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O que esperar do novo livro da rainha do “porno para mamãs”, numa conversa com E. L. James

Sociedade

Lucilia Monteiro

A escritora inglesa E. L. James, autora de As Cinquenta Sombras de Grey, bestseller erótico com práticas sadomasoquistas, fala à VISÃO, num exclusivo para Portugal, do seu novo romance, na mesma linha do “picante pop” a que já nos habituou

Clara Soares

Clara Soares

Jornalista

Goste-se ou não, a narrativa que vendeu mais de 125 milhões de exemplares, que foi publicada em cinco dezenas de línguas e se converteu num sucesso de bilheteira à escala global será lembrada como um clássico de picante pop, amado por muitos – dizer muitas será mais correto – e alvo de críticas também. Falar de As Cinquenta Sombras de Grey era equivalente a ser adepto da literatura de cordel, não se importunar com a linguagem básica nem com o enredo povoado de clichês. A obra dava o que prometia: incontáveis cenas de sexo explícito e fantasias que não têm lugar no chamado “sexo baunilha”.

Há sete anos, Erika Leonard Mitchell, ou melhor, E.L. James, não imaginava então que iria tornar-se um fenómeno e, menos ainda, ser considerada uma das 100 figuras mais influentes do mundo pela revista Time. Acontecimentos deste calibre podem levar o maior gigante a sentir-se pequeno, um pouco como aconteceu à personagem Anastasia Steele, a jovem e inexperiente estudante-trabalhadora, quando descobre estar apaixonada pelo sombrio e enigmático Christian Grey, macho alfa bilionário com uma mente atormentada e uma iniciação sexual obscura que faz dele um disciplinador implacável nos jogos da vida privada.

Quando mergulhou na escrita das quase duas mil páginas da sua obra seminal, E.L. James era conhecida no universo da fan fiction pelos textos de teor sexual em torno da saga dos vampiros, da norte-americana Stephenie Meyers (Morgan, o seu verdadeiro apelido), que incendiava as redes sociais. Assinando como Snowqueens Icedragon, a produtora de televisão, casada e mãe de dois rapazes, estava em plena crise de meia-idade quando aceitou o convite de uma editora australiana para escrever um livro digital. Daí ao estrelato foi uma questão de semanas. Com o legado de fãs que já tinha, mais os que viriam depois, a autora bateu a carismática série de livros Twilight em vendas e nunca mais parou.

Nascida há 56 anos no condado de Middlesex, a mulher que contribuiu, e muito, para agitar as águas dos hábitos conjugais vive num bairro chique de Londres com o argumentista de televisão e também escritor Niall Leonard, com quem já leva 32 anos de matrimónio. Define-se como uma pessoa gregária e uma romântica incurável, que acalenta, desde criança, o sonho de escrever uma bela história de amor. Tinha apenas 11 anos quando começou a cultivar o hábito da escrita, tendo cedo percebido que as suas composições eram das mais lidas na sala de aula. Poucos anos depois, levou o passatempo mais a sério: “Ia para a quinta de uma amiga, na Cornualha (um dos cenários onde decorre o novo romance) e costumávamos ler e escrever uma para a outra.” Há muito que a escrita deixou de ser um hobby e se assume na sua vida como um exercício solitário que exerce com afinco.

Sensualidade rosa

Ei-la, mais uma vez, em plena digressão do novo livro, O Senhor (editora Lua de Papel, 488 págs., €18,90), que chegou no mês passado ao público português. O local escolhido para dar entrevistas foi o Union Club, no icónico bairro londrino de Soho. Trata-se de um edifício com decoração clássica e intimista, criado há 25 anos por um chefe de cozinha e um homem da indústria petrolífera, sendo hoje cenário para eventos culturais. A hora de almoço aproxima-se mas, no andar de cima, prossegue a ronda de entrevistas exclusivas, contadas ao minuto, com jornalistas de várias nacionalidades.

Recém-regressada de Los Angeles, na Califórnia, onde tem uma segunda casa, E.L. James recebe-nos com um sorriso rasgado e indumentária casual (ou talvez não). Sob o casaco e calças pretas, exibe uma peça rosa-choque, a cor dominante no site da bestseller, também conhecida por não gostar de dar entrevistas nem falar de dinheiro. A ideia, avisam os agentes, é centrar a conversa no livro e, compreensivelmente, ter o cuidado de não ser spoiler. A sensação de estar frente a frente com a autora de ficção erótica e histórias de encantar é comparável à que pode suscitar um evento de speed dating, com a diferença de que, neste caso, se tem à frente uma celebridade com milhões de fãs.

