América Latina: o vírus da indignação

Mobilização Milhões de brasileiros prometem este sábado, 24, zurzir Jair Bolsonaro Foto: GettyImages

Quando era miúdo, nos anos 30 do século passado, Gabriel García Márquez adorava ouvir as histórias que o seu avó Nicolás lhe contava sobre as desventuras político-militares da Colômbia e a forma como os “gringos” e uma multinacional dos EUA – a United Fruit Company – se apoderaram da América Latina. Nesses seus tempos de infância, o futuro autor de Cem Anos de Solidão e Nobel da Literatura aprendeu que a “Compañia Frutera” controlava mais de 90% do mercado mundial de bananas e montara um império empresarial que lhe permitia pôr e dispor dos governos hondurenho, colombiano, cubano e afins. Ou seja, ficou a saber por que motivo o seu país era uma “república bananera” e retirou daí a grande lição que o avó lhe transmitira: “A dignidade não se come, mas também não se pode viver sem ela.”

Insanidades guatemaltecas
Nos dias que correm, milhões de latino-americanos parecem dispostos a seguir os ensinamentos do coronel Nicolás Ricardo Márquez Mejía. Seja em Cuba, no Brasil, na Colômbia e no Haiti, independentemente dos motivos que inspiram os protestos em cada um deles. A Guatemala consegue até ser um (mau) exemplo de realismo mágico e insanidade política à custa do seu Presidente, Alejandro Giammattei, que decidiu, a 14 de julho, impor um “Estado de Prevenção”, durante duas semanas, para impedir quaisquer manifestações, silenciar todos os que o contestam e evitar greves. Este governante populista e ultraconservador, eleito de forma polémica no verão de 2019, cumpre à risca a cartilha dos velhos caudilhos da região e alega ser seu dever “proteger a população” da pandemia e dos “radicais” que conspiram para o depor. Como se pode imaginar, a oposição, incluindo várias organizações sindicais e representativas das comunidades indígenas, preparam já uma campanha a exigir a demissão de Giammattei e respetivo governo, acusados de incompetência, de corrupção e de apostarem na militarização das estruturas do Estado para se perpetuarem no poder. Se, nos últimos nove meses, as manifestações têm sido uma constante e incluíram uma invasão do Parlamento, estão agora reunidas as condições para o agravamento das tensões neste país que integra o chamado Triângulo do Norte (a par das Honduras e de El Salvador), onde mais de 350 mil pessoas por ano emigram (rumo aos EUA) para escapar à pobreza, à violência e ao narcotráfico. Não é por acaso que a Administração de Joe Biden e, em particular, a vice-presidente, Kamala Harris, andam há várias semanas desconcertados com o que se passa na América Latina e se multiplicam em apelos para conter o novo êxodo. Só em junho, registaram-se 188 mil detenções na fronteira sul dos EUA, um número sem precedentes no que à imigração ilegal diz respeito e que pode obrigar a Casa Branca a acelerar os seus planos para injetar quatro mil milhões de dólares (quase 3 400 milhões de euros) na América Central, para combater a atual crise social, política e sanitária.

Repressões Depois dos protestos de 11 de julho em Cuba (à esq.), centenas de pessoas permanecem presas; na Colômbia, desde abril, as manifestações já provocaram 60 mortos e, no Haiti, receia-se uma nova vaga de violência  Fotos: GettyImages

Só que as convulsões sociais já alastraram a toda a região, como escreveu o El País em editorial, a 27 de junho, na sequência de um relatório do Banco Mundial a confirmar o agravamento das condições económicas: “Na funesta era da pandemia, a América Latina, a região com as maiores desigualdades do planeta, viu exacerbarem-se os seus desequilíbrios e retrocederem os avanços alcançados nas últimas décadas. (…) A revolta colombiana, a polarização no Peru, o mal-estar chileno ou a fratura no Brasil são apenas os indícios de um descontentamento que prefigura uma explosão em larga escala.” Retrato abreviado de alguns casos emblemáticos.

