Eunice e Lídia Muñoz: O que faz o amor

De mão dada com a neta e a rir. É assim que Eunice aparece quando entramos no seu belo rés do chão, numa rua tranquila em Paço de Arcos, onde vive com Lídia, também atriz e também Muñoz, e o namorado desta, Tiago Durão. E toda aquela ternura entre avó e neta há de ficar-nos na memória.

Passa um pouco do meio-dia de sexta-feira, 16, e o sol já aqueceu tanto o ar que um leve cheiro a rosas da casa do lado faz-se sentir na sala onde acabamos à conversa, de janelas abertas. É um dia luminoso por várias razões, ouvimos a Tiago, realizador de profissão, que neste trio tem as funções de produtor, cozinheiro e jardineiro – depois do almoço, Eunice vai receber a segunda dose da vacina contra a Covid.

Tiago conta isto e sai da sala porque quer editar rapidamente um teaser para as redes sociais sobre a peça A Margem do Tempo, com que Eunice Muñoz se despede de 80 anos de teatro (ver caixa). Na véspera, tínhamo-lo visto a andar de câmara de um lado para o outro no auditório municipal de Oeiras, que leva o nome da atriz, a filmar mais um ensaio da peça sem palavras de Franz Xaver Kroetz que o encenador Sérgio Moura Afonso adaptou para ser representada por duas mulheres.

Foto: Alípio Padilha

Em cima do palco, lá estava uma Eunice de 92 anos e uma Lídia, de 30, a interpretarem a mesma sra. Rasch, mas em épocas diferentes, que regressa a casa do emprego, passa o final do dia numa rotina muito própria e acaba a tentar o suicídio. A música, de Nuno Feist, a marcar tudo, como se fosse um terceiro ator.

Pelos gestos de ambas, contidos e vagarosos, sentimos perpassar uma grande tristeza e uma ainda maior solidão. O silêncio, só quebrado duas ou três vezes por uma emissão de rádio, impressiona tanto que, na manhã seguinte, é por ele que começamos a entrevista com avó e neta.

Cumplicidade Avó e neta fotografadas neste reencontro em cena que é, ao mesmo tempo, a despedida dos palcos para Eunice. E em 1993, juntas, tinha Lídia 3 anos

Custa muito estar uma hora inteira em palco sem falar?
Eunice: Não é isso que me preocupa. Falo muito pouco, não sou faladora. Sou mais observadora, até porque observar é fundamental para a minha profissão. Mas esta peça para mim é uma novidade, nunca tive nada parecido sequer. É muito interessante para nós, atores, porque o facto de não falarmos leva-nos para outros lados. Ontem, no ensaio, estive muito ali, naquela tarde da sra. Rasch; por ser tudo novo, ainda.

Ontem, até era novidade ter um “ponto” a lembrar-lhe ao ouvido os movimentos. Aquele sussurrar constante não a desconcentra?
Ah, mas o Diogo não está sempre a falar, só me previne do que vou fazer a seguir.
Lídia: A avó sabe tudo [risos], o “ponto” é uma segurança, um apoio. E é engraçado ver como o corpo vai aprendendo, de repente já lá estava tudo.

Não é a primeira vez que Eunice usa um auricular – nas telenovelas, há já alguns anos que Lídia passou a dizer-lhe atempadamente as falas. O “ponto” só teve de abrandar o ritmo. “Ele que fale devagar, eu tenho tempo”, ouvimo-la pedir nos testes de som da véspera, cheia de paciência.

Já confessou que, com a idade, aprendeu a ser menos impaciente. Se lhe pedirmos para olhar para trás, para a Eunice de outros tempos, vê uma pessoa muito diferente?
Eunice: Vejo uma mulher que fez o seu percurso no teatro e na vida. A minha vida nunca foi só teatro. O facto de ter seis filhos nunca me deixaria pensar só no teatro, e a família esteve sempre em primeiro lugar.

São seis filhos e Lídia é uma de oito netos. Em miúda, já dormia muitas vezes em casa desta avó, que a ia buscar à escola com frequência e com quem passava dias infindos. Hoje, as duas assumem que não conseguiriam viver longe uma da outra.

