Porque o dinheiro não dorme: O ambicioso plano da Feedzai

Em Lisboa, o telefone não parava. Havia que negociar com pessoas em Londres, Nova Iorque e São Francisco. O objetivo era um: garantir que a operação vinha para Portugal. “Do lado de cá, éramos todos portugueses, na parte jurídica, financeira e de assessoria”, recorda Nuno Sebastião, CEO e sócio-fundador da Feedzai, que garantiu para a sua empresa uma ronda de financiamento de 200 milhões de dólares, o que determinou a ascensão ao estatuto de unicórnio. Ou seja: a Feedzai vale hoje mais de mil milhões de dólares, uma marca que poucos alcançam. Com ADN português, é a quarta start-up a atingir este patamar. Com uma diferença das outras três: mantém sede única em Portugal. E esse foi o ponto de honra para Nuno Sebastião nesta procura de capital. “Conseguimos demonstrar que temos capacidade para fazer uma operação desta envergadura em Portugal”, salienta, com algum orgulho.

Em apenas três semanas, uma equipa de cinco pessoas montou uma das maiores operações de financiamento da área tecnológica, a qual resultou na captação de 200 milhões de dólares e na entrada de novos acionistas, entre os quais a KKR, um dos gigantes mundiais de capital de risco.

A crescer A Feedzai emprega atualmente mais de 500 funcionários e vai contratar mais 200 Foto: Jose Carlos Carvalho

Mas a tarefa não foi fácil. “O processo foi curto mas muito agressivo, quase sem pausas para dormir. O Nuno [Sebastião] defendeu desde o início que a operação tinha de ser feita cá. Queria mostrar que em Portugal conseguimos fazer igual ou melhor do que noutros países”, explica Mário Lino Dias, sócio da sociedade de advogados Garrigues, que trabalhou diretamente neste projeto.

Estas sociedades de capital de risco, que são das maiores financiadoras de start-ups ao nível mundial, têm um instinto natural de tentar mudar as operações para terrenos que dominam. “O nosso maior desafio foi fazer com que alguém que vem de um regime jurídico distinto, com instrumentos diferentes e com outras lógicas de investimento, se sentisse confortável com a estrutura que iria encontrar em Portugal”, acrescenta o jurista.

O sócio-fundador da Feedzai não esconde a pressão que sofreu dos investidores para levar a sede da sua empresa para fora do País, mas assume à VISÃO que, “enquanto aqui estiver, eu não vou aceitar isso. Há investidores que mostram desconforto em investir em Portugal, mas nós dizemos que é aqui.”

Apesar de admitir que o enquadramento legal português ainda tem falhas para conseguir rivalizar com instrumentos existentes noutras regiões que têm outras armas para captar talento, ainda assim, a Feedzai vai partilhando o valor com os seus trabalhadores que detêm 15% do capital da empresa.

Além de garantir que o dinheiro é captado para Portugal, estas operações têm de encontrar outro equilíbrio entre a entrada de novos acionistas e a manutenção da liderança e do controlo da empresa. Por vezes, na ânsia de conseguirem mais financiamento, muitos empreendedores acabam por permitir que o controlo escape para as mãos dos donos do dinheiro. “É um equilíbrio difícil de conjugar com todos os interesses envolvidos, desde acionistas aos novos investidores e àqueles que aplicaram o seu dinheiro mais cedo e que não querem perder direitos, porque tiveram maior risco na altura da entrada”, explica Mário Lino Dias.

E como se consegue jogar com as forças em questão: novos acionistas e fundadores ou participantes mais antigos no capital? “Consegue-se quando se tem um projeto com muito valor, credibilidade e com uma liderança relevante. É a única forma”, remata o advogado.

Nesta ronda de financiamento, a Feedzai ganhou a KKR como nova acionista, tendo também participado a Sapphire Ventures e a Citi Ventures que, em 2017, já haviam investido 50 milhões de dólares.

Agora, “tivemos vários interessados neste investimento”, garante Nuno Sebastião que explica porque escolheu o financiamento liderado pela KKR. “Para mim, o objetivo era, além do dinheiro, perceber quem me pode ajudar a sério. A KKR tem equipas de alta performance que, em várias áreas, nos permitem encurtar o tempo, sem ter de andar em tentativa e erro.”

Mas uma coisa este empreendedor, que fundou a Feedzai em Coimbra, há 10 anos, garante: “Temos estofo para nos mantermos independentes”, e com isso assume que “muito dificilmente a Feedzai será comprada”.

Crescer é preciso
Mantendo a independência, a Feedzai viu entrar nos seus cofres 200 milhões de dólares e pode agora avançar com um plano de crescimento bastante agressivo. “Queremos ser a principal empresa mundial de combate ao crime e à fraude financeira digital. Não ser apenas um fornecedor desta ou daquela solução, mas tornarmo-nos uma plataforma de gestão de risco”, assume Nuno Sebastião, de 42 anos, explicando que, nos últimos 18 meses, a empresa lançou produtos já com esse objetivo: estar em todas as fases do processo de gestão da fraude financeira nos bancos. “A materialização da plataforma de gestão de risco representa um potencial de mercado enorme, muito superior ao que nós tínhamos.”

