Napoleão: O (imortal) imperador da polémica

Foto: Getty Images Conquistador global O quadro mais conhecido do imperador, da autoria de Jacques-Louis David que se tornou amigo de Napoleão

Neste preciso momento, dois cruzeiros de luxo, com mais de um milhar de passageiros e tripulantes a bordo, deveriam estar a caminho do Atlântico Sul. Destino final: Santa Helena, uma ilha vulcânica descoberta, em 1502, pelo navegador galego João da Nova, ao serviço da coroa portuguesa, que viria depois a tornar-se um entreposto estratégico entre o Velho Continente e a Índia. Devido à pandemia e às restrições dela resultantes, a viagem teve de ser cancelada, mas o que conta são as intenções. Muitos dos que planeavam desembarcar no inóspito território que integra o Reino Unido, e que fica 1 800 quilómetros ao largo da costa angolana e um pouco mais da costa brasileira, arranjaram um expediente alternativo e menos dispendioso para cumprir os seus intentos. A troco de apenas 10 euros podem prestar homenagem à mais ilustre personagem que alguma vez residiu em Santa Helena e ver colocada na respetiva campa um ramo de perpétuas amarelas, devidamente personalizado.

Coroação triunfal Quadro de Jacques-Louis David que retrata o momento em que Napoleão se declara imperador, em 1804, na Igreja de Notre-Dame, na presença do Papa Pio VII

Na manhã da próxima quarta-feira, 5 de maio, as flores serão depositadas naquela que foi a primeira sepultura do francês mais conhecido do mundo, Napoleão Bonaparte. No mesmo dia, mas às 17h15, hora exata em que o antigo imperador deu o último suspiro, com 51 anos, haverá outra cerimónia que se inicia com dois minutos de silêncio, no exterior da mansão onde ele viveu desterrado, entre 1816 e 1821, com os (previsivelmente poucos) convidados a terem oportunidade de assistir aos discursos da praxe e a um pequeno concerto musical. A jornada deve terminar com os presentes a darem um passeio pelos jardins que circundam o edifício conhecido como Longwood House e que foram desenhados pelo seu antigo proprietário – curiosamente, e a exemplo do que sucedeu há dois séculos, ninguém estará autorizado a entrar nos aposentos privados da ambivalente criatura nascida na Córsega e que continua a despertar paixões e outros tantos ódios. Os meios de comunicação social franceses são um excelente barómetro disso mesmo, como que a darem razão ao governante egocêntrico e megalómano que era igualmente um artista na arte de comunicar e de manipular para escrever a História à sua medida: “A bala que me pode matar terá o meu nome”, já ele dizia em vida, referindo-se à sua imortalidade.

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A polémica sobre se é ou não adequado assinalar a nova efeméride de Napoleão, e de que forma, instalou-se com estrondo nos media, na academia e em todo o espaço público. O assunto é particularmente sensível para Emmanuel Macron, o Presidente francês, acusado de ter tiques autoritários – ou bonapartistas – e de ser um admirador secreto da personagem que governou, com mão-de-ferro, entre 1799 e 1815. Há pouco mais de dois anos, o atual inquilino do Palácio do Eliseu foi muito criticado por estar alegadamente a branquear e a reabilitar figuras do passado, incluindo o general Pétain, herói da I Guerra Mundial e líder do regime colaboracionista de Vichy, durante a ocupação nazi. Agora, o “bicentenário da discórdia”, como lhe chamou o jornal Le Parisien, volta a atormentar Macron quando este já está em pré-campanha para a sua reeleição, na primavera de 2022, com as sondagens a indicarem que Marine Le Pen, a figura de proa da União Nacional e da extrema-direita, está a beneficiar do clima de insegurança e de contestação reinantes. Para cúmulo, 20 generais na reserva e um milhar de outros antigos militares subscreveram, na passada semana, uma carta aberta à classe política, alertando para o perigo de “desintegração” da França e para uma eventual “guerra civil”. Publicada na revista conservadora Valeurs Actuelles, a missiva aborda o “antirracismo” e o “islamismo” que têm aumentado as clivagens no Hexágono e a perda de autoridade das forças da ordem face, por exemplo, às “hordas dos subúrbios” e a movimentos como o dos Coletes Amarelos, devido ao “laxismo” do poder oficial.

