Está mais do que confirmado e reconfirmado: o líder dos talibã afegãos, mulá Akhtar Mansour, foi morto, no sábado, por um drone (veículo aéreo não tribulado) norte-americano em território paquistanês. Primeiro foram os serviços secretos afegãos a anunciar o que, mais tarde, os Estados Unidos o confirmariam ao mais alto nível. Depois de negarem a notícia, os próprios talibã acabariam por admitir a morte do líder, através de declarações do seu porta-voz à Agência France Press.
O presidente dos Estados, Barak Obama, considerou o assassinato seletivo de Mansour como um “marco histórico importante”.
Na perspetiva da Casa Branca, a morte de Mansour removeu uma pedra do caminho para um acordo de paz entre os rebeldes talibã e o Governo afegão apoiado pelos Estados Unidos. Contudo, a equação poderá não ser assim tão linear. E isso por várias razões.
Para já, o facto de se ter eliminado um dirigente rebelde, implica que outro irá tomar o seu lugar. E esse poderá ser tentado a querer vingar a morte do antecessor. Sobretudo se se tratar de um dos seus seguidores. E na linha de sucessão estão vários. Assim, o mais provável, é a pedra não ter sido removida, apenas trocada por outra.
Sobre os principais candidatos não consta que algum deles esteja com muita vontade de se sentar à mesa das negociações com o Governo de Cabul.
O melhor posicionado parece ser Sirajuddin Haqqani, líder de uma fação, a rede Haqqani, tida como a responsável pelos atentados mais mortíferos ocorridos no Afeganistão na última década, incluindo os que no em abril fizeram 64 mortos em Cabul. Tido pelo FBI como um terrorista global com ligações à Al Qaeda, o Departamento de Estado norte-americano oferece um prémio de cinco milhões de dólares (€4,5 milhões) pela sua “cabeça”.
Pedigree de violento
Ainda para mais, Haqqani tem pedigree. Tido como um guerrilheiro feroz, é filho de Jalaluddin Haqqani, um líder histórico dos mujahideen que combateu os soviéticos, na sequência da invasão Afeganistão em 1979. O ex-congressista Charlie Wilson ter-lhe-á mesmo chamado a “personificação da bondade”. Em plena Guerra Fria, Jalaluddin era estimado nos EUA ao ponto de ter visitado a Casa Branca, durante a presidência de Ronald Reagan.
Quando Mansour assumiu o comando dos talibã, como emir, em julho do ano passado, nomeou Sirajuddin Haqqani como um dos seus dois adjuntos.. Outro dos potenciais candidatos, poderá ser o também adjunto Haibatullah Akhundzada, líder religioso.
Além deste dois há também um irmão e um filho do mulá Omar. Este último foi, no entanto, considerado demasiado jovem e inexperiente em julho de 2015, quando Mansour substituiu Omar (cuja morte os talibã conseguiram manter secreta durante dois anos).
De grande significado estratégico, o assassinato de Mansour autorizado por Barak Obama releva, segundo analistas, alterações nas dinâmicas de conflito e intriga no Paquistão e no Afeganistão. O governo paquistanês reagiu com azedume ao ataque norte-americano perpetrado dentro das suas fronteiras, acusando os Estados Unidos de violação da soberania.
Não quer isso dizer que os EUA não tenham efetuado por várias vezes operações idênticas em território paquistanês. Mas a área habitual desses ataques, lembra Kim Sengupta, no The Independent, tem sido o Waziristão, tendo como alvos sobretudo a Al Qaeda e combatentes estrangeiros. Desta vez, o território foi o Baluchistão paquistanês, onde se crê estar sedeado o estado-maior talibã. E o alvo foi o dirigente de máximo do movimento.
Na intriga geopolítica e militar da região, onde não cabem conceitos maniqueístas e onde não existe branco nem preto, mas apenas várias matizes de cinzento, o mulá Mansour terá sido apadrinhado pela polícia secreta paquistanesa e apoiado na luta intestina pela liderança dos talibã que se seguiu à morte de mulá Omar, ocorrida dois anos antes de ter sido admitida pelo movimento.
Ora é sabido que tanto a secreta paquistanesa como os militares do Paquistão têm exercido algum ascendente sobre os talibã.
Neste teatro de sombras, a posição assumida pelo Paquistão, que partilha com o Afeganistão uma extensa e porosa fronteira, tem sido a de tentar levar os talibãs para a mesa das negociações, evitando que mergulhem ainda mais na clandestinidade. E durante algum tempo, os paquistaneses até convenceram Washington dessa abordagem. Segundo Sengupta, isso levou a que nos últimos anos não tivessem sido desencadeados ataques diretos dos norte-americanos contra a liderança talibã.
O que terá incomodado os EUA foi a aliança estabelecida, já sob a liderança de Mansour, entre os talibã e a Al Qaeda no Afeganistão, onde também o autoproclamado Estado Islâmico tem estado bastante ativo, embora antagonizando com as outras duas estruturas terroristas.
Com efeito, a atividade terrorista no Afeganistão intensificou-se desde que Mansour assumiu a direção dos talibã, pelo que em Washington, começou a ser considerado um obstáculo à paz.
Ora, essa intensificação não teve apenas origem no vigor da liderança de Mansour. Ela resultou em grande medida do erro estratégico do Ocidente, cujas tropas de combate saíram do país em 2014. Nessa altura a guerra encontrava-se numa situação que no xadrez se designa de “empate por afogamento” (o xadrezista não consegue fazer nenhuma jogada válida nem o seu rei está em xeque). No terreno ficaram apenas formadores e consultores para as forças militares e de segurança afegãs. E isso, embora não tenha reforçado os talibã dando-lhes capacidade para a tomada de Cabul, deu-lhes uma maior margem de manobra e retirou-lhes grande parte da pressão militar que poderia te-los feito sentar à mesa das negociações.
A morte de Mansour poderá enfraquecer os que o apoiavam no mundo da sombria geopolítica regional paquistanesa. Pode até ter lançado o movimento terrorista numa facciosa guerra interna pela liderança. Mas será diminuto o seu contributo para terminar um conflito e trazer uma paz duradoura a um país onde as chacinas já se tornaram uma rotina quotidiana.