Milionários à dose: Como o negócio das vacinas está a enriquecer empresários e investidores

Até ao início deste mês, praticamente 600 milhões de pessoas em todo o mundo tinham arregaçado as mangas para receber, pelo menos, uma dose de vacina contra a Covid-19. A cada mililitro injetado, cresce a esperança de um fim rápido para a maior – até ver – crise sanitária das últimas décadas. Mas o movimento dos êmbolos dentro das seringas, repetido à exaustão, também faz aumentar o volume de muitos bolsos pelo mundo.

Os benefícios, em forma de receitas e lucros, parecem chegar a toda a cadeia de valor das vacinas: a fabricantes, subcontratados e fornecedores, até mesmo aos que se comprometeram a produzir a vacina sem o primeiro intuito de lucrar; a acionistas de oportunidade ou a investidores de primeira hora, que aproveitaram as altas na bolsa para vender as suas participações; e a administradores e executivos, que beneficiam de uma tendência de aumentos de remuneração e bónus num setor apetecível como o da biotecnologia, que ganhou 63% em bolsa no ano passado.

Tempo comprimido Biotecnológicas e farmacêuticas desenvolveram, em meses, vacinas que demorariam seis a sete anos a criar

Depois de um 2020 residual em termos de vendas de vacinas contra o novo coronavírus, já que as autorizações para o seu uso só começaram a chegar em força este ano, o primeiro trimestre de 2021 foi um vislumbre do peso que o negócio pode vir a ter. Nesse período, AstraZeneca, Johnson & Johnson e Pfizer arrecadaram 3,2 mil milhões de euros com as suas fórmulas. A vacina Comirnaty foi responsável por um quarto de todas as vendas da Pfizer, que antecipa um maior peso futuro nas contas. “Com base no que vimos, acreditamos que é provável uma procura duradoura pela nossa vacina Covid-19, semelhante à registada pelas vacinas contra a gripe”, disse o CEO da Pfizer, Albert Bourla.

Contas feitas, até ao fim deste ano, Moderna, Pfizer e BioNTech esperam ir buscar, em conjunto, qualquer coisa como 47 mil milhões de euros à venda de vacinas. A puxar por estes resultados estão as encomendas de milhares de milhões de doses feitas pelos governos, sobretudo nos EUA e na União Europeia, que querem acelerar a imunização até ao final do verão e se envolveram nos esforços iniciais de descoberta de soluções para a crise. No caso da Moderna, o Governo norte-americano disponibilizou até 955 milhões de dólares (794 milhões de euros à cotação atual) de financiamento; a BioNTech, parceira da Pfizer, recebeu 375 milhões de euros do Governo alemão para o mesmo fim.

CEO e acionistas a ganhar
Quem parece continuar a colher bons ventos são as lideranças. Pelo que é possível apurar a partir dos relatórios e contas dos fabricantes das quatro vacinas aprovadas nos EUA ou na União Europeia, os seus presidentes executivos (CEO) ganharam, no ano passado, 87 milhões de euros em salários, bónus e opções de compra de ações. Os pagamentos a executivos já vinham a crescer nos últimos anos (no caso da AstraZeneca, a remuneração total do CEO, incluindo bónus e outros incentivos, quase duplicou em cinco anos), e 2020 prolongou a tendência. Mais 19 milhões de euros (aumento de 28%) entraram nos bolsos dos presidentes da Pfizer, Johnson & Johnson, AstraZeneca, BioNTech e Moderna, sobretudo nestas duas últimas. O vencimento de Uğur Şahin, líder da alemã parceira da Pfizer, mais do que duplicou, enquanto Stéphane Bancel, presidente executivo da Moderna, viu o pagamento subir mais de 40 por cento.

Ambas as biotecnológicas têm razões para sorrir e fazer sorrir no meio desta pandemia. Desde o início de 2020, o entusiasmo à volta da norte-americana e da germânica, que desenvolveram a vacina a partir do método revolucionário do RNA mensageiro e foram das primeiras a ter autorização para o uso das vacinas, levou as ações a níveis estratosféricos, multiplicando por nove o preço dos títulos da Moderna e por quatro os da BioNTech. Os ganhos, tal como nas restantes fabricantes, foram-se evidenciando nos últimos meses, a cada etapa vencida no desenvolvimento do medicamento em tempo recorde.

Pelo caminho, além de ter robustecido as posições de acionistas de referência como as gestoras de investimentos Vanguard Group, BlackRock ou State Street Corporation, este percurso fez nascer novos milionários e consolidou outros. Albert Bourla, CEO da Pfizer, aproveitou um dia de fortes valorizações para vender 60% da sua participação; a Flagship Pioneering, de Noubar Afeyan, cofundador da Moderna, vendeu mais de 1,2 mil milhões de euros de ações desde que foi declarada a pandemia. A norte-americana tem sido pródiga em vendas entre os executivos: o seu CEO despejou no mercado mais de 124 milhões de euros em ações desde o início da crise e o administrador que supervisiona o desenvolvimento clínico dentro da empresa desfez-se de praticamente toda a participação – quase 90 milhões de euros. As vendas de executivos ligados a empresas produtoras de vacinas (incluindo a Pfizer e a Novavax) significaram mais 400 milhões de dólares em ações, num total de 1,9 mil milhões de dólares.

