Paula Rego (1935-2022), de “criança solitária” e tímida a referência mundial das artes

Gonçalo Rosa da Silva

Paula Rego (1935-2022), de “criança solitária” e tímida a referência mundial das artes

Aos 15 anos, Paula Rego, então uma adolescente de boas famílias de alta burguesia a estudar na prestigiada St. Julian’s School, em Carcavelos, pintou um quadro a que chamou Interrogation (Interrogatório): uma obra sombria representando uma figura feminina fechada sobre si própria, em postura defensiva, rodeada por dois homens sem rosto nem piedade, armados com uma broca e uma chave de parafusos. Uma cena de pesadelo que remetia para o ambiente repressivo da ditadura vigente de Salazar, de que Paula estava bem consciente. Filha de pai republicano, o engenheiro eletrotécnico José Figueiroa Rego, educada numa casa liberal onde se escutava a rádio BBC, ela era já sensível às desigualdades – políticas e de género.

O trabalho precoce profetizava a capacidade da futura artista em trabalhar na sua pintura emoções, interditos, segredos, traumas, jogos de poder, ou a condição da mulher. Uma visão interventiva que é sublinhada na retrospetiva agora inaugurada na Tate Britain, a mais ambiciosa dedicada à pintora portuguesa no país onde vive há décadas, que inclui desde os primeiros trabalhos datados dos anos 1950/1960, em que experimentou com desenhos e colagens, às gravuras dos anos 1980, aos objetos tridimensionais que usa no estúdio para criar, e às grandes telas de referência das últimas décadas. Raramente mostrada em público, Interrogation é uma das mais de 100 obras agora arrumadas nas 12 salas da Tate Britain.

“Desde muito pequena que ela desenhava, recortava tudo. A sua primeira fase das colagens vem muito da adolescência. A Paula era muito feliz, no seu quarto, a desenhar. Filha e neta única, era uma criança solitária, tinha muitos medos, até das moscas…”, descreve Arlete Silva, amiga de Paula Rego “há mais de meio século”. A galerista (viúva de Manuel de Brito, fundador da Galeria 111) sintetiza-a assim: “Para ela, pintar era  extravasar as emoções.” Sublinhando que a artista “sempre teve uma grande consciência política”, conta à VISÃO um episódio curioso: a colaborar na recolha de materiais para um catálogo raisonné dedicado a Paula Rego, Arlete Silva descobriu, por entre os mil papéis atirados para uma caixa pelo marido, uma anotação que iluminou uma pintura com colagens datada de 1961: o título que todos tinham esquecido, incluindo Paula Rego, e que é O Preso Político.

Não é caso único nos anos de juventude e dos primeiros desenhos, pinturas e colagens da artista. Igualmente patente na Tate Britain está a obra paradigmática S. Vomiting the Pátria (1960). “Será que ousarei, disse a mim mesma, ousarei fazer a pintura de Salazar a vomitar a Pátria? Porque na realidade o que devia ser era a Pátria a vomitar Salazar. Isto até era ligeiramente simpático em relação ao ditador, o que era uma coisa extremamente perversa”, confessou Paula, 40 anos depois, numa entrevista. Victor Musgrave, fundador da pioneira Gallery One, em Londres, então já um admirador seu, recusou-se a expor Salazar a Vomitar a Pátria: tinha “falos a mais”. Em Lisboa, a Galeria de S. Mamede incluiu-a numa coletiva em 1972… mas omitiu o nome do ditador. A artista, essa, continuava a decifrar o País à distância. O progenitor, sempre atento, empurrara-a para fora do ambiente claustrofóbico de Portugal, desejando-lhe uma educação mais livre. E Paula, depois de uma infância dividida entre o Estoril e a Ericeira, por causa dos bons ares recomendados pelos médicos a seguir a uma tuberculose, chega a Londres em 1952 para estudar na Slade School of Fine Art.