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É neste contexto que, a um ritmo quase diário, se discute o que fazer com a figura que consegue dividir até aqueles que são os seus dois principais descendentes: Charles Bonaparte, 61 anos, republicano, socialista, autarca e ambientalista, que renunciou aos seus direitos dinásticos, e Jean-Christophe, 34 anos, monárquico conhecido como “Príncipe Napoleão”, casado com a condessa Olympia von Arco-Zinneberg, bisneta do último imperador da Áustria. Ninguém discute uma mudança de regime ou a coroação de um hipotético Napoleão IV, antes a forma como o Napoleão original marcou a França e tomou medidas concretas que têm de ser devidamente explicadas e condenadas. A começar pela reintrodução da escravatura no império colonial francês, em 1802, após ter sido abolida oito anos antes. “Napoleão agiu como sempre fez em todas as coisas – sem afeto e sem moral. Esta decisão não foi um acidente de percurso, inscreve-se na sua prática de poder e de acordo com a sua ambição. Ele queria alargar o império colonial francês, é o seu sonho americano”, afirmou ao jornal 20 Minutes Jean-Marc Ayrault, antigo primeiro-ministro e atual presidente da Fundação para a Memória da Escravatura. Nas páginas da revista L’Obs, o filósofo Pierre Tevanian usou um registo ainda mais duro: “A escolha de ‘comemorar’ Napoleão e não as suas vítimas – os escravos e os três milhões de mortos provocados pelas suas guerras – é um ato político. As nossas lendas douradas, as nossas narrativas e os nossos ícones de infância branca valem mais do que os vossos ascendentes negros, mais do que a populaça sacrificada nos campos de batalha, mais do que a verdade histórica.”

O “bicentenário da discórdia” divide políticos, académicos, jornalistas e até os dois principais descendentes do imperador que invadiu meia Europa e quis fundar uma república islâmica no Egito

Em sinal contrário, os comentadores de pendor nacionalista e conservador acusam Ayrault e a esquerda, em geral, de levarem a cabo uma campanha contra o antigo imperador por este personificar tudo aquilo que eles, os críticos, detestam: a própria França. “Napoleão já não é ameaçado pelo fogo cruzado dos jacobinos, dos liberais, dos contrarrevolucionários e dos republicanos. (…) Para o melhor e para o pior, ele foi um homem branco. Não era vegan, não fazia a reciclagem do lixo. É demasiado tarde para que se possa penitenciar. O que eles querem é impor-nos os cânones de uma nova moral, em que decretam aquilo a que temos direito e o que podemos ou não admirar”, escreveu Michel De Jaeghere, diretor do Figaro Histoire e do Figaro Hors-Série.

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Laurent Joffrin, antigo jornalista que no ano passado se rendeu à política e ao ativismo cívico, tenta adotar uma postura mais conciliadora: “Seria ridículo apagar Napoleão da memória francesa, pois ele é o francês mais conhecido do mundo. A sua glória é universal. O que seria da cidade [Paris] onde as recordações do Consulado e do Império estão por todo o lado? A estação de Austerlitz, a ponte d’Iéna (sobre o Sena), o arco do Triunfo, a rua de Rivoli, etc. (…) Esquecer seria agir como Estaline, que tentou apagar da história os seus opositores. E não, não nos podemos contentar em fazer colóquios.” Na sua opinião, é preciso encontrar algum equilíbrio para se fazer justiça ao homem que invadiu meia Europa. Se, por um lado, há que recordar a sua obra civil – as reformas legislativas e os códigos napoleónicos, a organização administrativa do Estado, os estabelecimentos de ensino –, por outro, é imperioso destacar os aspetos negativos: “A tirania, a propaganda obsessiva (…), o comportamento vergonhoso dos franceses no estrangeiro, as ocupações, as pilhagens…” Algo que nenhum chefe de Estado francês condenou publicamente, nem mesmo Jacques Chirac, ele que desprezava o corso e que se recusou a prestar-lhe homenagem em 2005, nas cerimónias dos 200 anos da batalha de Austerlitz, preferindo deslocar-se a África.

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Governo francês está a ser pressionado para imitar o que o seu homólogo espanhol fez com Franco, no Vale dos Caídos, e retirar o sarcófago de Napoleão dos Invalides

Em Santa Helena, na Córsega e em várias cidades francesas, permanecem agendadas exposições, conferências e todo o tipo de iniciativas sobre o “bicentenário da discórdia”, muitas delas promovidas pela Fundação Napoleão, instituição com estatuto de utilidade pública, criada em 1987 e presidida por Victor-André Masséna, descendente do famoso marechal com o mesmo apelido que liderou a terceira invasão napoleónica de Portugal. No entanto, a pandemia impedirá que um ilustre admirador de Napoleão, Vladimir Putin, o Presidente russo, aterre em Paris na próxima semana e visite Les Invalides, o enorme palácio em que está a cripta com o cadáver do imperador, local por onde passam cerca de 1,3 milhões de turistas, todos os anos. Resta saber se o senhor do Kremlin terá outra oportunidade para o fazer. É que dois académicos gauleses, Louis George Tin e Olivier Grandmaison, sugeriram a Emmanuel Macron que mande remover o sarcófago de Napoleão e que o entregue à família, tal como fez o governo espanhol ao ordenar a transladação de Francisco Franco do Vale dos Caídos para um cemitério de Madrid. Será tal proposta para levar a sério?