Volumosa, à semelhança das anteriores, a obra faz um corte com a trilogia Fifty Shades, apresenta personagens novas e propõe-se ser “uma história da Cinderela para o século XXI”. A foto que está na capa do livro, na sugestiva e sedutora área do Chelsea Embankment, junto ao rio Tamisa, é da autoria da própria escritora. O título está escrito a rosa; a cor insiste em aparecer, de novo, na narrativa, desta vez numa peça de roupa íntima. A fazer jus ao registo a que nos habituou, a palavra fuck aparece na boca e no discurso interno das personagens vezes sem conta, mas não necessariamente com conotação sexual, como fez saber, quando questionada sobre isso. Como exemplo, refere os tempos em que trabalhava nos média e situações como aquela em que leu, num artigo do The New York Times a seu respeito, que era uma “profanadora informal” (casually profane). “Fartei-me de dizer fuck!” O mesmo se aplica a questões como o Brexit – “Um grande erro!” –, que tira do sério esta europeia convicta e a favor da permanência do Reino Unido na UE.

Lançado a 28 de maio em Portugal, 'O Senhor' conta a história de uma paixão entre um lorde e uma empregada doméstica

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O aristocrata e a Cinderela

Voltando ao livro, O Senhor (The Mister, no original) é, nas palavras da escritora, “um romance provocador”, que tem a intenção de produzir o efeito de virar de página automático, ou seja, que os leitores acabem um capítulo na expectativa do que vem a seguir. A ação decorre entre o Reino Unido e os Balcãs. Ou entre Londres, a Cornualha e Kükes, na Albânia, e não faltam menções a detalhes da vida de qualquer cidadão digital, rico ou pobre: Tinder, Uber, Netflix, HBO, ambiências musicais (listadas no final, havendo já uma playlist no Spotify, talvez a pensar já na adaptação ao cinema).

Há um nobre de 28 anos, corpo atlético, alto, magro e com olhos verdes, um título e uma herança que o jovem não está preparado para assumir, e uma dor inconfessável, aliviada à conta de sexo casual e uma vida desregrada. Maxim Trevelyan, 13º conde de Trevethick, dono e senhor de propriedades na Cornualha, em Londres, Oxfordshire e Northumberland, debate-se, de um momento para o outro, com um sentimento que desconhece, através da sua tímida, linda empregada albanesa, cujo invulgar talento para a música só vem dar mais sedução à personagem de Alessia Demachi, 23 anos, por quem o “herói” arde de desejo, algo que procura conter a todo o custo, à medida que se apaixona por ela.

Levará alguns capítulos até que se perceba o segredo perigoso e perturbador guardado pela imaculada jovem, que nunca foi beijada, nunca viu o mar e nem sequer conhece o sabor de champanhe. Maxim, a quem ela trata por senhor, naquela fase da sua misteriosa vida – e são dadas algumas pistas logo no prefácio –, desconhece a sociedade conservadora e patriarcal de onde ela veio, tal como Alessia não faz ideia de que ele é mais do que o seu patrão do momento, com quem sonha acordada, no meio das operações de arrumação e limpeza.

O triunfo da tradição

Pelo meio, entramos na cabeça e nas conjeturas das personagens e conhecemos as paisagens de dois países com diferenças assinaláveis, semelhantes àquelas que separam o par romântico e funcionam, simultaneamente, como ímanes que o atraem. Não ficamos imunes aos momentos de suspense, às cenas que envolvem perseguições, fugas, armas, segredos de família, conflitos, violência e, claro, às descrições de fantasias sexuais, de momentos eróticos, ingredientes indispensáveis para fazer sonhar e despertar a libido sem, contudo, abandonar os clichês de género.

Nesta ponte entre dois mundos, culturalmente tão díspares, o fascínio reside nos picos de alta voltagem e na forma de lidar com eles, seja na vertigem do desejo que se preserva sem consumar, ou no mergulho da descoberta das profundezas de cada um daqueles seres, a braços com desafios de vida em que o outro tem uma função-chave. Como não podia deixar de ser, há dores de crescimento inevitáveis, rituais de passagem que envolvem uma certa noção do que é ser homem. E é fácil identificar-se com a vontade de soltar amarras, lutar pela liberdade, a própria identidade e correr atrás do sonho. Em todos estes casos, impõe-se o mesmo desafio: sair da zona de conforto e confiar no estranho. Crer no impossível e só assim derrubar barreiras.

Mais do que uma história de encantar entre homem rico e menina pobre e do seu amor impossível, condenado a fracassar por quebrarem a tradição e não serem da mesma classe social, O Senhor fala de um relacionamento transcultural. Ou não fosse a sua autora filha de pai escocês e mãe chilena. Acaso ou coincidência, o livro é dedicado à tia chilena Elba, uma anciã com mais de noventa anos, presença constante na vida da pequena Erika e da grande E.L. James. Ou não fosse ela a mulher que transformou o seu passatempo numa mina de ouro, sendo agora senhora de uma fortuna avaliada em 130 milhões de euros. E agora? O que faz nos tempos livres? “Pois, ando a pensar nisso. A escrita era o meu passatempo, mas já não é!”, ri-se.