Mas há também quem tenha conservado posições. Robert Langer, cofundador da Moderna, nunca vendeu os seus títulos, avaliados em 1,7 mil milhões de euros, tal como Uğur Şahin, CEO da BioNTech, que conserva uma fatia de 17,25% nesta firma (ver retratos dos milionários nestas páginas). Uma pequena amostra, já que pelas contas da Forbes houve, pelo menos, 40 multimilionários com ligações à área da Saúde a beneficiarem da crise.

Uma questão de patentes

Aumenta a pressão internacional para suspensão temporária das patentes das vacinas contra a Covid-19. Indústria teme abertura de precedente que ponha em causa receitas e investimento. Vacinação mais rápida e barata é o argumento do outro lado

A gravidade da situação na Índia, onde a Covid-19 já atingiu mais de 20 milhões de pessoas e matou mais de 222 mil, renovou a insistência numa solução que, a pretexto de acelerar a vacinação, pode cortar receitas e lucros aos grandes fabricantes de vacinas. Depois de 170 antigos governantes e prémios Nobel terem pedido em carta aberta ao Presidente norte-americano que aceite diminuir a proteção das patentes e da propriedade intelectual das vacinas, a pressão sobre os EUA, tal como sobre o bloco europeu e o Governo britânico, continua.

Esperava-se que, nesta quarta e quinta-feira (já após o fecho desta edição), fosse levada à reunião do conselho geral da Organização Mundial do Comércio a proposta para suspender a proteção de algumas das patentes e segredos comerciais associados às vacinas contra o coronavírus, o que permitiria produzir ou importar “cópias baratas” e acelerar a vacinação ao nível global. No início da semana, o New York Times mostrava uma Casa Branca dividida e pressionada à esquerda, para escolher entre ficar ao lado das farmacêuticas e proteger as fórmulas das vacinas, ou aceitar abrir a caixa de Pandora de segredos comerciais para potencialmente permitir a sua rápida produção e disseminação global.

Alguns especialistas em propriedade intelectual envolvidos no debate dizem que não há provas de que a patente seja uma barreira ao desenvolvimento. E que partilhar uma fórmula para permitir produtos mais baratos pode matar o espírito empreendedor e a inovação e desencorajar investidores de colocar dinheiro nas empresas. Além disso, argumentam, a capacidade existente de produção das vacinas já está a ser usada ao limite. Como alternativa, apontam a possibilidade de o Governo norte-americano pressionar os fabricantes para doarem vacinas em grande escala (a Pfizer já prometeu entrega grátis de vacinas à Índia) ou venderem-nas a preço de custo (como a AstraZeneca e a Johnson & Johnson admitiram).

Já a indústria, que receia a abertura de um precedente que afete a sua rentabilidade no futuro, defende que a fórmula da vacina é apenas uma pequena parte de um processo complexo de produção e que preferia ver resolvidos os constrangimentos no acesso às matérias-primas e na distribuição local destes medicamentos.

Numa fase em que as vacinas são distribuídas sobretudo às nações mais ricas e desenvolvidas do mundo por uma mão-cheia de farmacêuticas e biotecnológicas, várias ONG defendem a possibilidade de os países mais pobres produzirem versões de combate às suas próprias variantes, aumentando a produção e equidade na distribuição e fazendo – dizem – baixar os preços.

“Ninguém está a dizer que não devem tirar qualquer lucro da pandemia. Estas empresas estão a fazer muito dinheiro com produtos que serão dos mais vendidos do mundo. Permitir que outros usem a propriedade intelectual não quer dizer que deixem de ganhar; significa que deixam de ter o monopólio. O monopólio é impróprio numa pandemia”, dizia recentemente James Love, da ONG Kowledge Ecology International, à Deutsche Welle.

Os cinco maiores fabricantes de vacinas (incluindo a Sputnik V) representam cerca de 90% do total de vacinas produzido à escala global. Segundo a People’s Vaccine Alliance, uma coligação de ONG, três fabricantes – Pfizer, Johnson & Johnson e AstraZeneca – reservaram, nos últimos 12 meses, um conjunto de cerca de 22 mil milhões de euros para pagamento de dividendos e recompra de ações, que a organização diz que deveriam ser usados para vacinar mais pessoas.

Os benefícios não se ficam pelos que já obtiveram autorizações para distribuir as suas vacinas. Mesmo que ainda não tenham ou não venham sequer a ter produto próprio, fabricantes mundiais como a Merck e a Sanofi tornaram-se para já fornecedores de matéria-prima ou de capacidade de produção para outros com soluções mais avançadas, como a Pfizer/BioNTech, a CureVac ou a Johnson & Johnson. A criadora da vacina Janssen, que anunciou pretender fazer parcerias com um total de dez fábricas até ao fim deste ano, já tinha acordos com cinco fabricantes em março.

