Doce: Como é que ainda ninguém tinha feito um filme sobre elas?

Tal qual As quatro atrizes tinham de saber cantar e dançar. Como as Doce

O aviso surge no grande ecrã, escrito a néon cor-de-rosa, logo a abrir: Bem Bom é uma obra de ficção baseada em factos reais. “Não é um documentário”, já nos avisara a realizadora. “Mas as pessoas chamem-lhe o que quiserem, desde que vejam”, acrescentara, com uma gargalhada.

A verdade é que bastam uns minutos de filme para mergulharmos de cabeça na história que Patrícia Sequeira conta sobre as Doce. O facto de as atrizes Bárbara Branco (que interpreta Fá/Fátima Padinha), Carolina Carvalho (Helena Coelho), Ana Marta Ferreira (Laura Diogo) e Lia Carvalho (Teresa Miguel) cantarem bem ajuda à suspensão da descrença. E apetece dançar.

Ao longo das suas quase duas horas, queremos muito crer que foi assim que tudo aconteceu no início da girl band, partes amargas incluídas. A memória que temos dela não é, afinal, dissociável daquele Portugal ainda tão a preto e branco de há 40 anos. E, no final, percebemos exatamente aquilo que Patrícia queria dizer quando nos disse que Bem Bom “fala de coisas sérias embrulhadas num rebuçadinho”.

Tudo começou com uma ideia simples, contara uns dias antes, na sua produtora Santa Rita Filmes. “Pensei: ‘Como é que ninguém fez um filme ou uma série sobre as Doce?’ Não achei possível.” Estava a ver-se na escola primária, a fazer coreografias da Ali-Babá com as amigas, como qualquer miúda na altura. “É uma memória muito feliz.”

Sempre em personagem Durante a rodagem, Bárbara Branco (Fá), Carolina Carvalho (Lena), Ana Marta Ferreira (Laura) e Lia Carvalho (Teresa) comportavam-se como uma banda famosa

Se a ideia era simples, a execução nem por isso: “Peguei na história como ela é, mas fiz ficção para conseguir chegar à verdade de uma maneira cinematográfica, e ficcionar sobre pessoas reais e vivas é um desafio, uma loucura, uma corrida de obstáculos. Hoje, pergunto-me: ‘Em que raio de missão me meti se nem tive apoio do ICA?’”

É a própria realizadora, que já conhecíamos do filme Snu (2019) e da série de televisão Conta-me Como Foi (2007-2011), quem responde, e percebe-se que não seria a falta de apoio do Instituto do Cinema e do Audiovisual a travá-la: “Uma pessoa começa a apaixonar-se e vê que esta história tinha de ser contada. Elas foram a primeira girl band da Europa e acabaram apagadas. O filme é uma maneira de lhes agradecer terem sido uma das bandas responsáveis pela animação e pela felicidade da minha vida.”

Logo ali, Patrícia decidiu que faria um filme e uma série de televisão. O filme mais virado para a história da banda, enquanto grupo, e a série mais focada na vida das pessoas. Mas a história que pensava ser só feita de saltos, cor e alegria, iria levá-la, afinal, para zonas sérias.

Nos Estados Unidos, havia as Supremes e outros grupos da Motown. Na Europa, antes das Doce era o deserto

Deparou-se com um produto – estavam a vender quatro mulheres, com determinadas características – e com o feminismo. Encontrou a difamação, o preço da fama, aquilo a que foram sujeitas por serem mulheres com sucesso, o terem de lidar com um Portugal extremamente conservador e machista.

“As letras também vêm cumprir essa função, às vezes têm um tom machista”, nota a realizadora. “Outras falam do prazer no feminino, na mulher que decide se quer ou não. O tema Bem Bom parece uma noite sexualmente muito ativa e o ‘fecha a porta, apaga as luzes’ do Amanhã de Manhã é a mulher no comando.”

Bem Bom é, por isso, também um retrato de Portugal nos anos 1980, um país onde as mulheres tinham um espaço que não era o palco, não eram as luzes. E onde Fá, Lena, Laura e Teresa foram logo apelidadas de fraldisqueiras.

O que Patrícia Sequeira também não sabia, aos 6 ou 7 anos, é que na origem das Doce esteve um homem pragmático: Tozé Brito, então já a dirigir o departamento de A&R (artistas e repertório) da Polygram em Portugal. Conta o músico: “Isto tudo começa porque os Gemini acabam em 1979. Eu e o Mike [Sergeant] tínhamos facilidade em continuar por outro lado, mas a Fá e a Teresa Miguel ficaram a olhar para mim. Elas cantavam muito bem as duas, eram minhas amigas e ainda mais novas do que eu…”

Os Gemini haviam nascido em 1976 e, dois anos depois, ele avisara os companheiros do grupo de que só continuaria mais um ano. “Já estavam cumpridos os objetivos de vender muitos discos e ir ao festival”, recorda.