Os primeiros tempos são difíceis. Era estrangeira, falava com sotaque diferente, era mulher. “A abordagem histórica e a crítica à arte britânica passam por uma visão muito masculina”, destaca Catarina Alfaro, coordenadora da programação e da conservação da Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais. “Mas a própria Paula também tinha uma posição crítica face ao ambiente da Slade, aos seus artistas, geniais mas algo fechados. Ela dizia que o método da escola, de um rigor quase matemático, a afastava do seu universo e condicionava a sua pintura, que ela acreditava dever provir da imaginação.” O futuro marido, que conheceu numa festa, Victor Willing, inteligente, culto, que se dava com Francis Bacon, era um desses artistas: era um outro tipo de condicionamento, refere a curadora. “Temos igualmente de incluir aqui a questão de género, de as mulheres terem um tratamento e uma visibilidade diferentes”, sublinha.

Obra militante

Apesar das barreiras, a artista portuguesa não é posta de lado nem no circuito nem no discurso crítico britânicos. Sinal disso é o prémio de verão ganho por Paula Rego em 1954, no âmbito da competição Summer Composition da Slade, baseada na obra Under Milk Wood, de Dylan Thomas. O proeminente crítico David Sylvester elogiará a sua pintura como “a menos receosa que ali está”. Paula, a tímida que era sobretudo feliz no seu atelier (numa antiga fábrica de botões, de paredes escuras e sem janelas, onde nada a distraía do seu trabalho), assumirá a distinção como uma medalha, uma confiança para se manter fiel ao seu imaginário, para perseguir a sua linguagem figurativa nova, associada ao surrealismo, às referências literárias populares, aos provérbios, às cantigas de roda, aos pesadelos, às mulheres da sua terra e da sua infância.

A biografia desempenha igualmente uma nota fundamental desde cedo. Como a própria diz, “toda a pintura é portuguesa”. Aos 30 anos, Paula Rego tinha perdido o pai que adorava, a mãe, mulher elegantíssima com quem tinha poucas afinidades, morava em sua casa (onde ficará até morrer), o marido, Victor Willing, já estava doente com a esclerose múltipla que o derrotaria em 1988, depois de um longo calvário documentado em muitas pinturas. Uma destas, A Dança (1988), faz o luto da doença, das infidelidades, do amour fou. Foi o próprio Victor a sugerir-lhe que pintasse gente dançante ao luar – e nesta obra extraordinária, Paula coloca-o no centro, abraçado a uma outra mulher, e agiganta-se a si própria num canto.

Paula Rego, pintora, no Museu que acolheu a sua obra em Cascais

Escolhida pela curadora Elena Crippa, organizada cronologicamente, a retrospetiva da Tate Britain inclui ainda empréstimos da Fundação Gulbenkian, dos museus de Serralves e do Chiado, e da Casa das Histórias Paula Rego. Para ver até 24 de outubro, há peças paradigmáticas e trabalhos menos conhecidos – ou raramente expostos. E todos afirmam, com maior ou menor subtileza e mistério, causas hoje tão contemporâneas. Como as gravuras Nursery Rhymes (1989) inspiradas nas canções infantis tradicionais (a artista começou a levar as placas de cobre e o estilete, preferindo-os ao cheiro e à confusão das tintas para pintar, enquanto velava o marido).

E as obras que trouxeram a consagração à artista como The Little Murderess (1987), com essa rapariguinha inquietante de garrote na mão, A Filha do Polícia (1987), sobre a jovem a polir a bota paterna, e Família (1988), com mãe e filha a ajudarem o pai a vestir-se: Paula Rego revela aí tensões domésticas com figuras femininas não tão submissas assim… Mas também se arrumam na Tate Britain os trabalhos dos anos 1980 e 1990, quando Paula Rego altera a sua linguagem, dizendo-se um “sismógrafo”: pintava no chão, sem distância, “o pincel puxa e o resto do bicho vem atrás”, dizia. Começa então a usar modelo para pintar (a fiel Lila Nunes) e a assumir um lado mais teatral, com recurso a vestidos, adereços, bonecos. E explora um figurativismo limpo, dominado por mulheres robustas, em Dog Women, Abortion (séries dos anos 1990) e no políptico Possession I-VII (2004) – onde ensaia o sofrimento, a violência de género, o empoderamento feminino através da sexualidade.  