Por isso, a Feedzai está “a alargar o portefólio de produtos”, e com o dinheiro agora conseguido “podemos contratar pessoas”. Mas não descarta outra estratégia de crescimento. Nuno Sebastião admite que poderão comprar algumas start-ups que já estejam a desenvolver essas soluções, de forma a acelerar este processo. “Neste momento, temos estofo para comprar alguma empresa que esteja a emergir nestas áreas.” E justifica com esta hipótese: “Imagine que eu quero entrar numa determinada área de negócio. Terei de contratar equipas, desenvolver estruturas e lançar esse produto. Com a aquisição de uma empresa que esteja já numa fase avançada de desenvolvimento dessa solução, eu consigo encurtar o processo em quase dois anos.”

Esta estratégia foi apresentada aos novos investidores. Parte do dinheiro que recebeu na ronda de financiamento ficou logo cativa para este efeito. E não perderam tempo. Já está montada uma equipa dentro da Feedzai que tem como único objetivo analisar empresas, nas mais variadas áreas, que possam interessar para complementar a oferta de produtos. “Neste momento, temos oito ou nove em análise, mas temos de garantir que são muito boas do ponto de vista tecnológico”, garante Nuno Sebastião.

Sede em Lisboa Nuno Sebastião conseguiu garantir que a Feedzai se mantinha em Portugal

A KKR apoia esta estratégia e até se disponibiliza, desde já, a “continuar a fornecer fundos para ajudar a atingir os objetivos”, garante Stephen Shanley, ligado aos investimentos da KKR na área tecnológica, na Europa, assumindo que a sociedade “está aqui a longo prazo”.

Era uma vez em Coimbra
Depois de se licenciar em Coimbra, em 2001, Nuno Sebastião foi trabalhar para a consultora Deloitte, na área de sistemas de dados para a banca, avançando depois para a consultoria na área espacial, o que o levou ao seu primeiro projeto como empreendedor. Fundou a Oristeba, em 2005, na Alemanha, para software de satélites. Valeu-lhe o passaporte para a Agência Espacial Europeia. “Fui o primeiro português a entrar. Eu sou um produto [das políticas] de Mariano Gago”, assume Nuno Sebastião que elogia algumas das tomadas de decisões políticas dos últimos anos, nomeadamente o acordo com as universidades norte-americanas. “Se não fosse a Carnegie Mellon em Portugal, não existia a Feedzai. São estas coisas que fazem a diferença.”

Em 2011, em Coimbra, Nuno Sebastião avança, com Pedro Bizarro e Paulo Marques, para a fundação do seu segundo projeto de empreendedorismo. Utilizando Inteligência Artificial e a aprendizagem das máquinas, a Feedzai foi crescendo. Hoje tem cerca de 500 trabalhadores e soluções de deteção de fraude que protegem o dinheiro de mais de 800 milhões de pessoas e instituições em 190 países. “O que nós fazemos é uma peça fundamental e basilar na arquitetura dos bancos. Se falhar, ficam parados por várias horas”, diz o CEO da Feedzai.

Com forte presença nos EUA e na Europa, entraram, há ano e meio, na Alemanha e na Áustria. “Estamos a expandir”, assume Nuno Sebastião que vê potencial na América Latina, onde a empresa está já em fase de crescimento. Neste ano, a Feedzai conta contratar perto de 200 pessoas para suportar localmente os seus clientes, que tanto passam pelos grandes bancos tradicionais – Citibank, Santander, ABN, entre outros – como pelos novos provedores de serviços financeiros online.

Números que impressionaram a KKR. “O crime financeiro é um dos grandes problemas atuais que envolvem milhares de milhões de euros em todo o mundo”, conta à VISÃO Stephen Shanley, assumindo que “a Feedzai tem uma tecnologia nesta área que é única”.

Um dos grandes trunfos da empresa é o desenvolvimento de soluções para as mais diversas variantes do crime financeiro. Atualmente, a Feedzai canaliza 26% do seu orçamento para investigação e desenvolvimento. Começou por criar soluções de prevenção e de deteção de fraudes em pagamentos online, mas atualmente estende a sua base de atuação a um leque variado de problemas que a área da banca e dos pagamentos enfrentam.

