Antonio Scurati: “O populismo é uma recusa da complexidade do mundo e da vida modernas. E essa complexidade corresponde, em termos políticos, à democracia”

O napolitano Antonio Scurati tem a postura corporal confortável e o discurso bem oleado de um autor bafejado pelo sucesso. Aos 52 anos, o escritor é o oráculo contemporâneo sobre o fascismo italiano, responsabilidade que, confessa à VISÃO, não o assusta: “Quando era jovem, era muito arrogante, pretensioso. Trinta anos depois, estou mais sensato. Além disso, estou rodeado de mulheres em minha casa, que estão constantemente a fazer pouco de mim, e isso mantém-me humilde.” Mas isso não impede o frenesi mediático de pedidos constantes para comentar este ou aquele gesto de Salvini. “Nunca respondo; sou um escritor, se tenho algo para dizer, escrevo-o nos livros”, declara. Esta boa fortuna aplicou-a nos seus dois romances dedicados a Mussolini: M – O Filho do Século (2019) e M – O Homem da Providência (2021), em que Scurati dissecou, primeiro a fulgurante ascensão ao poder de um humilde Benito, e, depois, a implementação violenta do regime fascista e a solidão do seu líder. Dois colossos que o transformaram num fenómeno literário à escala mundial. Pensados para integrarem uma trilogia, avança o escritor que a saga vai estender-se até um quarto ou mesmo um quinto livros dedicados ao líder fascista. Outra revelação? O terceiro volume abre as primeiras páginas com o primeiro encontro entre Mussolini e Hitler, aquando da visita deste a Itália para apreciar obras-primas da pintura, em maio de 1938 – “ele queria ser pintor”, recorda o autor, com ironia. Antonio Scurati gostaria de poder abordar com o público português este mundo em expansão, que vai contemplar ainda o negrume do nazismo,. Elogiando o esforço de Portugal no combate anti-Covid, o autor italiano faz-se convidado: “Gostava que me convidassem a ir fazer uma conversa ou uma conferência aí…”. Prego, que alguém o convide se faz favor.

Às primeiras páginas de M-O Homem da Providência, Mussolini agoniza, reclamando que foram a “Grande Guerra e a psicologia das multidões a estragar-lhe a digestão”. É uma nota de humor negro. Foi uma estratégia para gerir o impacto da criatura?
Sim, foi um colocar as coisas na perspetiva certa. Desde o início do projeto que uma das minhas preocupações era evitar fazer dele um mito. Existem dois mitos em torno de Mussolini: o mito positivo do líder da propaganda fascista, e o mito negativo fornecido pelos antifascistas. O Mussolini de que quero falar aos leitores é um homem, com os seus muitos… come dire… aspetos malignos. Ele tem um corpo, ossos, sangue. Mas Mussolini foi o primeiro político do século XX a colocar o corpo no centro do poder.

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