O que mudou com o 11 de setembro

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António Costa Silva
20 anos depois, o regresso dos piores

O inimaginável sucedeu: 20 anos depois de a invasão norte-americana do Afeganistão derrubar o regime dos talibãs, estes regressaram pela porta do cavalo e puseram a nu as fragilidades de pensamento e de ação da maior potência do planeta. O mundo mudou depois dos atentados a 11 de setembro de 2001. O medo, a desconfiança sistémica e o atordoamento coletivo instalaram-se no centro da vida pública. A nação mais poderosa do mundo foi atacada no interior do seu território por um grupo não estatal que explorou as debilidades de um sistema que não é capaz de parar para pensar. Na sequência do ataque, os EUA declararam guerra ao terrorismo, mas isto foi um erro estratégico: o terrorismo é uma tática e não se declara guerra a uma tática. Como uma hidra de Lerna, o terrorismo reinventa-se. A sua base e a sua génese não são enfrentadas. A origem da Al-Qaeda, do Estado Islâmico e dos talibãs é a educação religiosa saudita baseada no wahabismo, a corrente salafista mais radical do Islão que defende o regresso à “pureza” original do século VII, quando viveu o profeta, e a aplicação mais extremista da sharia, e que usa a faculdade do takfir, isto é da excomunhão de quem pensa diferente para declarar que os “infiéis”, a começar pelos muçulmanos xiitas e de outros credos, devem ser exterminados, porque “a vida dos infiéis não vale nada”. Esta interpretação extremista do Islão é um ataque à modernidade, à liberdade, aos direitos humanos, e postula como lei a demonização do Outro e a exclusão do Outro. A ideologia religiosa oficial saudita – o wahabismo – é a máquina principal do terrorismo islâmico, e ela é propagada em todas as escolas e madraças espalhadas pelo mundo e alimentadas pelos fundos e oligarquias sauditas. Mas enfrentar a causa maior do terrorismo islâmico não seduz as administrações norte-americanas, porque a Arábia Saudita é um dos seus principais aliados no Médio Oriente, é um investidor nos bancos e nas empresas norte-americanas, é um comprador das suas armas, é um parceiro financeiro e de negócios apreciado pelas elites norte-americanas. Mesmo quando a investigação dos serviços secretos americanos provou que o assassínio do jornalista saudita Jamal Khashoggi, no consulado da Arábia Saudita em Istambul, em 2018, foi ordenado pelo príncipe saudita Mohammed bin Salman, que é, de facto, o regente do reino, a reação do Presidente Trump foi pífia e complacente.

As imagens dos herdeiros de mullah Omar a passearem vitoriosos em Cabul são uma humilhação e descredibilização dos EUA