Passaram a morar juntas há dez anos, mais ou menos pela altura em que contracenaram pela primeira vez, na peça O Comboio da Madrugada, de Tennessee Williams, não foi?
Lídia: É tão bom que não fazemos contas [risos].
Eunice: E eu gosto mais de estar em casa agora, é uma questão de idade. Não estou resignada, é mesmo um gosto e tenho muito com que me entreter.

Continua a ler muito? Sobretudo poesia?
Agora não estou a ler nada de constante. Leio revistas e releio algumas coisas. Volto sempre à poesia e aos russos, ao Dostoiévski… porque são leituras que satisfazem. Mas também gosto de ir para o jardim, de plantar, de andar à volta das flores. E agora, no confinamento, sou duplamente atraída por isso porque o Tiago tem feito jardinagem.

Tiago mudou-se lá para casa no início da pandemia. Com a convivência diária a três nasceu a vontade de realizar um documentário que tem, para já, o nome de guerra Eunice ou Carta a uma Jovem Atriz. Avó e neta prestaram-se a viver com uma câmara apontada aos mínimos gestos quotidianos, num registo para memória futura que tanto as mostra a pendurar a roupa como em cima de um palco. Sem problemas. Eunice até encolhe os ombros quando lhe perguntamos:

Aceitou bem a ideia da exposição desse seu lado desconhecido, da mulher para lá da atriz?
Eunice: Como acredito no valor do Tiago, foi fácil chegarmos a um acordo.

E que Eunice vamos nós ver nesse filme?
Vão ver-me a mim, uma mulher igual às outras. Não sou uma diva, nem pensar. Sou só uma pessoa que tem um passado, tem um presente e, quanto ao futuro… não se sabe. O meu sucesso como atriz deve-se, de certo modo, a eu nunca pensar que sou especial. Trabalhei sempre muito e acho que consigo separar o meu papel de atriz do meu papel familiar. Representar foi sempre uma profissão.

Consegue desligar completamente?
Isso é mais difícil, mas faço um esforço para que aconteça, porque não é bom ter a cabeça cheia de representação. Torna-se cansativo, é muita gente [risos].

“Não sou uma diva, nem pensar. O meu sucesso como atriz deve-se, de certo modo, a eu nunca pensar que sou especial”

Eunice Muñoz

Costuma dizer que se revê na Lídia, embora também diga que a Eunice andou mais depressa – estreou-se aos 13 anos, no D. Maria II, e desde então pouco parou.
Revejo-me na sua vocação, mas a sua geração é muito sacrificada porque os tempos mudaram. Eles têm de se defender permanentemente de uma coisa que não havia no meu tempo, que são os falsos talentos. A luta para conseguir ter trabalho é, por isso, maior. E aqueles que não podem passar sem trabalhar acabam por deixar a profissão. É lamentável que se dê papéis a pessoas que não têm nenhuma preparação, em vez de procurarem aquelas que fazem cursos, às vezes até mais do que um. Estas veem-se muitas vezes afastadas, injustamente.

A Lídia também se revê na sua avó?
Lídia: Não dá para comparar, nem vou cair nesse erro. E seria injusto, porque a minha avó é a melhor atriz do mundo.
Eunice: O que faz o amor!

Lídia disfarça as lágrimas e dá a mão à avó, um gesto que já na véspera se repetira várias vezes.

Lídia: É verdade! Mas, se não quero ser comparada, quero absorver tudo o que consigo. Quero aproveitar esta sorte de estar tão perto de uma atriz como a minha avó e de ela estar sempre a ensinar-me. Através da minha avó também conheci uma geração de atores a que dificilmente teria acesso – a Isabel de Castro, a Carmen Dolores, o Ruy de Carvalho… Tudo gente que me ensinou muito, desde pequena.

Aos 15 anos, Lídia decidiu ir estudar teatro e a avó quis assistir ao seu primeiro exercício, para “verificar” se tinha vocação. Foi na Escola de Teatro de Cascais, e para a história de ambas fica que Eunice chorou e disse: “Podes continuar.”

