Rui Reininho: “A desinfeção e o jejum salvaram-me de outras tropelias”

Foto: Mimi Sá Coutinho

Como “uma peça de artesanato, daquelas que demoram algum tempo a moldar”. É assim que Rui Reininho apresenta à VISÃO o seu novo disco a solo, 20 000 Éguas Submarinas (edição Turbina), um trabalho inspirado no som do mar, que subverte o título do célebre clássico literário de Júlio Verne, e no qual o eterno vocalista dos GNR assume uma surpreendente faceta experimental – baseada na tradição budista das taças e dos gongos tibetanos. Nunca o ouvimos assim. Mais de uma década passada da estreia a solo com Companhia das Índias (2008), um disco bastante mais próximo do imaginário pop-rock dos GNR, Rui Reininho aventura-se novamente em nome próprio. Ou, melhor dizendo, “a meias” com o “companheiro de estrada” Paulo Borges, velho colaborador de palco da sua banda de sempre: “É preciso desmistificar a ideia do álbum a solo, não só por uma questão de competência, mas também porque uma pessoa tem de aprender a ouvir-se através dos outros”, sublinha.

E é isso mesmo que o músico português faz neste álbum tão singular, e em que assume como figura tutelar a terapeuta musical holandesa Jacomina Kistemaker, de quem se tornou discípulo nestes últimos anos. “Foi ela a inspiração que espoletou isto tudo”, afirma Rui Reininho.

O cantor frequenta, há alguns anos, os retiros na Galiza organizados por esta holandesa de 74 anos, que o iniciou nas sonoridades dos gongos tibetanos. “A Jacomina teve sempre a gentileza e a graça de nunca querer evangelizar-me para o que quer que fosse, mas toda a gente sabe que a desinfeção e o jejum fazem bem e, de certa maneira, isso acabou por me salvar de outras tropelias”, reconhece Reininho. Acrescenta: “Eu direcionei-me mais para a parte musical, mas a dada altura comecei a pensar em eternizar toda esta experiência num vinil. E a inspiração principal foi mesmo aquela criatura que entrou na minha vida por acaso e a transformou por completo. No fundo, este disco não é mais do que um agradecimento.”

O caminho começou depois a ser desbravado em São Jorge, nos Açores (de onde Paulo Borges é natural), aquando de um concerto dos GNR na ilha. “Na altura, ele falou-me de algumas gravações subaquáticas dos cantos das baleias que tinha feito, e isso criou uma grande empatia entre nós. Estamos a falar de alguém com uma grande escola, ao nível da composição, mas foi a partir desse convívio quase diário, durante quatro anos na estrada, que surgiu uma cumplicidade, até ao nível dos gostos musicais”, conta Rui.

20 000 Éguas Submarinas é, assim, resultado de “um trabalho de pesquisa e descoberta a dois”, ao qual se juntaram outros músicos durante o caminho, como os guitarristas Pedro Jóia ou o ex-GNR Alexandre Soares. “Tudo isto só foi possível devido às colaborações muito generosas de todos os que participaram. Do estúdio aos músicos, passando pela editora, Turbina, à equipa de vídeo, aos artistas responsáveis pela capa, tive muita sorte com as pessoas com quem me cruzei”, confessa o cantor.

Para quem está mais habituado ao “velho” Rui Reininho dos GNR, esta aventura a solo, resultante de um processo de descoberta, até poderá soar algo estranha, no modo totalmente experimental como – por entre sons da Natureza, eletrónica vintage e sonoridades budistas –, quase renega o universo pop-rock da banda que, em 2020, celebrou 40 anos de existência. “Passámos horas a ouvir eletrónica antiga e outras coisas sem qualquer utilização prática na minha outra vida com os GNR, naquilo a que eufemisticamente chamei de “Stockhausen dos pobres”, declara, irreverente como sempre.

Ao todo, gravaram-se mais de duas horas de conteúdos musicais, que foram depois reduzidos a um álbum de 40 minutos, que, entretanto, já começou a ganhar uma nova vida pela mão de terceiros: “Alguns produtores mais modernaços já me pediram o beat de alguns temas, para fazerem os seus próprios remixes, o que é muito interessante. É bom perceber que, afinal, isto não é só loucura, que até faz sentido para outros.” Após o lançamento nas plataformas digitais, a edição física em vinil de 20 000 Éguas Submarinas está marcada para 17 de julho. Antes, haverá ainda uma apresentação ao vivo no festival Jardins Efémeros, em Viseu, no dia 10. E a 10 e 11 de setembro, primeiro na Culturgest, em Lisboa, depois na GNRation, em Braga, Rui Reininho navegará para as águas profundas do palco em nome próprio.

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