Quem é Annalena Baerbock, a antiga ginasta que quer suceder a Angela Merkel

Foto: Getty Images Pragmática A líder ambientalista admite formar governo com os sociais-democratas, com os conservadores e com os liberais

O livro será lançado na próxima semana e tem como título Agora. Como vamos renovar o nosso país. A autora chama-se Annalena Baerbock e não tem a mínima intenção de se dedicar às lides literárias. O seu objetivo é dar a conhecer as ideias do partido que representa e iniciar a pré-campanha para as eleições legislativas de 26 de setembro, na Alemanha. Nos últimos 16 anos, Angela Merkel liderou os destinos germânicos. No próximo outono, de acordo com as sondagens (ver infografia), pode haver uma nova chanceler e uma pequena revolução no xadrez político do país.

A confirmar-se tal cenário, será uma enorme vitória para a mulher que sonhou ser ginasta de alta competição e chegou a ganhar três medalhas de bronze nos campeonatos nacionais alemães de salto de trampolim. Filha de um engenheiro mecânico e de uma assistente social, era uma ilustre desconhecida dos seus compatriotas até ser eleita para a presidência bicéfala da Aliança90/Os Verdes, a par de Robert Habeck, em 2018.

26 de setembro

Eleições gerais
A quatro meses das legislativas que marcam o fim da era Angela Merkel – que recusa candidatar-se a um novo mandato à frente da CDU/CSU –, os Verdes estão em condições únicas para o exercício do poder. Neste momento, o partido formado em 1980 já está presente em 14 dos 16 parlamentos estaduais, integra 11 dos 16 governos regionais e, a 26 de setembro, pode ainda alcançar conquistas históricas: ser o partido mais votado para o Bundestag (Parlamento federal), o que fará de Annalena Baerbock a próxima chanceler; eleger o próximo presidente da câmara de Berlim; e aumentar, de forma inédita, o número de deputados nos estados da Turíngia e de Meclemburgo-Pomerânia Ocidental. No entanto, a 6 de junho, a Saxónia-Anhalt vai também a votos e, de acordo com as sondagens, os ambientalistas podem ver duplicada a sua votação e reeditar a coligação com a CDU e o SPD – a não ser que os populistas da AfD consigam mesmo um resultado inédito (acima dos 25%).

Desde então, tudo mudou. Ela e os seus camaradas conseguiram o que parecia impossível: elevar o movimento ambientalista a principal força política do centro-esquerda alemão e acabar com o histórico monopólio dos conservadores da CDU e dos sociais-democratas do SPD. Nas legislativas realizadas logo após a reunificação, em dezembro de 1990, estes dois últimos partidos recolheram quase 80% dos votos, e a formação então liderada pela ecofeminista Petra Kelly alcançou uns magros cinco por cento. Com a dupla Baerbock/Habeck, o número de militantes ambientalistas duplicou (para cerca de 120 mil) e as vitórias nas urnas multiplicaram-se. Em 2019, recolheram mais de um quinto dos votos para o Parlamento Europeu, conquistaram a autarquia de Hannover (nas mãos do SPD havia seis décadas) e, no ano seguinte, alargaram a sua participação a 11 dos 16 governos regionais. Um sucesso resultante dos erros alheios e de terem sabido aproveitar-se daquilo que os alemães designam como zeitgeist, o espírito do tempo. Para tal, contribuiu igualmente o facto de ambos serem Realos (a ala pragmática e moderada dos Verdes) e não Fundis (os idealistas e radicais). Características que lhes podem dar muito jeito dentro de quatro meses, quando se iniciarem as negociações para a formação do próximo executivo – que será sempre de coligação. Entre as combinações possíveis, há duas muito óbvias: a Jamaica (Verdes, CDU e liberais, cujas cores formam a bandeira do Estado caribenho) ou a Semáforo (Verdes, SPD e liberais).

Longe vão os tempos em que os Verdes alemães eram um movimento assumidamente ambientalista, pacifista, anticapitalista e anti-imperialista. A principal relativização destes princípios fundadores deu-se entre 1998 e 2005, quando o partido então liderado por Joschka Fischer cumpriu dois mandatos no poder, integrando dois governos chefiados pelo SPD. Fischer, enquanto vice-chanceler e titular da pasta dos Negócios Estrangeiros, aceitou a participação de tropas germânicas nas missões da NATO no Kosovo e no Afeganistão, o que viria a provocar uma sangria de militantes, além de pouco ou nada ter feito para o encerramento das centrais nucleares e a reconversão energética do país –  algo que só viria a acontecer com Angela Merkel, depois da catástrofe de Fukushima, no Japão.

