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O sítio mais bizarro que conheci

Talvez este pequeno recanto do universo seja apenas uma miniatura do mundo em que vivemos – uma imagem daquilo em que em breve o planeta Terra se vai tornar, enquanto continuamos alegremente a esgotar os seus recursos naturais

Uma série de tabuletas indica as distâncias a outros lugares do mundo. Começa aqui o sentimento de irracionalidade e de estranhamento para quem visita a célebre ilha da Páscoa. As tabuletas dizem-nos que o ponto continental mais próximo, algures na costa do Chile, está a 3 700 kms. O Tahiti está a 4 250 kms e o Havai, a 7 800 kms. A primeira sensação que me incomoda na ilha da Páscoa é a imensa solidão que nos rodeia. Este é um dos lugares do planeta mais afastado de qualquer outro lugar, um dos pontos onde a interdependência da nossa espécie é mais evidente. Se houvesse um colapso no sistema dos meios de comunicação modernos, eu estava desgraçado.

O lugar mais provável de onde terão saído os colonizadores polinésios que povoaram a ilha da Páscoa é o arquipélago das Marquesas, a 3 200 kms. Navegando em canoas rudimentares, tendo como único instrumento náutico a própria intuição, bebendo a chuva e comendo coisas do mar, completaram uma travessia impressionante que nos faz meditar na resiliência humana mas também na sua fragilidade. Quantas expedições polinésias semelhantes terão desaparecido no meio do imenso Pacífico, engolidas pelas ondas ou dizimadas pela fome e pela deriva, sem que nenhum registo delas lhes tenha sobrevivido? É outra noção que me incomoda aqui, a do provável custo humano do povoamento deste lugar.

Os europeus descobriram a ilha da Páscoa precisamente no dia de Páscoa de 1722. Os autóctones certamente desconheciam a palavra Páscoa tal como desconheciam a religião que a celebra, mas não se sabe muito sobre a designação que atribuíam ao seu pequeno recanto do universo. Etimólogos sugeriram várias teorias para o nome original da ilha, entre eles o de Rapa Nui, que queria dizer “Grande Rocha”, o de Te Pito o te henua, que significaria “Umbigo do Mundo”, ou ainda o de Mata ki te rangi, que seria “Olhos Virados para o Céu”.

A questão da origem do nome é apenas um dos pontos de indefinição da identidade dos habitantes actuais. Porque vieram aqui parar os seus antepassados? Que religião tinham? Para quê a edificação de centenas de moai, as silenciosas e perturbantes estátuas da ilha? Fico a pensar no que seria viver sem saber quase nada dos meus antepassados, dos mitos fundadores do meu país e das voltas do destino que levaram a minha nação a ser o que é hoje. Para agudizar a tremenda crise de identidade deste povo, acresce o genocídio natural que dizimou a população após o contacto com doenças europeias, tais como o sarampo e a tuberculose. E talvez por isso eu tenha sentido um ressabiamento subliminar e uma agressividade latente nos poucos habitantes que conheci.

Não sabemos quase nada do que foi a vida nos séculos da ilha da Páscoa, mas uma coisa hoje sabemos bem: na altura da chegada dos europeus, o ecossistema estava no orlo de um colapso ecológico. A construção dos moai tornara-se a principal obsessão da comunidade que, para os erguer, dizimara a floresta indígena. O solo, como consequência, empobreceu, o clima sofreu alterações por falta das árvores, a chuva escasseou e os habitantes perderam o material necessário para a construção de barcos de pesca. A fome e a guerra civil tinham reduzido a população a um quinto do valor alcançado nos séculos anteriores.

Afinal, talvez este pequeno recanto do universo não seja o sítio mais bizarro onde estive. É apenas uma miniatura do mundo em que vivemos – é uma imagem daquilo em que em breve o planeta Terra se vai tornar, enquanto continuamos alegremente a esgotar os seus recursos naturais para erguermos os nossos monumentos à estupidez humana, tal como os habitantes da ilha da Páscoa ergueram os seus.