Mas aí revelam-se outras obras, até nunca vistas. É o caso de The Return of the Native (1993), inspirada num romance de Thomas Hardy ambientado numa paisagem imaginária marcada por bruxaria e superstições. A pintora representa o fim trágico de uma mulher cujo desejo choca com as normas sociais de uma comunidade rural: debruçada sobre uma sebe, rodeada por silvas e flores, por bichos selvagens e por homens tombados. Esta obra crepuscular tem estado guardada no  Ministério dos Negócios Estrangeiros. Ou ainda o díptico Cast of Characters from Snow White (1996), agora mostrado na Europa por empréstimo de um colecionador privado: uma obra monumental, com mais de três metros, inspirada no clássico preferido de Paula Rego e adaptado pela Disney em 1937, com os anões transfigurados em mulheres. “Para todos os efeitos, e ainda que já tenha havido revisões críticas da obra de Paula Rego, que acentuam o seu lado interventivo (por exemplo, em Obedience and Defiance/Obediência e Desafio, em 2019), esta é uma exposição importantíssima”, declara Catarina Alfaro. “Mostra a Paula Rego politizada e interventiva que a caracteriza desde o início do seu percurso.” Só por distração é que não reparámos? “As obras que a artista produz a um ritmo furioso, entre 1957 e 1962, já ao lado de Victor Willing, refletem as suas emoções, um País fechado sobre si próprio, a caricatura sobre as relações de poder entre homem e mulher, a tensão social associada ao parto e o lugar do feminino condicionado pela reprodução num quase manifesto. Como são obras não tão figurativas, são menos compreendidas. A sua obra tratou os temas do corpo e da sexualidade visceral, e não foi então muito aceite pelos galeristas nem valorizada comercialmente.” A liberdade dos anos 1980 é que irá alterar esta situação, refere.

Paula Rego atingiu um patamar a que poucas artistas podem dizer ter chegado – e fê-lo com um léxico próprio. Para Catarina Alfaro, Paula Rego reinscreve a voz das mulheres, desconstruindo os papéis sociais a elas atribuídos ao longo do tempo – e isso é político. “Fá-lo com uma pintura que está de acordo com os cânones e o contexto, mas que é altamente subversiva nos conteúdos e nos pormenores”, aponta. E por tudo isto é importante, celebratório até, saber que a artista, aos 86 anos, continua a trabalhar todos os dias no atelier, ouvindo ópera e fado e terminando o dia com uma taça de champanhe, como contou ao The Guardian. Paula Rego é uma arca humana de onde continuam a sair obras surpreendentes.

Palavras-chave:

Mais na Visão

Mais Notícias

Abra as portas ao Natal e vista a casa a rigor

Abra as portas ao Natal e vista a casa a rigor

Livros: O melhores de 2022

Livros: O melhores de 2022

JL 1360

JL 1360

Álvaro Pacheco deixa de ser treinador do Vizela, clube que 'subiu' duas vezes

Álvaro Pacheco deixa de ser treinador do Vizela, clube que 'subiu' duas vezes

JL 1359

JL 1359

Balenciaga retira campanha e pede desculpa

Balenciaga retira campanha e pede desculpa

10 Looks para combater o frio sem perder o estilo

10 Looks para combater o frio sem perder o estilo

7 livros novos em bom português

7 livros novos em bom português

Clara de Sousa comemora aniversário:

Clara de Sousa comemora aniversário: "Tenho mais um motivo para sorrir com a família a crescer"

Com a iminente partida de William e Kate para Boston, recorde a visita da rainha Isabel II à cidade norte-americana em 1976

Com a iminente partida de William e Kate para Boston, recorde a visita da rainha Isabel II à cidade norte-americana em 1976

Maria Botelho Moniz substitui Cristina Ferreira na TVI

Maria Botelho Moniz substitui Cristina Ferreira na TVI

Provincia: Do Alentejo para Lisboa, com Itália na bagagem

Provincia: Do Alentejo para Lisboa, com Itália na bagagem

Quanto valem os dados que não usamos?