País à procura de um lugar
Em Portugal, também se espreita pela porta das possíveis parcerias, mas ainda sem nada em concreto. A Apifarma disse recentemente ao Expresso que a produção destas vacinas exige capacidades e operadores altamente especializados, que escasseiam no País. Entretanto, a fabricante Hikma, em Sintra, foi apontada como podendo ajudar à produção da russa Sputnik V, enquanto a espanhola Zendal começou a construir uma fábrica em Paredes de Coura. Esta, que só estará concluída num pós-Covid-19, deverá vir a tempo de ajudar a Europa a superar as fragilidades identificadas pela pandemia em matéria de produção de vacinas.

E é a julgar pelo que ainda falta fazer que há razões para crer que o crescimento do negócio das vacinas anti-Covid vai continuar. As sucessivas variantes do novo coronavírus puseram os laboratórios a procurar novas vacinas, possivelmente universais, além de soluções alternativas de administração, através de pensos e comprimidos. Na UE, enquanto se tenta dissipar os receios em torno das vacinas da AstraZeneca e da Janssen, há a expectativa de autorizações para uso de novas soluções, como a russa Sputnik V ou as europeias CureVac e Sanofi/GSK. E quatro dos maiores fabricantes esperam ter uma capacidade de produção combinada, este ano, de até 8,5 mil milhões de doses – embora ainda só tenham sido produzidas 1,2 mil milhões de vacinas e esteja por inocular mais de 90% da população mundial. Sinais que antecipam que, nos próximos meses, enquanto o vírus se mantiver ativo, as mangas arregaçadas de uns continuarão a ser os bolsos confortáveis de outros.

Fortunas na ponta da agulha

Os últimos meses consolidaram ou fizeram nascer novos multimilionários. E o efeito das vacinas nas contas de farmacêuticas e biotecnológicas ainda está no início

Albert Bourla
59 anos, CEO da Pfizer
Em novembro passado, no dia em que foi conhecida a eficácia da vacina, as ações dispararam 15% em bolsa e Bourla vendeu 4,6 milhões de euros em títulos, cerca de 60% da sua participação. Em 2020 recebeu 17,4 milhões de euros de remuneração, mais 17% do que no ano anterior.
O Vanguard Group, a Blackrock e a State Street Corporation surgiam como maiores acionistas da Pfizer no final de 2020.

Noubar Afeyan
58 anos, chairman da Moderna
O arménio-americano controla a Flagship Pioneering, principal acionista da biotecnológica, que vendeu mais de 1,2 mil milhões de euros de ações desde que foi declarada a pandemia. A posição de Afeyan está avaliada em 4 mil milhões de euros.

Stéphane Bancel
48 anos, CEO da Moderna
Em 2020, recebeu 10,7 milhões de euros em remunerações (a maior parte direitos de compra de ações), valor bastante abaixo dos 48,6 milhões de euros recebidos dois anos antes, quando a empresa foi para a bolsa. Vendeu mais de 124 milhões de euros em ações desde o início da pandemia e tem agora 7,9% – equivalente a 4,7 mil milhões de euros.

Robert Langer
72 anos, administrador da Moderna
Tem 2,9% da empresa, que ajudou a fundar. A participação, que nunca vendeu, está avaliada em 1,7 mil milhões de euros. O mesmo não se pode dizer de outro administrador, Tal Zaks, que ao longo de semanas se foi desfazendo dos milhares de ações – quase 90 milhões de euros – que juntou ao longo de cerca de seis anos. Em setembro deixa a administração.

Uğur Şahin
55 anos, CEO da BioNTech
Através da Medine GmbH, o cofundador detém 17,25% da empresa, avaliados em 6,6 mil milhões de euros e ainda não vendeu nenhum dos seus títulos. Em 2020 levou para casa 16,5 milhões de euros em remunerações, mais do dobro de 2019. O maior acionista é o family office alemão Athos, dos gémeos Strüngmann, com 47,4% da empresa no final de 2020, posição que hoje vale 22 mil milhões de euros.

Alex Gorsky
60 anos, CEO da Johnson & Johnson
Há cerca de nove anos à frente da fabricante da Janssen, o presidente executivo recebeu em 2020 um aumento de 16,6%, para cerca de 25 milhões de euros, quase metade em ações. A sua participação na empresa está avaliada em 65 milhões de euros, depois de as ações terem subido 12% desde o início de 2020.

Pascal Soriot
61 anos, CEO da AstraZeneca
O executivo francês viu, no ano da pandemia, a sua remuneração subir apenas 1%, para quase 18 milhões de euros, à boleia de um bónus de 2,7 milhões e de incentivos de longo prazo. A sua participação na empresa, com ações avaliadas em 32 milhões de euros, beneficiou da alta no preço dos títulos em bolsa durante 2020.

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