Em setembro de 1979, Tozé Brito tinha 27 anos, era casado, tinha dois filhos. Quatro décadas depois, diz que não repetiria a aventura de criar um projeto pop de raiz (“É muito cansativo, é preciso uma energia brutal”), mas naquele outono não hesitou em “inventar uma cena nova”: um grupo só de mulheres.

Intemporal Patrícia Sequeira não queria um filme a cheirar a mofo. E transformou os protagonistas em estrelas; na foto acima, o ator Eduardo Breda faz de Tozé Brito

Nos Estados Unidos, havia as Supremes e outros grupos da Motown. Na Europa, era o deserto. O músico não demorou muito tempo a convencer Mike Sergeant e Cláudio Condé, então presidente da Polygram no nosso país, de que o projeto ia ser “revolucionário”. Ambos concordaram em viabilizar o projeto ainda sem nome.

De início, mandou o visual, como também se vê no filme. “Tínhamos a Teresa Miguel, que é ruiva natural, e a Fá, que tem o cabelo castanho-claro”, enumera Tozé. “Faltava-nos uma morena-morena e lembrei-me da Lena, que era lindíssima e já passara pelos Gemini.”

Helena Coelho tinha só 17 anos, mas cantava bem e crescera nas tábuas dos palcos – era filha de um ator de revista (Carlos Coelho) e de uma fadista (Teresa Tavares). A mãe precisou de ser persuadida quase tanto como Teresa Miguel que, entretanto, entrara para o elenco do cabaret Crazy Horse que, nesse verão, chegara a Lisboa para uma temporada no Parque Mayer.

“Faltava-nos, então, uma loira para termos um grupo esteticamente como queríamos”, recorda Tozé Brito. “Foi aí que me lembrei da Laura Diogo, que tinha conhecido no casino, nas misses desse ano. Ela cantava afinada, só não podíamos deixá-la a cantar sozinha.”

Teresa Miguel foi eleita a coreógrafa do grupo e exigiu uma sala com espelhos a toda a volta, para poderem ensaiar devidamente. E o costureiro Zé Carlos, amigo de Laura, seria fundamental para a imagem das Doce. Além da roupa, era ele quem decidia como elas subiam ao palco penteadas e maquilhadas.

“Quatro mulheres bonitas, cada uma da sua ‘cor’, superbem ensaiadas, era esse o conceito”, sublinha hoje Tozé Brito. “Tinha a certeza de que ia ser um sucesso. ‘Isto não falha’, disse aos outros.”

O primeiro single, Amanhã de Manhã, foi logo disco de ouro. E a estratégia de as lançar no Festival da Canção, logo em março de 1980, resultou. Conseguiram o segundo lugar e nesse verão deram concertos pelo País inteiro. “O mais difícil era segurar ‘a tropa’”, ri-se o músico. “Comia-te toda à colher”, ouve-se um homem dizer a uma delas no filme, com direito a resposta à altura.

Altos e baixos

As Doce dão o que falar logo que concorrem pela primeira vez ao Festival da Canção. Hão de vender quase 250 mil álbuns, mas nem tudo lhes correrá bem

1979
Em setembro, Tozé Brito cria a girl band. Fátima Padinha e Teresa Miguel cantavam nos recém-extintos Gemini. Lena Coelho tinha feito parte das Cocktail e Laura Diogo fora eleita Miss Fotogenia, no concurso Miss Portugal desse ano.

1980
Em janeiro, lançam o primeiro single, Amanhã de Manhã (Depois de Ti, no lado B). Em março, ficam em segundo lugar no Festival da Canção, com o tema Doce, e lançam o primeiro álbum, OK.KO.

1981
Regressam ao festival e ficam em quarto lugar, com Ali-Babá, Um Homem das Arábias. O júri penaliza-as por se apresentarem demasiado despidas. Em novembro, estão em digressão no Canadá quando corre o boato de que Laura Diogo tinha recorrido às urgências do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, após uma sessão de sexo anal com Reinaldo, futebolista do Benfica.

1982
Vencem o Festival da Canção com o tema Bem Bom. Desta vez, as quatro vão vestidas de mosqueteiras e tapadas dos pés à cabeça. Ficam em 13º lugar na Eurovisão, mas começam a pensar na internacionalização.

1984
Vão por uma última vez ao festival, com O Barquinho da Esperança, tema de Pedro Ayres de Magalhães e Miguel Esteves Cardoso,

1985
Fernanda de Sousa (hoje Ágata) substituiu Lena Coelho, durante a gravidez desta, e também Fátima quando a cantora sai do grupo.