Lucilia Monteiro

“Faço tudo por uma boa história de amor”

No novo romance, O Senhor, há um jovem aristocrata, uma (ainda mais) jovem empregada doméstica e um segredo que vai mudar a vida de ambos, mas não só. Ouçamos E.L. James e o que tem para dizer sobre Maxim e Alessia e, já agora, acerca de si

O seu novo romance é uma história de amor para o século XXI com um toque de Downton Abbey?
Eu disse que era uma história de Cinderela para o século XXI e o jornalista do The New York Times avançou essa ideia. Confesso que não vi muito da série, mas gostei do pouco que vi e acho que faz sentido. Penso que Downton Abbey tem nuances semelhantes às deste livro.

Ainda mantém a ideia de ser uma romântica incurável?
Definitivamente. Faço tudo por uma boa história de amor. Contudo, já perguntei ao meu marido: “Tu achas que sou romântica?” E ele olhou para mim e exclamou: “Não!” [Solta uma gargalhada.]

Estava na crise da meia-idade quando decidiu escrever uma história de amor sadomasoquista. Este romance foi inspirado em algum evento da sua vida?
Não sei exatamente como me ocorreu. As ideias que me surgem costumam partir de coisas muito simples. Em Cinquenta Sombras de Grey, a pergunta foi: como seria apaixonar-se por alguém com um estilo de vida muito singular? No novo romance, pensei: e se um homem se apaixonar pela sua empregada doméstica? A partir daí, a história foi-se desenvolvendo na minha cabeça.

Este amor é transcultural. Isso tem que ver com a sua história familiar, já que tem mãe chilena e pai escocês?
[Pausa] Nunca tinha pensado nisso, mas agora que o refere… é possível. Talvez haja um elemento comum, embora a Albânia e o Chile não tenham assim tantas coisas em comum. Vou precisar de pensar melhor no assunto. De facto, há um elemento de transculturalidade nos meus pais.

Sobre as personagens e os nomes delas: Alessia, Maxim, Dante…
Os nomes importam. Para mim, Christian e Anastasia são nomes sexy, Maxim e Alessia são nomes muito sexy. Os leitores não vão ler um romance em que o nome das personagens é de fazer perder a pica. Lembro-me de começar a ler um livro e ao tropeçar num tal de Simon, concluir: “Lamento, não dá.” Pode parecer disparatado, mas não é. Passo muito tempo a pensar neles e a escolhê-los.

Como é o processo criativo? Segue um método específico?
Começo de manhã a editar o que escrevi na véspera. Gosto de escrever cerca de duas mil palavras por dia, às vezes escrevo mais, outras menos, depende também da agenda que tenho nesse dia.

A escolha da Cornualha e das montanhas dos Balcãs como cenários do livro teve alguma intenção?

A Cornualha tem paisagens lindas e selvagens, tem um mar tempestuoso e gaivotas, que contrasta com Kükes, um oásis de calma situado na Albânia, com edifícios construídos nos anos 1970, onde é notória a influência soviética.

Quanto tempo passou lá, para a sua pesquisa literária?

Eu tinha já escrita uma versão em bruto, datada de 2009, e sempre que voltava a ela acabava por reescrevê-la vezes sem conta. Por não ter encontrado muita coisa escrita sobre o país, decidi ir lá, andar nas ruas e sentir os sítios. É um dos países europeus onde há mais cidadãos a viver fora do país do que dentro dele.

A missão do belo aristocrata é deixar de ser Peter Pan e proteger a sua dama?
Ele vai ter de aprender apenas a ser o protetor e a assumir a responsabilidade de todas as consequências que advêm do seu novo título (conde).

O título do livro refere-se ao senhor (mister), não ao amo (master), certo?
Há uma ironia na palavra. Ele é efetivamente um lorde mas ela trata-o por senhor (mister), porque desconhece quem ele é realmente.

De que fala quando apresenta a sua escrita como “romance provocador”?
Espero que aquilo que escrevo produza o efeito de virar de página automático e que os leitores acabem um capítulo na expectativa do que vem a seguir.

Embora desafie as fronteiras culturais e geográficas, o amor entre homem rico e jovem pobre corre o risco de reforçar estereótipos, em tempos de #MeToo?
As pessoas podem amar-se e transcender diferenças de qualquer espécie. Se o que escrevo esbarra com ideias restritivas do tipo “não podes fazer isto nem escrever aquilo” e eu decidir escrever sobre o que eu quiser, isso é uma atitude feminista. Os outros também podem reagir como entenderem.

A VISÃO viajou a convite da editora Lua de Papel (Leya)

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