10 mitos napoleónicos

Volvidos 200 anos sobre a sua morte, o francês mais conhecido do mundo continua a inspirar livros, documentários e, claro, teorias mirabolantes

Mito 1
Tinha origens humildes
Napoleão nasceu a 15 de agosto de 1769, em Ajaccio, na Córsega, e o seu pai, Carlo Maria di Buonaparte, com raízes toscanas, foi jurista e diplomata. A sua mãe, Maria Letizia Ramolino, pertencia a uma família aristocrática de Génova.

Mito 2
Não sabia falar francês
Alexandre Dumas, o famoso autor d’ Os Três Mosqueteiros, escreveu que “Napoleão só falava o idioma da sua ilha natal.” Educado em Ajaccio até aos 9 anos, o futuro imperador, na infância, comunicava em corso e italiano. A partir do momento em que vai para a academia militar de Brienne-le-Château, no Norte da França, em 1778, teve de aprender a exprimir-se na língua de Molière.

Mito 3
Era semianalfabeto
Na adolescência, em França, começou a ler os autores clássicos, incluindo Plutarco e Aristóteles. Aos 26 anos, quando já era general, ele próprio escreveu um (mau) romance (Clisson et Eugénie) e, ao longo da sua vida, foi um admirador de ópera (a sua obra favorita era Nina, do italiano Giovanni Paisiello).

Mito 4
Tinha baixa estatura
Os soldados ingleses e a propaganda britânica tratavam-no por “little Boney”, mas Napoleão era mais alto do que a maioria dos homens do seu tempo: 1,68 metros. O facto de a sua guarda imperial ser constituída por indivíduos com mais de 1,80 metros também não o favorecia.

Mito 5
Um génio militar
O prussiano Carl von Clausewitz chamou-lhe “Deus da guerra”, e a verdade é que a estratégia e as batalhas napoleónicas continuam a ser estudadas em todas as academias militares do mundo. No entanto, o corso que admirava Temístocles, o general ateniense do século V a.C., não era imbatível – como se viu em Waterloo, com o imperador a subestimar as capacidades de Arthur Wellesley, futuro duque de Wellington.

Mito 6
Defensor do feminismo
Napoleão era um mulherengo e nunca o escondeu. Em 1804, o seu aclamado Código Civil retirou ao sexo feminino um direito que as mulheres tinham conquistado com a Revolução Francesa, 15 anos antes: o divórcio por mútuo consentimento.

Mito 7
Pioneiro ambiental
A 15 de outubro de 1810, Napoleão assinou um decreto imperial contra a poluição industrial e a impor regras para a instalação de unidades fabris longe de áreas habitacionais. Tal medida não o torna um ambientalista, da mesma forma que não lhe chamam vegetariano por ter abdicado de comer carnes vermelhas (uma opção resultante das carnificinas que presenciou).

Mito 8
Inventou a egiptologia
As campanhas de Napoleão no Egito (1798-1799) acabariam por conduzir a um renovado interesse, na Europa, pelo país e pela cultura dos faraós. Só que os seus interesses não eram culturais nem históricos: a missão era reforçar a presença francesa no Médio Oriente e dificultar o acesso dos britânicos à Índia.

Mito 9
Morreu envenenado
Após cinco anos desterrado na ilha de Santa Helena, no Atlântico sul, faleceu a 5 de maio de 1821. De cancro no estômago, segundo o médico pessoal – uma doença que vitimou também o pai de Napoleão.

Mito 10
Leilão post mortem
Após passar quase 20 anos enterrado em Santa Helena, os seus restos mortais foram transladados, em 1840, para o Palácio dos Inválidos, um dos monumentos mais visitados de Paris. Mas há quem acredite que o imperador fugiu do exílio, com a ajuda do general Gaspard Gourgaud, após lhe terem encontrado um sósia chamado François Robeaud. Nesse caso, também cairá por terra a tese de que os britânicos extirparam o pénis ao cadáver de Napoleão, membro que terá sido leiloado e adquirido por um urologista norte-americano, em 1999.

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