1986
É lançado o álbum Doce 1979-1987. A girl band termina.

As canções seriam o pelouro de Tozé Brito, habitualmente a meias com Mike Sergeant. O segredo, diz, era terem letras atrevidas, sem ultrapassarem “a linha”, para não chocar.

No filme, todas as músicas são cantadas pelas atrizes (a Universal lançou um álbum com a banda sonora) e estão ali para contar uma história. Na vida real, os vizinhos da realizadora ficaram a conhecê-las de cor porque a edição foi feita em quarentena, com o editor à distância. Patrícia queria estrear rapidamente, mas a Covid-19 trocou-lhe as voltas – esteve agendado para junho de 2020, depois para novembro. A pandemia também deitou por terra a “experiência de grupo” que antecipara.

“É um filme para as pessoas cantarem e para dançarem juntas, mas está lá também a minha causa: a ideia de que as mulheres estão sempre lixadas…”, diz. Acrescenta: “Embora eu adore os homens, a começar pelo Tozé Brito e pelo Zé Carlos, que acho um génio, aquele homem arrojado que as despiu na Ali-Babá, quando Portugal ainda não estava para aí virado.”

Falta sublinhar que a realizadora escreveu o guião com Cucha Carvalheiro e Filipa Martins, contando com a memória de Tozé Brito e o conhecimento da historiadora Helena Matos. E teve – “claro” – a autorização das quatro protagonistas. “Não filmei para cascar nelas e espero que o filme seja um grande orgulho para todas, mas vamos ver como reagem à crueza da verdade.”

Bem Bom não traz só os dourados – e há muitos para ver, uma delícia. Traz também momentos amargos, como o boato que envolveu o futebolista Reinaldo. E se lhe dissermos que Laura Diogo namorava com um estudante de Medicina mulato e que o boato terá nascido de uma graçola de colegas do hospital onde ele estudava? Quando ouvir que as Doce estavam, na altura, fora do País, parece uma história de filme, não é?

Tozé Brito

“Elas não eram bonequinhas nas mãos dos outros”

Já sabíamos que foi o inventor das Doce. Era também o mentor do grupo, como vemos em Bem Bom?
Era um bocado o “pai espiritual”. Sempre que havia problemas entre elas, ligavam-me. Uma vez, acordaram-me às três da manhã a dizerem: “Estamos no Porto e o grupo acabou!”. Eu só lhes disse: “Não sai daí ninguém antes de eu chegar”, e meti-me num táxi, porque não conduzo. Às nove, estávamos a reunir, comigo a lembrar-lhes de que tinham uma mina de ouro. Elas não paravam, de julho a setembro, de fazer espetáculos diários, nem dava para irem a casa. Quatro mulheres numa carrinha, a tensão era gigante. Às vezes, não se suportavam [risos].

O filme também as mostra a discutirem muito consigo e com o então presidente da Polygram, Cláudio Condé. Foi assim?
Claro que o filme tem dois ou três momentos um bocadinho romanceados, mas é muito fiel ao que aconteceu. Elas tiveram sempre a última palavra, aceitaram e assumiram as coisas, não eram bonequinhas nas mãos dos outros. O filme até nisso é incrível.

Bem Bom não conta apenas a história de um grupo musical.
Para mim, é muito importante o lado da emancipação da mulher, nos anos 1980, que está muito bem retratado no filme. Quando eu crio as Doce – e não o fiz sozinho, foi o trabalho de uma equipa –, só tinha uma preocupação: criar um grupo musical que tivesse sucesso. A parte do impacto social passou-me ao lado. Ou melhor, pensei: “Logo se vê.” Teriam de ser elas a viver com as consequências. E há, de facto, um momento em que são penalizadas, quando aparecem demasiado despidas no Festival da Canção de 1981.

O filme termina em 1982, com a ida das Doce à Eurovisão. O que aconteceu depois?
A Polygram internacional interessa-se por elas. 1983 ainda é um ano normal e, em 1984, elas começam a cantar em inglês. O grupo tenta a internacionalização, mas descaracteriza-se e começa aí o seu fim. Os portugueses estavam a marimbar-se para o inglês e lá fora ninguém lhes ligava. Também em termos estéticos, a Polygram mete o bedelho na forma como se vestem e nos videoclipes. O grupo começa a derrapar e acaba em 1986.

Revê-se na interpretação do ator Eduardo Breda?
Tivemos várias conversas por sua iniciativa, ele teve esse cuidado. Ensinei-lhe os meus “tiques” todos. Por exemplo, eu fumava três maços de tabaco por dia, portanto ele surge sempre de cigarro na mão. E também finge que é canhoto, teve de ser.

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