E, durante 20 anos, a máquina ideológica saudita continuou a operar livremente, enquanto os EUA, baralhados no imenso jogo de espelhos e de sombras que é o Médio Oriente (o embaixador norte-americano Richard Holbrooke dizia que “no Médio Oriente nada do que parece é”), criaram um Exército afegão de 300 mil homens, deram treino e armas a esse Exército, agora herdado pelos talibãs (onde já vimos isto?), e iludiram-se com os “progressos do nation-building”, isto numa nação que é uma coleção de tribos, muitas vezes inimigas, e que funcionou ao longo dos últimos séculos como um cemitério de impérios. Três semanas antes da derrocada caótica de Cabul e do regime afegão, alimentado por “esteroides” norte-americanos, vimos o Presidente Joe Biden garantir que o Exército afegão estava preparado para enfrentar os talibãs e que a queda de Cabul era “implausível”. A gestão desastrada de Biden da retirada do Afeganistão, os seus enormes erros de avaliação e de julgamento, a falha profunda dos serviços secretos e dos serviços de inteligência, num país onde estavam há 20 anos mas cuja complexidade foram incapazes de “ler”, mostram a fraqueza estratégica, de pensamento e de ação do gigante norte-americano e a sua incapacidade para aprender com os erros da História. Cabul 2021 é pior do que Saigão 1975, porque celebra duplamente o regresso dos piores, animados com um espírito de vingança e preparando-se para um novo morticínio e um novo sacrifício dos mais frágeis e desprotegidos, a começar pelas mulheres. As imagens dos herdeiros de mullah Omar a passearem vitoriosos no Aeroporto de Cabul são uma humilhação e descredibilização dos EUA. 46 anos depois de Saigão, a História repete-se para pior. Biden pode ganhar com isto algum apoio interno nos EUA, mas dá um contributo inestimável para a desordem internacional. Cabul vai ser uma sombra imensa a pesar no seu mandato. Do ponto de vista geopolítico, acentua a instabilidade em todo o Médio Oriente, cria um vazio político que potências autoritárias e revisionistas da ordem internacional, como a Rússia e a China, vão preencher, debilita a imagem e a credibilidade das democracias, deixa cair os seus aliados e abre caminho para novas “guerras por procuração” que vão contribuir para a desestabilização de uma área do mundo onde se concentram mais de 60% das reservas de petróleo e de gás. A revolução do shale gas nos EUA, que conferiu a este país vantagens apreciáveis, sendo hoje o maior produtor de gás do mundo e um dos maiores de petróleo, tem reflexos na política norte-americana a favor de um menor empenho no Médio Oriente e do retraimento estratégico dos Estados Unidos da América. Isto explica parte das políticas de Biden, de Trump e de Obama, na cena internacional, mas os problemas difíceis com que o mundo se confronta não se resolvem criando-se condições para mais desordem e para a ascensão dos piores. O poeta irlandês William Yeats escreveu um dia estes versos premonitórios: “Aos melhores falta a convicção, enquanto os piores estão animados de uma intensidade apaixonada.” Os gritos bárbaros dos talibãs e as suas armas que hoje celebram a vitória vão moldar o futuro numa zona do mundo em que a “guerra de todos contra todos” parece cada vez mais a norma.

Professor jubilado do IST, presidente da Partex e autor da Visão Estratégica para o PRR

Sean McFate
A era do caos e dos mercenários

As guerras resultantes do 11 de Setembro foram um enorme fiasco. Os EUA não ganharam no Iraque nem no Afeganistão, apesar da enorme quantidade de sangue, dinheiro e vontade política aí investida. No meu país, muitas pessoas ainda continuam em negação e afirmam: “Não ganhamos mas também não perdemos!”. Outros, mais circunspetos, alegam: “Vencemos a guerra, mas perdemos a paz.” Na prática, uns e outros falham no essencial. Sair vitorioso de um conflito significa alcançar os objetivos estratégicos traçados no início. Tudo o resto é uma mera racionalização do fracasso.

Como ex-paraquedista, é para mim vergonhoso perder contra inimigos de baixo nível. Vencemos batalhas, mas perdemos guerras, tal como no Vietname. Este não é um problema militar, mas de pensamento estratégico. Durante demasiado tempo, os nossos líderes tiveram um coeficiente de inteligência estratégica muito baixo. Não entendem a guerra moderna e, portanto, não podem vencê-la. No meu livro A Nova Arte da Guerra (Clube do Autor), explico como lutar e vencer os conflitos modernos.

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Depois da Guerra Fria, as elites norte-americanas interpretaram mal o suposto triunfo político dos EUA. Foi literalmente “o fim da História”, como lhe chamou Francis Fukuyama. Infelizmente para o mundo, os neoconservadores tomaram conta da política externa de George W. Bush e criaram os atoleiros no Iraque e no Afeganistão. A partir daí, o mundo do século XXI entrou numa era de prolongada desordem. Não faz sentido falar em anarquia, mas as relações internacionais tornaram-se cada vez mais caóticas e confusas. Depois da implosão da União Soviética, do genocídio ruandês e do narcotráfico na América Latina, sucedeu-se o 11 de Setembro, com os EUA a invadirem o Médio Oriente e o sul da Ásia. Duas décadas volvidas, com a retirada norte-americana, um enorme vazio é preenchido de forma desordenada pelos talibãs e não só. Assistimos também à ascensão dos mercenários, porque eles são um sintoma do crescente caos. Temos de aprender a viver num mundo mais instável. Não será o colapso da civilização, como alguns temem, mas vai exigir muito mais de quem governa e o reconhecimento do poder das multinacionais, dos super-ricos e dos supervilões. Não estamos prontos, mas podemos vir a estar.

