Credit Suisse: Horta Osório, o salvador português

Lloyds O banqueiro português liderava o banco britânico desde 2011. Agora, muda-se para a Suíça e preside um dos maiores bancos do mundo FOTO: TM

Se estivesse a disputar uma partida de ténis, o Credit Suisse seria muito provavelmente um jogador sob forte pressão, depois de ter perdido vários serviços, devido a erros não forçados. Agora, os acionistas do banco suíço depositam quase todas as esperanças em António Horta Osório. Esperam que o banqueiro português, que assumiu o cargo de chairman no início de maio, tenha a frieza, a inteligência e a estratégia acertadas para evitar que o banco venha a perder o set ou, pior, seja confrontado com a necessidade de ter de salvar um match point para não sair derrotado da partida.

Quem já dividiu os courts com o banqueiro de 57 anos garante que Horta Osório é um jogador exímio. “Foi uma demonstração perfeita de todas as qualidades que se esperaria de um chefe executivo da banca – astúcia, aversão ao risco e determinação em vencer”, escreveu Patrick Jenkins, editor do Financial Times, após uma partida, em 2012, contra o então líder do Lloyds.

Essas qualidades permitiram-lhe cumprir, com sucesso, a difícil tarefa de impedir a queda do maior banco de retalho do Reino Unido. Foram vários match points que tiveram de ser salvos, já que a crise do subprime ameaçou a sobrevivência do banco e obrigou os contribuintes britânicos a injetar 20,3 mil milhões de libras (23,4 mil milhões de euros, ao câmbio atual) e a ficar com 43% da instituição. “O Lloyds estava prestes a morrer”, reconheceu Horta Osório numa entrevista recente ao mesmo Financial Times. Uma realidade que não podia partilhar com ninguém, sob pena de causar uma quebra de confiança no banco, e que fez com que o banqueiro português sucumbisse à pressão.

Perdas
O Credit Suisse assumiu uma perda de quatro mil milhões de euros no colapso do Archegos.

1,36 Biliões
O banco tem 1,36 biliões (milhões de milhões) de euros em ativos sob gestão.

49 000
Número de funcionários do Credit Suisse ao nível global.

-230 Milhões
O Credit Suisse teve um prejuízo de 230 milhões de euros no primeiro trimestre de 2021.

Em 2011, e oito meses depois de ter assumido a liderança do Lloyds, Horta Osório teve uma paragem forçada devido à exaustão e à fadiga causadas por dias seguidos sem conseguir dormir. Na altura, alguns comentadores vaticinaram o fim da carreira do “Mourinho da banca”, após este ter falhado o primeiro serviço. Mas a verdade é que, dois meses depois, regressou e não só conseguiu fazer entrar o segundo serviço como encetou uma recuperação impressionante. Em 2017, Horta Osório concluiu a reprivatização do banco, com a venda das últimas ações que ainda eram detidas pelo Estado. E se na maior parte dos resgates a instituições financeiras se costuma fazer as contas ao prejuízo que sobrou para os contribuintes, no Lloyds o Estado britânico conseguiu um lucro de mil milhões de euros.

Apesar desse saldo final positivo, a reestruturação seguida por Horta Osório centrou-se bastante numa estratégia agressiva de corte de custos. Foram sacrificadas dezenas de milhares de postos de trabalho, o que motivou fortes críticas de sindicatos e de alguns quadrantes políticos. Na década que passou na liderança do Lloyds, levou para casa cerca de 60 milhões de libras (quase 70 milhões de euros), segundo a Imprensa britânica. A remuneração de Horta Osório foi dissecada, várias vezes, pela opinião pública do Reino Unido, criticada pelos trabalhadores do Lloyds e questionada pelos deputados britânicos.

Mas, numa audição parlamentar em 2019, o presidente do comité de remunerações do banco, Stuart Sinclair, defendeu cada penny pago: “Não percebo esse tipo de discórdia. As pessoas gostam de um vencedor. E quando falo com pessoas que ganham na casa das 22 mil, 30 mil ou 40 mil libras ao ano, muitas delas olham para o António como um vencedor, porque ele tirou este banco da beira do precipício.”