Temos o estofo necessário para nos mantermos independentes. Muito dificilmente a Feedzai será comprada

Nuno Sebastião, CEO da Feedzai

“Um dos pormenores que nos chamaram mais a atenção foi a Feedzai ter provado que consegue atuar em quase todas as frentes de combate ao crime financeiro. O poder da tecnologia que a Feedzai criou pode, agora, ser escalado e melhorado para ser uma plataforma total no combate ao crime e à fraude financeira. E eles estão a fazê-lo de uma forma completamente única no mercado”, diz Stephen Shanley, assumindo que “o que estão a desenvolver nesta área é muito interessante para nós. As aspirações não são pequenas. Temos esperança de que se tornem um negócio com um valor estratégico muito grande”.

O uso da banca digital e os pagamentos online dispararam em todo o mundo devido à pandemia. Com esse aumento, houve mais tentativas de fraudes. Os esquemas de controlo de conta bancária dispararam 650% em 2020. “Nós focamos os nossos investimentos em empresas que resolvem problemas complexos”, conclui Shanley que já antes tinha assinado a entrada na OutSystems, outro unicórnio português.

Os unicórnios portugueses
Empresas tecnológicas, com poucos anos de vida, a atingirem valorizações acima dos mil milhões de euros são raras. Muito raras. Por essa razão é que se lhe dá o nome de unicórnio. Portugal já tem quatro: à OutSystems seguiu-se a Farfetch, a Talkdesk e agora a Feedzai. Em termos relativos, é um número muito superior ao de Espanha ou de França.

“A razão é simples. Portugal é um país tão pequeno que estas empresas quando nascem têm logo como prioridade trabalhar para o mercado internacional. Em Espanha, o primeiro objetivo é conquistar o mercado interno e, depois, se o negócio tiver sucesso, partir para a internacionalização, geralmente na América Latina. O mesmo acontece em França. E esse pormenor pode dar uma vantagem grande às empresas portuguesas”, defende Joaquim Sérvulo Rodrigues, presidente da capital de risco Armilar, um dos primeiros investidores na Feedzai.

E relembra as dificuldades que vão surgindo com o crescimento. “Nos primeiros tempos, os fundadores conhecem toda a gente. É mais fácil gerir. Quando se atinge uma dimensão de 80 a 100 pessoas, deixa de ser possível fazer isso, por muito boa que seja a equipa. Tem de se começar a mudar a organização interna para se continuar a crescer. O que acontece também quando se atinge as 300 pessoas. E é aí que, muitas vezes, se falha.” Os riscos são muitos, e é obrigação dos investidores ajudar a minimizá-los. Joaquim Sérvulo Rodrigues lembra que a empresa “está a competir com os melhores do mundo” e, como tal, “tem de conseguir trazer talento em áreas que não se é muito forte. Por exemplo, em Portugal temos pouco conhecimento em marketing e vendas de produtos tecnológicos, uma competência que temos de ir buscar onde existe. Caso contrário, podem-se fazer erros a pagar muito caro no futuro”.

Para já, a Feedzai só pensa em crescer. Tornando-se um fornecedor global de soluções de deteção de fraude e gestão de risco financeiro, quer, nos próximos anos, ter uma atividade três a cinco vezes superior à que tem atualmente. “Os obstáculos são muitos, sobretudo em Portugal. Estas empresas criaram riqueza a partir do nada”, acrescenta o gestor da Armilar.

A ver de fora também Stephen Shanley elogia o ecossistema nacional. “Portugal tem feito um trabalho incrível. Pela nossa experiência noutros países, o sucesso de empresas como a OutSystems ou a Feedzai tende a fazer emergir uma série de outras empresas tecnológicas. Esperamos que estas sejam apenas as primeiras de muitas empresas de centenas de milhões de dólares que estarão para nascer em Portugal.”
A Feedzai orgulha-se de estar não apenas a criar mas também a distribuir essa riqueza em Portugal. “Não há outra empresa desta dimensão, em que 15% esteja nas mãos dos trabalhadores. Isto representa cerca de 200 milhões de euros, é muito dinheiro”, diz Nuno Sebastião que espera, no futuro, uma maior partilha de valor. Se conseguir multiplicar por cinco a valorização, a participação dos trabalhadores atingirá os mil milhões. “Isto vai gerar riqueza, e muitas destas pessoas vão criar empresas. Tenho o sonho de que isto se transforme num verdadeiro ecossistema de criação de riqueza.”

O gigante português de combate à fraude financeira

A empresa portuguesa é uma das maiores do mundo no combate à fraude financeira, tendo no seu portefólio alguns dos gigantes da banca mundial e empresas com transações online avultadas. Eis os números das operações protegidas pela Feedzai:

800
milhões
De pessoas em todo o mundo

€9
mil milhões
Transações online de duas das maiores marcas mundiais de desporto

55%
Dos acessos bancários
da população do Canadá

4
Dos cinco maiores bancos
dos EUA

60%
Das subscrições dos serviços de streaming
de música em todo o mundo

45%
Dos utilizadores de cartões bancários
no Reino Unido

80%
Das 500 maiores empresas do mundo
do índice Fortune


Banco asiático
de cartões virtuais

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