Ex-oficial paraquedista dos EUA, ex-mercenário, professor nas universidades de Georgetown, Siracusa e National Defense (NDU)

Francisco Seixas da Costa
O 12 de Setembro

Todos sabemos onde estávamos no 11 de Setembro. Eu estava em Nova Iorque, como embaixador português junto das Nações Unidas. Hoje, quando evoco, na memória, as imagens desse meu dia, de como o senti, vivendo e trabalhando a dois passos da tragédia, dou-me conta de uma coisa estranha: revisito-o sempre com os olhos de quem passou uma vintena de anos depois dele. Claro que me lembro da violência dos embates dos aviões, da posterior derrocada das torres, da poeira densa sobre o Sul de Manhattan, do cheiro ácido que, por dias, pairou sobre a cidade, do silêncio apenas entrecortado por ambulâncias, em ruas subitamente desertas, das caras angustiadas daqueles com que nos cruzávamos, das lágrimas em muitos que comigo trabalhavam, da ansiedade coletiva sobre o dia seguinte que não sabíamos o que poderia ser.

O 11 de Setembro foi uma barbárie criminosa inominável que, em escassas horas, tirou a vida a alguns milhares de pessoas, nos Estados Unidos da América. Mas foi mais: foi o início de um processo, em que os EUA, partindo da imensa razão que lhe assistia, transformaram a raiva natural num processo de descaraterização moral que afetou a sua autoridade como potência. Muito do que se seguiu, da paranoia securitária a Abu Ghraib e a Guantánamo, com a aventura no Iraque a potenciar o Daesh, com centenas de milhares de mortos pelo meio, revelou um desvario estratégico de que Cabul acaba por ser uma triste montra. Não o sabendo, os terroristas obtiveram uma vitória bem maior do que o derrube das Torres Gémeas.

Embaixador

Mariana van Zeller
O perigo não vinha apenas da Al-Qaeda

O 11 de Setembro mudou muito os EUA e os norte-americanos. Passou a haver um maior conhecimento e reconhecimento do resto do mundo, e os norte-americanos deixaram de se ver como únicos e isolados. Deixaram de se ver como intocáveis e começaram a ver as muitas vulnerabilidades de um país que não está isento deste tipo de ataques. Afinal, o que lhes aconteceu por uma única vez repete-se, todos os dias, em muitos lugares do mundo, com atos de guerra, de destruição e de terrorismo.

O mundo é muito mais pequeno do que aquilo que pensamos, e o que se passa no Iraque, no Afeganistão ou no Paquistão – mesmo que sejam lugares tão distantes, a milhares de quilómetros – afeta diretamente a nossa vida como norte-americanos. Houve uma vontade, por parte dos EUA, de ter um papel mais ativo nesse lado do mundo, o que, infelizmente, tanto no caso do Iraque como no que estamos agora a assistir no Afeganistão, tem tido um impacto desastroso. Sabemos agora que não é através da força militar que vamos conseguir mudar e evitar ataques terroristas, no futuro.

A meu ver, tem de ser pelo investimento económico a longo prazo – todo o dinheiro que foi gasto no Iraque e no Afeganistão, ao fim de 20 anos, sabemos que não alterou muito. Milhões e milhões de dólares que poderiam ter sido gastos em educação, em ações sociais ou no desenvolvimento económico desses países.