Pontos de pressão no Credit Suisse
O Credit Suisse, um dos maiores bancos de investimento e gestor de fortunas do mundo, também parece precisar rapidamente de um vencedor. Tem sofrido duros golpes, nas últimas semanas, que têm afetado não só as suas contas mas também a sua reputação. Os problemas na gestão de risco ficaram bem evidentes em vários episódios que obrigaram a instituição financeira a ter de fazer um aumento de capital e a registar prejuízos de 252 milhões de francos suíços (cerca de 230 milhões de euros), nos primeiros três meses do ano. Isto quando os maiores rivais mostram estar de boa saúde e com as máquinas lucrativas bem oleadas.

O banco suíço foi o mais penalizado pelo colapso, em março deste ano, do Archegos, o family office (gestora do património familiar) do antigo gestor de hedge funds Bill Hwang, que chegou a ter um poder de fogo de cerca de 25 mil milhões de euros. Apesar de o responsável do Archegos ter estado na lista negra dos grandes bancos de investimento, devido a acusações de abuso de informação privilegiada, a perspetiva de ganhos em comissões levou algumas instituições a mudar de ideias e a querer fazer negócio com o investidor. Foi o caso do Credit Suisse.

Prejuízos O passado recente do Credit Suisse tem sido marcado por perdas avultadas em negócios de alto risco e por escândalos na gestão Foto: Getty Images

O family office de Hwang seguia estratégias altamente arriscadas. Recorria à alavancagem, o que permite que, graças ao recurso a empréstimos e à troca do pagamento de comissões, se consiga fazer investimentos maiores do que o valor do capital disponível. No caso do Archegos, segundo a Bloomberg, o Credit Suisse fez empréstimos que permitiam multiplcar por dez o montante do investimento. Ou seja: por cada 100 dólares emprestados, apenas exigia garantias (ações ou outros ativos financeiros) avaliadas em 10 dólares. Era um dos bancos com menores exigências de colateral.

O problema foi quando algumas das ações detidas pelo Archegos, como as empresas de media Viacom e Discovery, começaram a desvalorizar. Os bancos exigiram que Bill Hwang reforçasse as garantias para compensar o menor valor das ações, mas este não teve capacidade para o fazer e acabou por colapsar. Alguns rivais do Credit Suisse, como o Goldman Sachs e o Morgan Stanley, conseguiram agir depressa, executando as garantias e vendendo-as de forma célere, de modo a mitigar o impacto. Mas este não foi o caso do banco suíço, que teve de assumir perdas de 4,4 mil milhões de francos suíços (quatro mil milhões de euros), devido às ligações ao Archegos, o que indicou problemas na gestão de risco e na cultura agressiva da instituição helvética.

Porém, esse não foi o único erro não forçado. O banco foi também um dos grandes financiadores, através da sua divisão de fundos de investimento, da Greensill. Esta entidade financeira britânica atuava no segmento de financiamento das cadeias de abastecimento, concedendo crédito para que as empresas pagassem as dívidas a fornecedores de forma mais rápida. O problema é que, para ter capacidade para o fazer, a Greensill, que estava a crescer muito depressa, recorreu a enormes quantidades de dívida. Ainda tentou disfarçar o verdadeiro nível de endividamento nas contas, mas, quando um dos seus maiores clientes falhou o pagamento, a empresa financeira deixou de ter o apoio de seguradoras e de financiadores. Colapsou e entrou em insolvência, em março deste ano.

Horta Osório tem como missão recuperar a reputação do Credit Suisse, abalada pelas perdas milionárias e falhas na gestão de risco

Os fundos do Credit Suisse tinham uma exposição de cerca de dez mil milhões de francos (cerca de 9,1 mil milhões de euros) à Greensill. Apesar de estar a conseguir recuperar algum dinheiro para pagar aos investidores nestes fundos, o banco suíço admite que pode não conseguir recuperar todo o valor. Thomas Gottstein, o presidente-executivo do Credit Suisse, disse numa conferência com analistas que, dos cerca de dez mil milhões, existem boas perspetivas de se recuperar perto de 7,5 mil milhões de francos, mas há 2,3 mil milhões que são de recuperação mais difícil, apesar de o banco considerar ter fortes argumentos legais nesses casos. Ainda assim, isso é algo que pode demorar muito tempo a ser resolvido, e os danos reputacionais na divisão de gestão de ativos, uma das grandes joias da coroa do Credit Suisse, dificilmente serão apagados em breve.

“A perda significativa relacionada com a queda de um hedge fund baseado em Nova Iorque é inaceitável. Em conjunto com os problemas recentes em torno dos fundos de financiamento a cadeias de abastecimento, reconheço que estes casos causaram uma preocupação significativa a todos os nossos stakeholders”, reconheceu Thomas Gottstein.

