europeia. Mas o Governo preferiu o homem que ficou em segundo. A situação foi interpretada como interferência política pelo facto de a magistrada ter investigado casos polémicos no Governo, mas não é um péssimo exemplo?
Não conheço a fundamentação em detalhe, mas o Governo não tomou a decisão por essas razões. De todo. O PS não é assim. Reconheço, no entanto, que teria muito simbolismo ter uma mulher nesse cargo. É pena não ser possível.

Em 2017, o então eurodeputado Manuel dos Santos chamou-lhe cigana. Pelo aspeto e por considerar que pagou favores ao defender a vinda da Agência Europeia do Medicamento para Lisboa. Há meses, o órgão de jurisdição do PS determinou a expulsão do ex-dirigente, que vai recorrer da decisão. É o desfecho que esperava?
Fui chamada ao processo e escrevi uma carta em que disse que Manuel dos Santos é xenófobo, machista, sectário e misógino, mas não lhe dou importância ao ponto de pedir a sua expulsão, nem lhe reconheço categoria para me ofender. Quis espezinhar-me e não ficou por aí. Ainda no ano passado esteve de férias em Tavira e ouviram-no dizer: “Fui às compras, encontrei uma cigana e lembrei-me logo da Luísa.” E continua a dizê-lo, telefonam-me a contar. É desprezível. Expulso ou não, não me interessa. Mas o PS tem regras.

Nunca mais falou com ele?
Não, nem falo. Há mínimos. Ele não me chamou cigana por ser morena. Fê-lo por sugerir que faço negociatas e menosprezou a comunidade cigana. Manuel dos Santos não tem lugar na política, que é um espaço de nobreza, de convicções.

Que mulheres foram, ou são, uma referência na sua vida?
Desde logo, Simone de Beauvoir. Em miúda, admirava a Thatcher por lhe chamarem Dama de Ferro, mas não tinha idade para perceber o que ela fez aos sindicatos. Gosto da Michelle Obama e teria sido importante a Hillary Clinton ganhar as eleições americanas. Acompanho duas presidentes de câmara: a Anne Hidalgo (Paris) e a Ada Colau (Barcelona). Inspiro-me muito nelas. E sigo a congressista Alexandria Ocasio-Cortez (EUA) nas redes sociais.

Então votaria em Ana Gomes, se ela se candidatasse a Belém?
Não me parece a melhor solução. Ana Gomes é uma mulher de causas, aguerrida e tem mérito a enfrentar temas difíceis. Mas não é de consensos e não a vejo como Presidente de todos os portugueses. O PS deve ter um candidato. Mas vivemos um momento histórico, difícil. Há proximidade entre o primeiro-ministro e o Presidente, e o caminho ficou demasiado estreito para agora dizermos que nos enganámos.

Via-se num cargo governativo?
Sim, talvez numa pasta ligada às áreas sociais, saúde ou autarquias. Não sou de empreitadas, sou de promover igualdades. Quero fazer três mandatos em Matosinhos, mas nunca fiz planos a tão longo prazo.

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