Eunice: Uns anos depois, quando contracenámos, no Teatro Mirita Casimiro, dirigidas pelo mestre Carlos Avilez, correu muito bem, mas tive medo por ela e por mim. Nós, atores, temos sempre medo. Nunca estamos descontraídos.

Que mais a sua avó lhe disse, quando a Lídia começou?
Lídia: “Apaixona-te pela tua personagem, trabalha e estuda muito. O ator está em constante formação. Procura aprender com os outros atores, com os encenadores e os técnicos. E, sobretudo, respeita o teatro.” Isso foi o principal. Nunca me disse “deves fazer assim”, mas também não gosta sempre do que eu faço e não dá palmadinhas nas costas.

A Lídia pertence a uma família de atores, já os seus trisavós tinham trupes de teatro ambulante…
Tanto a avó foi metida sem querer no teatro como eu também fui lá parar sem ter opinião. Eu ia para o teatro com meses, porque a avó levava-me. Como me portava bem e ficava caladinha, aos 2 ou 3 anos dormia nos camarins ou ficava a vê-la no palco. Fomos as duas para o teatro sem pedirmos, mas ainda bem, eu agradeço.

A Eunice também olhava para cima quando olhava para a sua avó Augusta?
Eunice: A minha avó Augusta era uma enorme atriz. Era tão talentosa que tanto fazia drama como fazia autêntica comicidade, e tocava-me especialmente desde pequena. Recordo-me de ir aos gritos e a chorar ao colo de uma empregada por causa de um papel dramático dela. Teria uns quatro anos e tiveram de me levar dali.

Como foi isso de crescer numa trupe?
Vivíamos e fazíamos teatro todos juntos – os meus pais, eu, os meus dois irmãos mais novos, a avó Augusta, o avô Carmo e as minhas tias, que também representavam. Quando era necessário, juntavam-se outros elementos. Recordo-me de andar em tournée, com o teatro desmontável e os cavalos. Hoje não sei se seria possível ter uma trupe, o tempo modificou tudo.

Decidiu despedir-se do teatro neste ano em que perfaz 80 anos de carreira e na companhia da sua neta Lídia. Não vai ter saudades do palco?
Queria que a minha última vez em palco fosse com a Lídia porque ela é muito importante para mim. O teatro sempre foi a minha paixão, mas chegou o momento de o deixar. Fechei esse capítulo na minha vida, não é uma questão de saudades. Já fiz tudo o que tinha de fazer e tive papéis que me satisfizeram muito, como a Zerlina e a Mãe Coragem.

Fez mesmo tudo o que queria? A Censura não lhe deixou um amargo de boca?
É verdade que a minha carreira teria sido mais rica sem a Censura. Às vezes, estávamos dois meses a pôr uma peça de pé, eles assistiam e cortavam o que queriam. Assim. Simplesmente. Era tremendo.

E gosta desta sua sra. Rasch? Tem alguma coisa dela?
Não somos semelhantes, mas não desgosto.
Lídia: Ó avó, olha-me o teu ensinamento! Não era: “Apaixona-te pela tua personagem?” Mas, estou a brincar, percebo o que a avó diz. A sra. Rasch é muito triste. Queremos ser a sra. Rasch ali, em palco, mas não em casa. Em casa, queremos rir.
Eunice: E que me deixem descansar [risos]. As homenagens são agradáveis, mas já não me sinto muito forte.

As datas

A Margem do Tempo está em cena no Auditório Municipal Eunice Muñoz, em Oeiras, até esta sexta-feira, 23, regressando ali para mais apresentações em setembro. Ainda em abril, na segunda-feira, 27, vai até Loulé. E em maio, estará em São Miguel (7 e 8), Gafanha da Nazaré (15), Coimbra (21) e Pombal (29). A 28 de novembro, segue para o Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, onde Eunice se estreou. Recorde-se que esta peça foi encenada pela primeira vez em Portugal em 1978, no Teatro da Cornucópia, com o título Música para Si e interpretação de Isabel de Castro.

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