A crónica maldição haitiana
Esta sexta-feira, 23, Trou-du-Nord, uma pequena cidade no Nordeste do Haiti, vai assistir ao funeral de um filho da terra: Jovenel Moise, o empresário conhecido por Jojo ou Bananaman, que foi Presidente do país desde 2017 até ao seu homicídio na madrugada de 7 de julho. Não é previsível que haja multidões na cerimónia, porque o governante abatido por um grupo de mercenários estrangeiros há muito que deixara de ser uma figura popular. A sua morte abriu um novo vazio de poder e, apesar da tomada de posse de um governo interino promovido pelos EUA e liderado por um neurocirurgião de 71 anos (Ariel Henry), os haitianos vão continuar a ser um dos povos mais pobres do mundo. Aquele que foi o primeiro país da América Latina a conquistar a independência, em 1804, após uma revolta de escravos, continua amaldiçoado pelas suas vulnerabilidades históricas e conjunturais. As sucessivas revoltas, ditaduras, interferências externas (EUA ocuparam militarmente três vezes o país desde 1915, a última em 2004) e desastres naturais (um terramoto em 2010 fez 230 mil mortos e arrasou as infraestruturas) fazem com que a maioria da população viva sequestrada pela miséria, pelos interesses de uma ínfima minoria que tem casa em Nova Iorque ou Paris e pelos senhores do crime organizado, que traficam cada vez mais crianças (50 mil anualmente). Nos últimos 17 meses, Jovenel Moise foi alvo de incontáveis manifestações pela sua deriva autoritária. Agora, com eleições gerais agendadas para 26 de setembro, receia-se uma nova vaga de protestos. “Como é que vamos celebrar eleições quando os membros das pandilhas controlam 60% do território?”, interrogava-se, no New York Times, Pierre Esperance, diretor da Rede Nacional de Defesa dos Direitos Humanos no Haiti.

267

MILHÕES
Habitantes da América Latina e Caraíbas (41% do total da população) em situação de insegurança alimentar, diz a ONU

4,7

MILHÕES
Nº de novos pobres, na região, desde 2019, segundo o Banco Mundial

54,4%

TRABALHADORES
Que dependem da economia informal, com 12,5% da população a viver na pobreza extrema

25%

HABITANTES
Não têm alojamento com saneamento básico adequado e 9% não têm sequer acesso a eletricidade

6,8%

QUEDA DO PIB
Em 2020, segundo a Comissão Económica para a América Latina e Caraíbas (CEPAL)

5,2%

CRESCIMENTO DO PIB
Em 2021, segundo a mesma agência da ONU

1,3

MILHÕES DE MORTOS
Vítimas da pandemia na América Latina e Caraíbas

32%

DO TOTAL DE MORTOS MUNDIAL
Com a Covid-19, embora a região só tenha 8,4% da população do planeta

Bolsonaro e a brasileirização do mundo
Este sábado, 24, milhões de brasileiros prometem uma nova megajornada de protestos contra o homem que (des)governa o país há dois anos e meio e que pretende manter-se no Palácio do Planalto até ao início de 2027. As sondagens e a sua atual taxa de popularidade não lhe auguram grande futuro (Lula da Silva surge como o favorito às presidenciais do próximo ano), mas Jair Bolsonaro continua indiferente aos que o acusam de ser um genocida, pela gestão que tem feito da pandemia e do aparelho de Estado. De acordo com o Datafolha, 70% dos brasileiros acham que o governo de Brasília é corrupto e 52% consideram o Presidente desonesto, estatísticas que refletem o número de mortos por Covid-19 (quase 550 mil) e o crescente descontentamento com o dirigente, que recusa vacinar-se e insiste em negar o óbvio. Cada vez mais preocupante é o avanço do desemprego (14,7%) e da violência: em 2020, o Brasil assistiu a um aumento dos homicídios (50 mil) e ao crescimento da aquisição de armas de fogo (em 30%). Sinais de que o país se afasta do seu próprio lema nacional – Ordem e Progresso – e parece estar numa trajetória que vai ao encontro da tese do investigador Alex Hochuli, publicada em maio na revista American Affairs e intitulada “A Brasileirização do mundo”. Para este ensaísta residente em São Paulo, o maior país da América do Sul deixou não apenas de convergir com o mundo desenvolvido, como está a tornar-se aquilo que pode ser um espelho do que nos aguarda, a todos, no futuro: “A crescente desigualdade, as oligarquias, a privatização da riqueza e do espaço social, o declínio das classes médias. (…) A brasileirização significa patrimonialismo, clientelismo, corrupção. Em vez de encararmos isto como aberrações, temos de entendê-lo como o estado normal da política quando o progresso económico não se generaliza e as forças de esquerda se revelam incapazes de atuar como um contrapeso.”

