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O duro (e milionário) divórcio entre um emir e uma princesa

Atualidade

Mark Cuthbert/Getty

Duas juristas de renome protagonizam a batalha legal entre o líder do Dubai e a mulher, exilada em Londres com os filhos. Se a princesa ganhar, abre um precedente no Golfo Pérsico

Clara Soares

Clara Soares

Jornalista

Mais do que um escândalo envolvendo o magnata, a princesa e o alegado amante dela, a crise conjugal entre Haya Bint al-Hussein – filha do falecido rei da Jordânia e meia-irmã do rei Abdullah II, que governa o país atualmente – e Mohammed bin Rashid Al Maktoum, primeiro-ministro dos Emirados Árabes Unidos, tem um impacto político, financeiro e social. A sexta mulher do emir conseguiu fugir para o Reino Unido, pedindo asilo e proteção contra o casamento forçado de um dos seus filhos. Luta ainda para obter o divórcio e a custódia das crianças: Jalila, de 11 anos, e Zayed, de 7.

A representarem as partes nas audiências judiciais, iniciadas a 30 de julho,estão duas mulheres carismáticas e conhecidas tanto pelos honorários de luxo como por delas dizerem maravilhas os clientes satisfeitos, que incluem celebridades dentro e fora da realeza. Fiona Shackleton e Helen Ward são as duas advogadas que protagonizam aquela que pode ser uma das mais dispendiosas guerras jurídicas da História do Reino Unido.

Haya apareceu no Supremo Tribunal de Londres na companhia de Fiona Shackleton, que defendeu Madonna, Paul McCartney e os príncipes Carlos e André nos seus divórcios. Mulher de um consultor financeiro de sangue azul, com quem teve duas filhas e de quem herdou o título de baronesa, a boa aluna da Universidadede Exeter ganhou projeção nos anos 1990 como solicitadora da Farrer & Co., o escritório de advogados que prestava serviços à família real britânica. O fim do casamento entre o duque de Iorque e Sarah Ferguson correu tão bem que o irmão Carlos lhe seguiu os passos e negociou um acordo de 18 milhões de euros com Diana Spencer. Na década seguinte, já com a assessoria jurídica dos príncipes William e Harry e com ligação à Real Ordem Vitoriana, a reputada jurista ganhou mais visibilidade no divórcio litigioso do ex-Beatle Paul McCartney com Heather Mills. O acordo alcançado, no valor aproximado de 26 milhões de euros, bem inferior ao proposto, justificou os honorários de luxo.

A cantora Madonna manteve a sua fortuna quase intacta (mais de 320 milhões de euros) e ficou grata pelo acordo com Guy Ritchie. O cineasta inglês conseguiu 48 milhões de euros graças a outra advogada “de ferro”: Lady Helen Ward (casada com Sir Alan Ward, juiz). É dela que se volta a falar agora, por ser a escolha do emir do Dubai na litigância com a mais jovem das suas mulheres, com quem se casou há 15 anos.
Helen Ward tem credenciais e fama que a tornam uma oponente tenaz. Basta recordar a proeza a que o The Sunday Times se referiu como “enriquecer” Beverley, ex-mulher de John Charman. O magnata do ramo segurador teve de desembolsar 43 milhões de euros por um acordo, “injusto e irracional”, o mais elevado de que havia memória.

A avaliação dos danos financeiros associados ao fim de ligações que envolvem complexidade e valores patrimoniais elevados são águas em que Ward sabe nadar. O Direito da Família é a sua praia, bem como a regulação das responsabilidades parentais. Não foi por acaso que o antigo patrão da Fórmula 1, Bernie Ecclestone, 88 anos, a recrutou para proteger a fortuna quando o casamento acabou: mais de dois mil milhões de euros, boa parte em paraísos fiscais e em nome da mulher, Slavica, com menos 28 anos e mãe das duas filhas do casal. Entre pares, Ward é vista como detentora de uma perspicácia de tigre. O guia das melhores 500 empresas de advogados elegeu-a, no ano passado, como “primeira escolha dos ricos e famosos”. Resta saber como vai terminar este novo duelo Shackleton/Ward.