Com Annalena Baerbock, nem se coloca a hipótese de os Verdes não participarem no próximo executivo federal. Mesmo que o partido fique em segundo lugar, atrás da CDU/CSU, terá sempre direito a pastas-chave, de modo a cumprir algumas das suas promessas eleitorais e, assim, “transformar a sociedade” – como ela tem sublinhado nas entrevistas que concedeu no último mês, após ter sido escolhida como cabeça de lista.

Milhões e proibições

A jurista formada pela Universidade de Hamburgo e pela London School of Economics quer que a Alemanha reduza 70% das emissões de gases com efeito de estufa até 2030 (relativamente aos níveis de 1990) e gaste qualquer coisa como 500 mil milhões de euros para renovar ou erguer “infraestruturas neutras no plano climático”. Para isso, admite eliminar a cláusula constitucional de travão ao endividamento público (criada em 2009), investir no caminho de ferro e acabar de vez com os subsídios ao combustível para os voos domésticos e low-cost, aumentar a carga fiscal das grandes fortunas, punir contribuintes e empresas que violem regras e metas ambientais, impor limites de velocidade nas autoestradas e demais rodovias, e ainda obrigar a que os futuros edifícios tenham painéis solares e equipamentos sustentáveis. Algumas entidades patronais receiam que os Verdes se tornem o “partido das interdições” e da “economia planificada”, e que sejam postas em causa a competitividade e a capacidade exportadora das empresas germânicas. Os dirigentes ecologistas alegam que essas acusações não fazem sentido e dão como exemplo Baden-Württemberg. Desde 2011 que esta região e estado natal de empresas como Mercedes, Porsche, SAP, Boss e Bosch é governado por Winfried Kretschmann, um dos mais emblemáticos dirigentes verdes. É esse pragmatismo que Baerbock pretende ver aplicado em Berlim, quaisquer que sejam os seus parceiros de governo. Para já, ela garante estar disponível para negociar à esquerda e à direita, com exceção da AfD. E, se for preciso, como ficou demonstrado no debate televisivo que protagonizou com os candidatos do SPD e da CDU, consegue ser mais liberal e belicista do que os seus adversários diretos. Interessada em reduzir a regra da unanimidade na União Europeia e em celebrar um “New Deal transatlântico” com Joe Biden, a antiga ginasta promete dar luta a Vladimir Putin e a Xi Jinping. Falta saber se conseguirá aguentar o crescente escrutínio à sua carreira. O facto de se ter esquecido de declarar ao fisco – e ao Parlamento – os bónus financeiros que o seu partido lhe pagou (25 mil euros) foi apenas o primeiro aviso.

Os outros candidatos ao lugar de Merkel

Armin Laschet
O pouco carismático líder da Renânia do Norte Vestefália, de 60 anos, é o escolhido pela CDU, o partido de Angela Merkel, para liderar a corrida à chancelaria. Este católico praticante que já foi jornalista pode ser obrigado a demitir-se caso os democratas-cristãos percam para os verdes.

Olaf Scholz
Aos 62 anos, o atual vice-chanceler e ministro das Finanças pode ter os dias contados na política porque o seu SPD, o partido social democrata mais antigo da Europa (fundado em 1863), ameaça ter o pior resultado do último século.

Christian Lindner
O líder do FDP, de 42 anos, sabe que não tem a mínima hipótese de ser chanceler.
A sua estratégia é fazer com que os liberais se tornem indispensáveis numa futura coligação, tal como já aconteceu em cinco ocasiões desde a Segunda Guerra Mundial.

Tino Chrupalla
É um dos 88 deputados federais da AfD e partilha com o economista Jörg Meuthen a liderança do mais conhecido partido nacional-populista alemão. Nasceu há 46 anos na antiga RDA e já foi decorador, pintor e militante da CDU.

Janine Wissler
Esta politóloga de 40 anos é uma das líderes do Die Linke (A Esquerda) e considerada uma representante da ala mais ortodoxa do partido.

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