Quanto valem os dados que não usamos?

Portugal mantém uma das prevalências mais elevadas da diabetes da Europa

Portugal mantém uma das prevalências mais elevadas da diabetes da Europa

Mortandade de bivalves na ria Formosa ameaça sustentabilidade da amêijoa

Mortandade de bivalves na ria Formosa ameaça sustentabilidade da amêijoa

Eduardo Carpinteiro Albino e José Carlos Figueiredo vencem Campeonato de Portugal de Novas Energias

Eduardo Carpinteiro Albino e José Carlos Figueiredo vencem Campeonato de Portugal de Novas Energias

Saiba como escolher a máquina de secar roupa

Saiba como escolher a máquina de secar roupa

O centenário de Saramago

O centenário de Saramago

Cristiano Ronaldo: os primeiros passos para uma nova vida

Cristiano Ronaldo: os primeiros passos para uma nova vida

VISÃO Júnior de dezembro de 2022

VISÃO Júnior de dezembro de 2022

A 58.ª edição da Capital do Móvel abre portas, na Alfândega do Porto, dia 26

A 58.ª edição da Capital do Móvel abre portas, na Alfândega do Porto, dia 26

Porque é que numa maratona se correm exatamente 42,195 quilómetros?

Porque é que numa maratona se correm exatamente 42,195 quilómetros?

"Wednesday", na Netflix: Uma aberração pop na nova série de Tim Burton

CORREÇÃO

CORREÇÃO "Casa aberta" disponível para vacinação de pessoas acima dos 60 anos

As maiores fortunas de Portugal na capa da EXAME de Dezembro

As maiores fortunas de Portugal na capa da EXAME de Dezembro

Meteorito massivo esconde dois minerais nunca vistos na Terra

Meteorito massivo esconde dois minerais nunca vistos na Terra

Truques para estudares melhor

Truques para estudares melhor

Máxima da Holanda surpreende com visual em tons de cinzento e preto em entrega de prémio em Amesterdão

Máxima da Holanda surpreende com visual em tons de cinzento e preto em entrega de prémio em Amesterdão

6 podcasts de true crime para detetives de bancada

6 podcasts de true crime para detetives de bancada

VOLT Live: carros elétricos são a melhor solução para frotas de empresas?

VOLT Live: carros elétricos são a melhor solução para frotas de empresas?

Fátima Lopes inaugura nova loja na Avenida da Liberdade, em Lisboa

Fátima Lopes inaugura nova loja na Avenida da Liberdade, em Lisboa

Sugestões de decoração de Natal

Sugestões de decoração de Natal

"Sangue Oculto": Carolina assume a identidade de Beni

The Devil In Me em análise: Hotel dos horrores

The Devil In Me em análise: Hotel dos horrores

EXAME 464 - Dezembro de 2022

EXAME 464 - Dezembro de 2022

Letizia recupera o seu fato de plumas

Letizia recupera o seu fato de plumas

Príncipe André perde mais privilégios que eram conservados pela mãe, a rainha Isabel II

Príncipe André perde mais privilégios que eram conservados pela mãe, a rainha Isabel II

Telescópio capta evento que se assemelha a “tubo de pasta de dentes apertado no meio com toda a força”

Telescópio capta evento que se assemelha a “tubo de pasta de dentes apertado no meio com toda a força”

Truques para cozinhar sempre bem a massa

Truques para cozinhar sempre bem a massa

VOLT Live: Reparação de baterias em carros elétricos

VOLT Live: Reparação de baterias em carros elétricos

Jardim Zoológico de Lisboa tem nova cria de veado-da-birmânia, uma espécie em perigo

Jardim Zoológico de Lisboa tem nova cria de veado-da-birmânia, uma espécie em perigo

Esperança de vida aos 65 anos estimada em 19,30 anos no último triénio

Esperança de vida aos 65 anos estimada em 19,30 anos no último triénio