A estratégia de Horta Osório
Quando o Credit Suisse indicou, em dezembro do ano passado, que Horta Osório era o nome proposto para presidente do conselho de administração, os colapsos do Archegos e da Greensill ainda não tinham acontecido. Mas já se sabia que o banco estava em processo de recuperação de confiança, após o escândalo que resultou na saída do seu antigo presidente-executivo, Tidjane Thiam, em fevereiro de 2020. O então líder do banco contratou uma empresa de espionagem para vigiar o seu chefe da divisão de gestão de fortunas, Iqbal Khan, que decidiu trocar o Credit Suisse pelo rival UBS. A animosidade entre os dois, que eram vizinhos numa zona de luxo no lago de Zurique, já vinha de trás e esteve na origem da saída de Khan para a concorrência. Houve discussões, por causa de obras numa das casas e de árvores plantadas num jardim, que quase causaram confrontos físicos entre os dois.

No meio de tanta instabilidade, é a primeira vez em 165 anos de história que o banco escolhe um chairman que não é suíço. E, apesar de em muitos países e setores o referido cargo não ter funções executivas, esse não é bem o caso nos bancos helvéticos. O presidente do conselho de administração pode pôr as mãos ao trabalho e é o responsável pela estratégia e pela comissão executiva, tendo o poder de controlar os seus membros. Agora, além de ter de conseguir navegar pelos complexos jogos de influência nas mais altas esferas do grupo, Horta Osório terá de desenhar uma estratégia para tirar o banco da mó de baixo. A atual situação de fragilidade pode tê-lo tornado um alvo mais fácil em possíveis operações de concentração, como numa eventual fusão com o rival UBS que já é falada há anos.

Os erros no Archegos e na Greensill já fizeram rolar cabeças em alguns dos cargos mais altos do grupo, como na liderança da gestão de risco, da divisão de gestão de ativos e da banca de investimento. No entanto, a mudança de cadeiras não será suficiente para mudar uma cultura de risco que teve resultados desastrosos. No discurso que dirigiu aos acionistas na assembleia geral de 30 de abril, em que foi eleito chairman com 96,4% dos votos, Horta Osório foi duro. Considerou que o que se passou, nas últimas oito semanas, no Credit Suisse foi bem além das várias crises que já teve de gerir e prometeu que, nos próximos meses, o seu foco estará na gestão de risco, na estratégia e na cultura do banco. Estas serão as bases da estratégia com que o banqueiro português pretende recuperar serviços perdidos e impedir que o Credit Suisse corra o risco de ter de enfrentar match points pela sua sobrevivência.

As prioridades do banqueiro português

Depois de ter reestruturado o Lloyds, Horta Osório tem mais uma tarefa difícil, agora no Credit Suisse. No primeiro discurso aos acionistas, o novo presidente do conselho de administração do gigante helvético revelou as suas três grandes prioridades nos próximos meses.

Gestão de risco
Horta Osório avisou que os riscos atuais e potenciais do Credit Suisse precisam de ser alvo de um escrutínio imediato. “Acredito firmemente que qualquer banqueiro deve ser, no fundo, um gestor de risco”, disse. Revelou que, em conjunto com a administração e a gestão, iria olhar minuciosamente para a forma como os riscos são avaliados, geridos e controlados.

Estratégia
Apesar dos rombos que o Credit Suisse levou nas contas e na sua reputação, Horta Osório acredita que o banco tem forças que devem ser aproveitadas. “Eu vejo como um dever assegurar que o Credit Suisse continue a destacar-se onde tem as suas forças e as suas vantagens competitivas”, referiu. O banqueiro prometeu avaliar as opções estratégias do banco, com base numa perspetiva de longo prazo, sem perder de vista as necessidades de mais curto prazo. Depois, irá decidir o rumo do banco e vigiar de perto a execução da estratégia que será definida.

Cultura
Horta Osório afirmou que os episódios mais recentes obrigam a que o banco reflita sobre o que levou a esses problemas. Prometeu ouvir todos os stakeholders para ter um conhecimento aprofundado das forças e das fraquezas do Credit Suisse. E avisou que será necessário “incentivar uma cultura que reforce a importância da gestão de risco e que assegure os incentivos certos, incluindo na remuneração e com foco na responsabilidade individual”.

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