A morte de qualquer pessoa inocente é o expoente máximo da maldade, seja essa pessoa atacada por uma crença religiosa ou por outra causa. No caso do 11 de Setembro, o ataque foi tão inesperado, com a morte de cerca de três mil pessoas inocentes de forma tão chocante que, para muitos, isso é o expoente máximo da maldade, mas em qualquer guerra isso existe. Na guerra do Afeganistão, os norte-americanos também mataram inocentes.

Na altura, além da Al-Qaeda, a indústria militar também ganhou bastante por causa dos milhões de dólares gastos e do enorme lucro que tem tido com a guerra no Iraque e no Afeganistão.

Mesmo que o 11 de Setembro não tivesse acontecido, temos visto como outro ataque terrorista poderia acontecer, com o aparecimento e crescimento do ISIS. Percebemos que o perigo não vinha apenas da Al-Qaeda mas também de outros grupos terroristas. É interessante o que tem acontecido nos últimos anos com a definição de terrorismo. Os EUA focaram-se muito nos grupos islâmicos e nos ataques com motivos religiosos, mas o que está a acontecer é o crescimento do terrorismo de extrema-direita. Porém, é muito mais difícil para a população norte-americana considerar isso “terrorismo”, porque é dentro de casa, e é mais fácil apontar o dedo ao estrangeiro, a pessoas que não são como nós.

Jornalista portuguesa, radicada nos EUA há 20 anos

Valter Hugo Mãe
O princípio de um mundo a preto e branco

O 11 de Setembro lembra ao mundo que nem todos se harmonizam pelo interesse demasiado beatificado da economia. O dinheiro não define o propósito de todos os povos, e outras culturas são exteriores à folia do consumo e repudiam qualquer ingerência e exploração. Com isto, pelo grotesco do terrorismo, o 11 de Setembro liberta o medo dos burgueses que, afinal, sabem bem como dependem da subjugação dos outros, países inteiros mantidos na penumbra da exploração da sua mão de obra ou do seu petróleo. O medo inventa outro horror na segurança extrema e impele o mundo para o extremismo. Muda tudo quando as coisas são sem nuances. O mundo a preto e branco começa aí. E estamos todos convidados a ser elementares nos juízos como se não houvesse culpa na família, apenas nos outros, sempre naquilo que são os outros. Significa que estamos de regresso a uma ideia mais estreita de sobrevivência. Temos a convicção de estar mais perto de apenas sobreviver, e já não de crescer pelas angústias subjetivas, cheios de cultura e liberdade.

Escritor

Ana Gomes
O refluxo nos valores

No dia 11 de setembro de 2001, estava em Jacarta e assisti à derrocada da segunda torre em direto, pela televisão, com o meu marido [António Franco, então embaixador de Portugal no Brasil] ao telefone, em Brasília, ambos a vermos tudo. Estávamos muito inquietos, porque o nosso futuro genro trabalhava em Nova Iorque e tínhamos também lá vários amigos.

Na capital Indonésia, apanhei ainda os atentados de Bali – e muitos outros de que ninguém falava quando só faleciam indonésios. Mas não nos esqueçamos de que nesse ataque, a 12 de outubro de 2002, a Jemaah Islamiah, principal franchising da Al-Qaeda no Sudeste Asiático, matou um soldado português – Diogo Ribeirinho, um dos 25 militares portugueses destacados em Timor-Leste que foram passar uns dias de licença a Bali. Com o ataque às Torres Gémeas, fiquei logo com a perceção de que a globalização era inescapável e que o mundo iria mudar. E mudou para pior.

