Combustíveis: Como a discórdia na OPEP está a levar a máximos na bomba

Subida vertiginosa O preço do petróleo disparou mais de 50% desde o início do ano e aproxima–se da marca dos 80 dólares

A discórdia entre os grandes produtores de petróleo sobre aumentos de produção está a refletir-se, e de que maneira, no bolso de quem precisa de ir à bomba de gasolina abastecer. O preço dos combustíveis disparou para os valores mais altos dos últimos nove anos e os consumidores portugueses são dos que mais sofrem com essa fatura, devido à elevada carga fiscal.

Desde o arranque do ano até ao início desta semana, o preço de venda ao público da gasolina 95 aumentou 17% para mais de 1,71 euros por litro e o do gasóleo 15% para mais de 1,51 euros, segundo dados da Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG). Essas subidas foram motivadas pela valorização em flecha da cotação do petróleo. O barril de Brent, que serve de referência para o mercado nacional, acumula já subidas de 50% em 2021. Negociava esta terça-feira em 77 dólares, o valor mais alto desde outubro de 2018. Isto depois de ter atingido um mínimo de pouco mais de 20 dólares em março do ano passado. 

Um dos principais motivos para esta escalada tem sido a falta de acordo no seio da OPEP+ – que agrupa os 13 países membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo e outros dez aliados como a Rússia – para aumentarem a produção de forma coordenada. No ano passado, com o mundo paralisado devido aos confinamentos, o preço do petróleo tinha caído a pique. Nessa altura, para defenderem a cotação do ouro negro, os grandes produtores decidiram fazer cortes extraordinários e agressivos de produção. Este ano os países produtores já aumentaram gradualmente a produção, mas agora não se entendem sobre um novo aumento da oferta, o que pode levar a uma escassez da matéria-prima numa fase em que a economia mundial tenta ligar os motores para voltar a acelerar. Havendo mais procura e não havendo mais oferta, os preços sobem.

Após várias tentativas, a reunião da OPEP+ foi cancelada no início da semana, devido à ausência de acordo. Em cima da mesa estava a produção de mais dois milhões de barris por dia a partir de agosto, mas os Emirados Árabes Unidos impediram um acordo. As conversações continuarão a decorrer, mas não há data para nova reunião e isso lança incerteza no mercado sobre a evolução dos preços. “Se, por um lado, é expectável um aumento da procura, face às expectativas de crescimento económico, pouco sabemos como se vai comportar a oferta, já que decorrem negociações da OPEP sem que tenha havido acordo até ao momento relativamente ao eventual aumento de produção”, realçou João Reis, porta-voz da Apetro, a associação portuguesa de empresas petrolíferas, à VISÃO.

Os analistas avisam que as subidas podem ainda não ter terminado. Jean-Pierre Durante, da gestora Pictet, refere que “sem um forte compromisso [por parte dos produtores] para corresponder ao aumento esperado da procura de três milhões de barris por dia no segundo semestre, os preços do petróleo irão provavelmente testar os 85 dólares”. Mas, numa nota de investimento a que a VISÃO teve acesso, o especialista realça que o preço alto do ouro negro poderá estimular os produtores fora da OPEP a acelerar a produção. Além disso, o cartel tem um histórico de pouca disciplina quando há dificuldades para acordar metas. No passado, sucederam-se os casos de países da OPEP que aumentaram a produção por sua própria iniciativa de forma a defenderem as suas quotas de mercado. Assim, a estimativa de Jean-Pierre Durante é que após este pico no verão o preço do ouro negro abrande para 72 dólares até ao final do ano e para 65 dólares em 2022.

Carga fiscal
A subida dos preços dos combustíveis pode ser uma dor de cabeça numa fase em que a economia global tenta recuperar o terreno perdido durante os confinamentos. Em Portugal, as empresas e famílias têm de suportar dos preços mais altos na União Europeia. O preço da gasolina é o terceiro mais alto da UE e o do gasóleo fica na sexta posição. Isso deve-se sobretudo à componente fiscal.

Os dados mais recentes da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos mostram que, no final de maio, quando o preço da gasolina simples 95 era de 1,639 euros por litro, 59,4% do custo era referente a impostos e 2,5% devia-se à incorporação de biocombustíveis. Já a cotação e frete representava 25,2% do preço na bomba, a margem de comercialização era de 12,5% e o custo de logística e reservas pesava 0,4%. No gasóleo, os impostos eram responsáveis por 54,3% do preço final, a cotação e frete por 27,3% e a margem de comercialização era de 15,8%.

João Reis considera que os valores das margens se têm mantido sem grandes oscilações e que “a única possibilidade de mitigar o efeito desta subida dos combustíveis seria através da redução da carga fiscal”. O líder do PSD, Rui Rio, criticou esta semana o Governo por ter feito um aumento da carga fiscal via combustíveis, que resultou em preços elevados. E considerou que isso aconteceu por razões orçamentais e não por preocupações com o clima. O CDS-PP também apelou ao executivo para que alivie a carga fiscal sobre os combustíveis e o PCP propôs a fixação de preços máximos. Questionado pela VISÃO sobre se estaria a estudar alguma forma de mitigar o impacto da subida do preço dos combustíveis, o Ministério das Finanças não respondeu até ao fecho desta edição.

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