Poder, dinheiro e segredos
Tudo começou em maio, quando a princesa Haya, 45 anos, deixou o Dubai para se refugiar em Londres com os filhos, levando alegadamente 35 milhões de euros e a intenção de obter proteção da Justiça britânica. Não tardou a que se falasse na luxuosa mansão onde vive, em Kensington, avaliada em 85 milhões de euros, e viessem a público, pelo Daily Mail, rumores de um caso extraconjugal com o guarda-costas Russell Flowers, antigo soldado de infantaria britânico.

Porém, os motivos da fuga parecem ter uma base mais complexa. Além da mulher, outras duas filhas do emir já haviam tentado fugir. O vídeo divulgado na BBC por uma das filhas do magnata,após tentar escapar à tirania do pai no ano passado, compromete a imagem de Rashid Al Maktoum no Ocidente. Latifa, 33 anos, conta como a irmã Shamsa tentou a proeza em 2000 e foi apanhada, dopada e proibida de ter contactos com o exterior. A própria Latifa haveria de o tentar duas vezes: na primeira acabou “presa e torturada durante três anos e quatro meses” e, na segunda, em fevereiro de 2018, contou com o apoio de uma ativista finlandesa e de um ex-espião francês. Estavam num barco, em águas internacionais, quando foram intercetados pelas tropas de elite do Dubai, numa operação rocambolesca. Antes da fuga, Latifa tinha o vídeo, acusando o pai de vários crimes, incluindo homicídio, que a BBC viria a divulgar.

Com formação militar, o líder dos Emirados é detentor de 99,67% da Dubai Holding, possui uma fortuna de vários milhares de milhões de euros e uma fundação com o seu nome que apoia jovens a criar soluções sustentáveis no mundo árabe. Amante da caça e de cavalos, o emir tem um património considerável em Inglaterra e um dos maiores estábulos de corridas em Newmarket. É pai de, pelo menos, 23 filhos.

A fuga da mais recente esposa, com quem se casou em 2004, por temer pela sua segurança, está a gerar ondas de choque no xadrez internacional – o casal é amigo da rainha de Inglaterra e as audiências em tribunal podem comprometer as relações entre a Jordânia e os Emirados, aliados dos Estados Unidos da América no Médio Oriente.

Versado em literatura, o marido enfurecido publicou um poema nas redes sociais aludindo à traição e partilhou um vídeo na companhia dos netos, enquanto era contestado por ativistas de Direitos Humanos que exibiam cartazes à porta do tribunal londrino. Haya, que está longe de corresponder ao perfil de mulher submissa, licenciou-se na Universidade de Oxford, foi embaixadora da paz nas Nações Unidas, atleta olímpica de hipismo (chegou a representar o seu país nos Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000)e presidiu a Federação Equestre Internacional, sendo a primeira mulher na Jordânia com carta de veículos pesados para transportar os seus cavalos. Pelas suas implicações internacionais, este é um caso que vai dar ainda muito que falar.

Jogo de Damas no xadrez real

Quem são as ladies que jogam para ganhar na barra do tribunal e se fazem cobrar pelo valor que quiserem, nunca inferior a 700 euros à hora, sem extras

Fiona Shackleton
“Magnólia de Aço”
63 anos, formada na Universidade de Exeter

Baronesa de Belgravia e parlamentar do Partido Conservador
Conhecida pelo charme e pela determinação
Clientes: Príncipes Carlos e André (duque de Iorque), Paul McCartney, Madonna

Helen Ward
“A grande dama dos divórcios”
68 anos, formada na Universidade de Birmingham “A primeira escolha dos ricos e famosos”
Conhecida pela inteligência e pela ética

Clientes: Guy Ritchie, Bernie Ecclestone, Beverley Charman, Ian McEwan