A comunidade internacional não pode substituir-se à luta do próprio povo

Em 1997-1998, quando estava no Conselho de Segurança [da ONU], ouvi falar pela primeira vez na Al-Qaeda. Os atentados contra as embaixadas norte-americanas em Nairobi (Quénia) e em Dar-es-Salam (Tanzânia) fizeram mais de 200 mortos, e a organização tornou-se conhecida. Lembro-me de discutir a questão com Tom Countryman [diplomata dos EUA que seria depois secretário de Estado adjunto na administração Obama] e de ele me ter explicado que Bin Laden era um antigo mujahid no Afeganistão e que fora apoiado pelos EUA. Portanto, com o 11 de Setembro, teria de haver haveria implicações para os EUA e para todo o mundo.

Após os ataques, os norte-americanos tinham todos os argumentos para invocar a legítima defesa, à luz da Carta da ONU e do Artigo 5º da NATO, o problema é que desviaram rapidamente o foco do Afeganistão para o Iraque, para começarem a falar nas armas de destruição em massa. Ainda antes da invasão, no final de 2002, Nelson Mandela visitou Jacarta e, numa reunião com diplomatas em que eu também estive presente, ele avisou que a ofensiva militar norte-americana no Iraque seria devastadora para o mundo, para a segurança global, por ter como base uma mentira – as armas de destruição em massa. Tinha toda a razão.

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Não sou pacifista nem desvalorizo as ameaças terroristas, mas, para sermos realistas, temos de investir na segurança e respeitar valores, liberdades e garantias. Segurança sem direitos humanos não é sequer segurança. Não gosto nem concordo com o conceito de guerra ao terrorismo. O terrorismo é um método. A questão é saber como pode ser desarticulado politicamente, com meios militares, policiais, intelligence (informações). Acima de tudo, é preciso haver políticas inteligentes que não se prestem a dar armas e argumentos aos terroristas, designadamente usando as metodologias deles, violando os direitos humanos, porque isso é terrorismo de Estado. Nos últimos 20 anos, cometemos muitos erros estratégicos e estamos agora numa situação de refluxo relativamente a valores fundamentais.

Houve consequências dramáticas em termos políticos, económicos e sociais. É a partir do 11 de Setembro que assistimos igualmente ao grande crescimento das desigualdades, resultante da progressiva financeirização da economia. Claro que as desigualdades já vinham de trás, mas houve uma aceleração e elas não pararam de agravar-se – é isso que alimenta os ressentimentos, os medos, a extrema-direita. É inadmissível vermos Estados indiferentes aos refugiados, que se recusam a abrir as portas, que violam o dever de solidariedade que decorre de tratados por eles assinados.

As intervenções militares justificam-se quando há a responsabilidade de proteger e há o dever humanitário de ajudar um povo que está a tentar desembaraçar-se de um tirano. Mas a comunidade internacional não pode substituir-se à luta do próprio povo. Em 2008, quando estive no Afeganistão, era possível constatar que as mentes e os corações locais não se estavam a ganhar. Uma das coisas que mais me impressionaram foi o facto de as mulheres serem mais de metade dos presos no país. E não era por terem cometidos crimes, era por terem sido apanhadas na rua sem acompanhantes masculinos ou por estarem a fugir de familiares e de maridos opressores. Os polícias já ganhavam mais do que os juízes, não havia justiça. Era tudo uma mentira, já havia uma série de aberrações que inviabilizavam uma estratégia bem-sucedida de nation building.

Não se podem avaliar estes 20 anos a preto e branco. Da mesma maneira que nos trouxeram muita perversidade na vigilância, na privacidade, na desinformação, também nos trouxeram uma capacidade de comunicação e de mobilização sem igual. Há hoje muito mais consciência da situação dos migrantes e dos refugiados, dos direitos das mulheres e das minorias. Nem tudo foi negativo.

Antiga eurodeputada e embaixadora

Helena Carreiras
O erro de se ver a realidade pela lente ocidental

A resposta ocidental aos atentados do 11 de Setembro tem motivado múltiplas análises sobre as razões que conduziram à situação presente e suas implicações futuras. O que falhou? Não foram apenas erros políticos e estratégicos, mas, muito provavelmente, a desadequação das lentes com que analisamos a realidade. É imperativo rever paradigmas e quadros de análise, desde os que suportam as estratégias de contraterrorismo aos que identificam as condições para promoção da democracia ou a contenção da radicalização violenta e, sobretudo, os que definem a relação com “o Outro” no plano internacional.