A adiada revolta cubana
A 17 de julho, Havana, a capital cubana, foi palco de uma gigantesca manifestação. Só que as supostas 100 mil pessoas presentes não tinham por objetivo reinvindicar liberdade e democracia e muito menos denunciar a pior crise económica das últimas três décadas e a vaga de repressão iniciada sete dias antes. Pelo contrário, tratou-se de uma iniciativa de “reafirmação revolucionária” do próprio governo e do Presidente, Miguel Díaz-Canel, à qual se associou o nonagenário Raúl Castro, para demonstrar que os protestos ocorridos no domingo anterior – de que resultaram um morto e centena e meia de detenções – eram um simples “alarido”, levado a cabo por “indivíduos manipulados a partir do exterior”. Só que a oposição e o jornal digital 14ymedio, criado pela blogger e ativista Yoani Sánchez, falam em cinco mil presos e desaparecidos, contrariando a narrativa oficial de que a paz e o bem-estar estão de regresso à ilha. O Presidente dos EUA, Joe Biden, acusou o seu homólogo do outro lado do estreito da Flórida de liderar um “Estado falhado”, fez saber que o embargo decretado por Washington há 62 anos está para durar e recusou levantar algumas das medidas impostas pelo seu antecessor na Casa Branca, nomeadamente o envio das remessas da diáspora cubana, uma fonte essencial de receitas para a economia centralizada que, no ano passado, contraiu 11 por cento.

Com a internet cortada ou a funcionar irregularmente, estima-se que mais de um milhão de cubanos estejam agora a tentar instalar dispositivos VPN para furar o bloqueio informativo e as medidas de controlo do executivo comunista. Mauricio Vincent, o correspondente do El País em Cuba, descreve o que enfrentam todos os que pretendam desafiar a ordem estabelecida: “Uma escapadela por Habana Vieja e Centro Habana mostra as feridas abertas e também o magma que delas supura. No Malecón, em cada esquina dos seus sete quilómetros, há dois ou três polícias plantados. Agentes das tropas especiais com uniformes negros – que impressionam – exibem-se de tempos a tempos no Paseo del Prado, San Lázaro e noutras ruas principais…” Será que Cuba é mesmo “uma ditadura com amplo apoio popular”, como afirmou ao La Vanguardia Carlos Alonso Zaldívar, antigo embaixador de Espanha em Havana?

Alarmismos Muitos peruanos receiam perder as suas poupanças por causa de Pedro Castillo, o novo Presidente Foto: GettyImages

A nova utopia peruana
No próxima semana, a 28 de julho, toma posse, como Presidente do Peru, um antigo professor primário, marxista-leninista confesso e admirador do coletivismo inca. Pedro Castillo há meses que anda a dizer que não é nenhum “radical de esquerda” e que não há razões para os seus compatriotas recearem pelo futuro. No entanto, desde que ele ganhou pela margem mínima a corrida eleitoral frente a Keiko Fujimori – a candidata conservadora que é filha primogénita do antigo chefe de Estado com o mesmo apelido que cumpre 25 anos de prisão por diversos crimes de corrupção – que o país andino vive na incerteza. Milhares de pessoas estão a emigrar, levando consigo as suas poupanças. Desde abril, a moeda nacional, o sol, desvalorizou 8% face ao dólar, e um dos vídeos que maior sucesso fazem nas redes sociais tem por título “Como abrir uma conta bancária nos EUA sendo peruano”. Para tranquilizar os mercados e evitar novas manifestações de apoio a Keiko, Pedro Castillo faz agora juras de respeito pela democracia e pelo Estado de direito, nomeando figuras moderadas ou mantendo nos cargos personalidades insuspeitas de simpatias bolivarianas, como Julio Velarde Flores, presidente do Banco Central. Mas o estado de graça de Castillo vai durar muito pouco tempo, porque um terço da população vive com menos de 100 euros por mês e vários deputados conservadores ameaçam apelar à desobediência civil e à sua destituição.

A revolução molecular colombiana
A 28 de abril, estalou na Colômbia uma vaga de protestos que já fez seis dezenas de mortos e ameaça descambar num conflito capaz de dividir ainda mais o país. Estudantes, sindicatos e partidos progressistas rejeitam as reformas fiscais que o governo pretende aplicar, e o Presidente, Iván Duque, e os seus aliados conservadores acusam a esquerda internacional de querer instaurar um regime comunista em Bogotá e de alimentar uma “revolução molecular dissipada” com esse propósito. A menos de oito meses de eleições parlamentares e a 11 das presidenciais, a situação tende a piorar com o envolvimento de grupos paramilitares e das forças armadas. O politólogo Ariel Ávila, colunista do El País, é uma das personalidades que mais têm escrito sobre esta crise sem recorrer a teorias conspirativas: “Em 2020, serviam-se três refeições diárias em 7,1 milhões de lares colombianos; em fevereiro de 2021, isso só aconteceu em 5,4 milhões. (…) O país retrocedeu quase 20 anos em matéria de pobreza (…). Como sempre, o governo está a tentar apagar um incêndio com gasolina.” Que diria Gabriel García Márquez de tudo isto?

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