O país preparava-se para ter um ano em grande. Mais que tudo, porque ia acolher novamente os Jogos Olímpicos, este verão. A tocha ainda chegou, em meados de março. Mas, com a pandemia, o maior e mais importante evento desportivo do mundo acabou por ser adiado.
Em vez disso, e com os casos crescentes de Covid-19, foi decretado estado de emergência em todo o país. Ao mesmo tempo, era oficialmente anunciado que estavam em recessão. Em vez de saírem à rua em celebração pelo que aí vinha, os japoneses viram-se dentro de portas, num recolhimento voluntário. Tudo para, seguindo a sua cultura, não causarem transtorno a outros. Agora até já se preparam para desconfinar – mas a culpa e a vergonha, essas, acompanham-nos sempre. Sobretudo aos que adoeceram. Então se for alguém famoso, o pedido de perdão é quase uma obrigação moral – e transforma-se num verdadeiro momento mediático.
É o que Daisuke Onuki, professor do Departamento de Estudos Internacionais da Universidade Tokai, em Tóquio, tem estado a analisar, ao detalhe. “Acabou por se tornar comum que alguém conhecido expresse as suas desculpas publicamente, porque se subentende que esse facto pode provocar algum incómodo ou transtorno à vida de outros. E isso na cultura japonesa é inconcebível”, segue Onoki, citado pela BBC. “É mesmo muito importante seguir essa regra para sobreviver neste país. É completamente proibitivo causar meiwaku – a palavra japonesa para transtorno ou incómodo – expondo outras pessoas a situações indesejáveis ou que lhes provoca ansiedade”, remata. Depois de explicar ainda que uma das virtudes mais valorizadas pelos japonses é a capacidade de adivinhar o que os outros desejam. “Desde a infância que somos treinados a prestar atenção à maneira como os outros se sentem”.
“Pelo transtorno que possa ter causado”
Veja-se o que aconteceu recentemente ao ator Junichi Ishida, de 66 anos, que se tornou um alvo dos defensores da vergonha moral. De visita à conhecida ilha de Okinawa em meados de abril, Ishida sentiu-se mal. Quando regressou a Tóquio, suspeitou de pneumonia e acabou por ser hospitalizado. O diagnóstico? Covid-19 – e o ator não perdeu tempo a escrever uma carta com um pedido de desculpas público. “Pelo transtorno que possa ter causado”, justificou. O pior? Nem assim deixou de estar debaixo da crítica feroz. Nem os fãs lhe deram descanso.
Num ápice, o público exigiu saber ao detalhe o roteiro da sua viagem a Okinawa, acusando-o de ter sido um irresponsável por ter saído da cidade quando havia recomendações para um isolamento voluntário. Mas não se julgue que a viagem significa que furou as medidas oficiais – mesmo em estado de emergência não foi decretado recolhimento obrigatório. “Não houve força policial nas ruas, nem multas nem penas de prisão. O que manteve as pessoas em casa foi a pressão social”, explica Onuki.
Mas Ishida não foi caso único. O popular pivot de um telejornal no país, Yuta Tomikawa, ignorou mesmo uns sintomas leves e, quando se confirmou que era Covid-19, acabou também por ter de se desculpar publicamente. Aliás, mal se soube que o resultado do teste era positivo, os responsáveis da estação apressaram-se a anunciar medidas extra para evitar a propagação do coronavírus.
Dois dias depois, o pedido de desculpas público enviado pelo apresentador era lido em horário nobre. Mas nem isso aliviou o peso das críticas, sobretudo depois de se saber que havia mais dois casos na mesma estação.
Papel fundamental na cultura japonesa
Sosuke Miyamoto, investigador do Departamento de Psicologia da Universidade Meiji Gakuin, em Tóquio, enfatiza mesmo o papel fundamental do conceito de meiwaku na cultura do seu país. “Mesmo sem danos, só o facto de ter provocado um efeito de desconforto ou preocupação extra a outros já requer um pedido de desculpas.”
Depois, com o efeito tão avassalador da Covid-19, o peso da culpa tornou-se ainda maior. Como é uma doença altamente contagiosa, há sempre mais pessoas afetadas e tanto família, como colegas de trabalho e outros que tenham estado em contato com o infetado vêm-se obrigados a entrar em quarentena.
Era exatamente isso que Gotuku Sakai, um futebolista de 29 anos, temia quando soube que testara positivo para a Covid-19. A sua preocupação, sublinha Onuki, era saber se tinha infetado algum dos colegas de equipa. O anúncio foi feito na página oficial do Vissel Kobe, o clube em que joga atualmente. E o comunicado incluía, claro, um pedido de desculpas do jogador por qualquer transtorno que o facto possa ter causado.
“Acredito que todos estão a tomar as precauções necessárias. Considero que, eu próprio fui o mais profissional possível, evitando aglomerações e sendo cuidadoso nos meus atos. No entanto, acabei por ficar infetado e sinto-me incomodado por isso. Muito.”