Diretora do Instituto da Defesa Nacional

José Filipe Pinto
Da ameaça terrorista ao populismo identitário

É habitual inserir-se o 11 de Setembro na quarta vaga do terrorismo global que Rapoport designa como “religioso”. No entanto, a designação mais correta passa por “terrorismo político”, que recorreu a elementos religiosos ao assentar na falácia de que o Ocidente está em luta contra o Islão. Daí que as consequências do 11 de Setembro tenham de ser analisadas nas dimensões política, social e religiosa.

Assim, o Estado, qualquer que seja a capacidade polemológica de que disponha, revela-se incapaz de resolver uma ameaça que é global. A eliminação física de um líder não conduz à erradicação de um problema, agudizado pelo crescente recurso à rede. Os ataques evitados após o 11 de Setembro mostram que o controlo passa pela cooperação internacional nas valências antiterrorista e de contraterrorismo.

Depois, o facto de uma organização terrorista ousar atacar uma superpotência, atingindo-a no coração do seu sistema financeiro, mostrou que o terrorismo global desmente a ideia de envolver apenas combatentes pobres de mãos nuas. A Al-Qaeda gastou mais de meio milhão de dólares no atentado, e isso aponta para a assinalável capacidade de financiamento dos principais grupos terroristas.

Finalmente, do ponto de vista ocidental, a quebra de confiança nas instituições, decorrente do ataque, deixou marcas profundas e conduziu a uma sociedade de risco, na qual, em nome da segurança, os cidadãos passaram a aceitar restrições às suas liberdades individuais e coletivas. Além disso, favoreceu o crescimento do populismo cultural ou identitário e da xenofobia, sobretudo no que concerne à islamofobia. Uma situação altamente preocupante.

Politólogo, especialista em populismo e professor catedrático da Universidade Lusófona

Raquel Vaz-Pinto
O mundo mudou com o 11 de Setembro?

À primeira vista, a resposta é evidente: sim. No entanto, assim que começamos a aprofundar o impacto dessa mudança, quase tudo se afigura bem mais complexo.

Ao nível estratégico, os ataques do 11 de Setembro e a subsequente intervenção em território afegão deram início a um processo de predomínio do chamado “hard power” (para usar a expressão de Joseph Nye). Por outras palavras, o poder militar foi o instrumento preferencial para se atingir o objetivo de aniquilar a ameaça terrorista. Esta opção também levou a erros colossais, dos quais a invasão do Iraque é, sem dúvida, o mais clamoroso.

Mas a grande mudança teve lugar na “outra” parte do mundo e, em especial, na China. Ao longo da primeira década deste século, Beijing foi paulatinamente expandindo a sua influência a vários níveis. Essa influência foi reforçada com a crise económica e financeira de 2008 e, desde então, de forma cada vez mais manifesta.

A partir de 2012, com Xi Jinping ao leme do Partido Comunista da China, essa influência foi-se transformando em poder, tal como a sua Rota da Seda o demonstra. Do ponto de vista estratégico, a grande história dos últimos 20 anos é esta, e de tal forma que, hoje em dia, há alguns setores europeus que gostariam de ser “equidistantes” entre Washington e Beijing (é mesmo verdade!). Mais ainda, o regresso da China ao centro do poder internacional mexeu com outro país asiático: a Índia.

Poucos diriam em 2001 que 20 anos depois seria esta a fotografia do mundo. E quanto aos próximos 20? Muito passará pelo sucesso interno de Washington e pela sua capacidade de liderança, seja do (e no) Indo-Pacífico seja da (e na) relação transatlântica.

Professora Auxiliar Convidada, no Instituto Português de Relações Internacionais da FSCH

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