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Filipe Luís

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Editor Executivo

Contas certas e cheques em branco

Legislativas 2019

Filipe Luís

Nuno Fox / Lusa

Os sapos engolidos nesta legislatura deram credibilidade a um Bloco que deixou de ser “o partido Peter Pan” e começou a "crescer". O que vimos, no debate, foi uma Catarina “ministeriável”. Ou foi isso que ela pretendeu que nós víssemos. Mas nada disto deve ter impressionado António Costa...

Foi preciso esperar pelo fim para percebermos o princípio de uma próxima geringonça. Na sua declaração final, neste curioso debate entre António Costa e Catarina Martins, travado com punhos de rendas e subtileza, sem sangue, mas com cirúrgicas agulhadas de acupuntura, a coordenadora do Bloco de Esquerda, declarou-se disponível para novos acordos com o PS, mas “sem cheques em branco, como até agora”.

Todo um desabafo e toda uma ameaça: o caderno de encargos do Bloco, para a próxima, será mais exigente. E a fatura mais pesada. De uma certa forma, com isto, ao mesmo tempo que agrada ao seu eleitorado mais à esquerda, Catarina pode ter negligenciado o flanco direito, onde procura pescar.

O debate entre Costa e Catarina Martins era o mais importante desta série de confrontos televisivos entre os líderes políticos. Pela contabilidade do método eleitoral de Hondt, com uma eventual dispersão de votos pelos pequenos e um 2.º classificado (no caso, o PSD) na casa dos 20%, será mais fácil a um PS, destacado, em primeiro, conseguir uma maioria absoluta, em número de deputados eleitos. Provavelmente, nem precisa de chegar aos 40% dos votos. É por isso que não é o eleitorado fixo nos partidos à direita que pode retirar a maioria ao PS – mas o eleitorado flutuante mais à esquerda, se se sentir atraído pela sedução do Bloco, partido que, ao contrário da CDU, se mostra em crescendo, nas sondagens. Por outras palavras, é o BE que pode impedir a maioria do PS.

Sabendo isso, e sabendo que o seu habitual eleitorado deve estar garantido, Catarina Martins tem feito um exercício de moderação e de responsabilidade que pode agradar aos votantes de esquerda mais amigos da estabilidade. “Estabilidade”, ora aí está uma palavra, e um conceito, que Catarina Martins usou logo na primeira declaração. O outro, foi o de “contas certas”: a bloquista carregou na tecla das contas certas uma boa dúzia de vezes – e até atirou à cara de António Costa as contas internas bastante incertas do PS: “Essas coisas começam em casa...”, disse, assumindo o empertigamento de uma mestre-escola a admoestar o aluno cábula em aritmética...

O problema é o de saber quantos eleitores a mais o Bloco consegue convencer, vestido com esta roupagem institucional, imune a provocações, séria, responsável e “social-democrata”. Tem a seu crédito uma legislatura inteira a engolir sapos – e nem sequer se pode queixar dos cheques em branco: as posições conjuntas foram assinadas e estava lá o que o Bloco queria ver cumprido. O próprio BE reivindica para si uma boa parte dos “sucessos” da geringonça, quase como se estivesse estado no governo. E tudo isso dá credibilidade a esta postura de quem deixou de ser “o partido Peter Pan” e começou a crescer. O que vimos foi uma Catarina “ministeriável”. Ou foi isso que ela, sabiamente, reconheça-se, pretendeu que nós víssemos.

Nada disto deve ter impressionado António Costa, que, atacando muito menos do que seria de esperar para quem enfrentava o seu momentâneo principal adversário, preferiu a postura de bonomia de estadista – e de ocupante da pole position nesta grelha de partida. Sem arriscar um milímetro e evitando ofender suscetibilidades– até na comparação com a situação de Espanha e com a instabilidade provocada pelo Podemos foi bastante mais comedido do que na entrevista ao Expresso... – Costa lá foi controlando o debate – e alguns danos, como o da mal explicada promessa de aumentos na função pública ou o do dossiê das carreiras especiais da administração pública. Em pontos como estes, Catarina mordeu um pouco, mas Costa também soube, com habilidade, desmontar as “prendas de Natal” do programa do Bloco, citando os “mais de 27 mil milhões que elas custariam” e arrebatando a plateia com a tonitruante declaração, deliberadamente colocada na primeira pessoa do singular: “Eu não vou gastar 10 mil milhões do dinheiro dos portugueses para nacionalizar a Galp! Para quê?»

Gastou quase tanto a ajudar a banca, quis lembrar Catarina Martins, mas já era tarde. No final do debate, à pergunta do moderador António José Teixeira sobre qual será o primeiro telefonema de cada um dos seus convidados na noite eleitoral, António Costa mostrou-se algo divertido. Pudera: ele é o único líder que, face aos resultados, e sejam eles quais forem, estará em posição de telefonar a qualquer dos outros.

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