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Quando eles ficam “chateados” com a rejeição sexual delas. Como é que se mede a masculinidade?

Sociedade

Ana Alexandra Carvalheira

Getty Images

Um homem com a sua masculinidade bem colocada, pode ter medo, insegurança, e falhas eréteis. As mulheres heterossexuais não querem machos incompetentes emocionais, apesar das suas lindas performances sexuais

A cena é heterossexual, trivial e lamentável. Ela não gostou da desatenção dele naquela noite. Não gostou do tom acusatório nem da agressividade das palavras na conversa a caminho de casa. Nessa noite ele quis sexo. Ela não. Ele sentiu a excitação ao contacto com o corpo dela. Ela não. Ela queria dormir e esquecer-se da conversa Ela disse-lhe: “Não me apetece fazer amor contigo porque foste desagradável” e explicou-lhe a razão. Este homem ficou “chateado” e amuou. Ainda lhe respondeu com mau tom, “Não percebo porque vieste nua para a cama”. Como se isso fosse garantia de sexo, só porque lhe apetecia e ela estava nua. Às cinco da manhã, amuado e sem conseguir dormir, este homem disse-lhe “Não pode ser sempre tudo como tu queres!”. A sério…? Mas… quem estava a ser contrariado era ele. A coisa não estava a ser como ELE queria. Mas ainda assim, descontrolado, ele arremessou essa expressão explícita controlo e domínio, ou melhor, de quem teme perder o poder. Ele fica irritado com a rejeição sexual da parceira, como se fosse algo que não é suposto acontecer. Esta “nega” sexual fere a sua virilidade e ameaça o seu poder. No dia seguinte o humor dele estava péssimo. Ela percebeu, acontecia muitas vezes. O dia apresentava-se difícil. Ela pensou que teria que o fazer mais cedo ou mais tarde, para a paz de todos. O sexo ia ser para ela uma obrigação e fazendo-a sua, ia cumpri-la.

É uma história comum no cenário heterossexual, numa sociedade patriarcal ainda povoada de “machos latinos”. Podemos rapidamente puxar da interpretação mais fácil. Homens machistas, mulheres submissas. Mas não é sempre assim tão simples e linear. Esta mulher tem que aturar o mau humor do senhor seu companheiro, depois violenta-se ao fazer uma coisa que não quer fazer, e ainda acaba a sentir-se culpada e uma incompetente sexual por não ter aquela performance que ele gostaria que ela tivesse e que a um nível menos consciente ela acha que deveria ter. Para muitas mulheres esta realidade é obsoleta e inaceitável mas, muitas outras ainda ficam enredadas na sua própria culpa e sentimento de incompetência, e na infantilidade e machismo dele. Para alguns homens e mulheres, isto não faz sentido nenhum e ainda bem. Estes últimos podem abandonar aqui a leitura.

Para os que continuam, devo fazer uma ressalva. Não estou a falar de mulheres que nunca ou quase nunca querem sexo. Não estou a falar dos homens que gostariam de ter mais actividade sexual com as suas parceiras que perderam o interesse sexual ou abdicam da sexualidade e por isso estão sempre a fugir ou a evitar o encontro sexual com ele (vão para a cama mais cedo, ou mais tarde, fingem uma dor de cabeça, mais uma, etc). Estou a falar da atitude dominadora e opressora de alguns homens, e da falta de liberdade de algumas mulheres, muitas vezes decorrente - causa e consequência - da desigualdade de género e da falta de respeito pelo outro. Esta pequena história é banal e constitui apenas um exemplo. Infelizmente os exemplos multiplicam-se e ampliam-se numa escalada de violência.

Ele “perdeu a cabeça” e empurrou-a contra a parede ou contra outra coisa qualquer, agarrou-a pelo braço e obrigou-a a sentar-se para o ouvir, “porque tu nunca me ouves!” (sem nunca ter pensado que ela já não o quer ouvir). Não a deixou sair do quarto, impediu-a de sair de casa naquele momento. Tentou ter sexo com ela a meio da noite, forçando-a fisicamente. Estas mulheres, independentemente do seu nível educacional, que é elevado em muitas delas, sentem-se envergonhadas e embaraçadas, a pensarem que isto nunca lhes iria acontecer. Já ouvi um homem “evoluído”, que até reconhece a sua “imbecilidade” (como ele descreve a sua atitude machista), dizer à sua parceira “Se queres ajudar-me e evitar a minha imbecilidade, não vistas essa saia curta, porque sabes que eu posso reagir mal…”. A sério...? Ainda estamos aqui? Ainda estamos nesta ideia horrorosa de que a mulher deve ter cuidado com aquilo que veste para não “provocar o homem”? Para muitas mulheres e outros tantos homens, esta afirmação é inaceitável. Mas para outras quantas mulheres e homens é uma frase vulgar, compreensível e tolerável, que não levanta nenhum celeuma. Estes últimos que são ainda muitos, dão força ao discurso social que legitimiza e desculpabiliza a violência contra a mulher. Aquelas horrendas afirmações do tipo “Ele é assim mas gosta dela… gosta à maneira dele… só não sabe demonstrar”, entre muitas outras. Ainda existe essa tendência a justificar comportamentos que podem ter vários graus de gravidade, desde o banal comentário ou anedota machista, passando pela cena de ciúmes e possessividade, até ao crime de violência doméstica ou homicídio. O que está na base é um patriarcado de machos dominadores com estratégias de poder e controlo sobre as mulheres. Muitos deles, são homens que se sentem diminuídos, e que nunca souberam nem saberão partilhar o poder numa relação paritária com uma mulher.

Que sentido de masculinidade é este? Uma masculinidade hegemónica - e heteronormativa - que posiciona o homem como dominador e agressivo em relação a uma sexualidade feminina passiva e casta.

O homem preocupado com a sua masculinidade, precisa aprender que esta não se mede pelo domínio que exerce sobre a mulher. Este homem precisa aprender que a sua masculinidade não se mede pela sua agressividade, nem pelo número de mulheres com quem já teve sexo, nem pelo tamanho do pénis, nem pelas lágrimas que não chorou (porque um verdadeiro homem não chora). Ele deve aprender que partilhar o poder com a parceira não diminui a sua masculinidade. Um homem com a sua masculinidade bem colocada, pode ter medo, insegurança, e falhas eréteis. As mulheres heterossexuais não querem machos incompetentes emocionais, apesar das suas lindas performances sexuais. As masculinidades baseadas no exercício do poder e do domínio do outro, são odiosas e um verdadeiro turn off.

Falamos também do duplo padrão de moral sexual, segundo o qual o homem é activo e a mulher é passiva, o homem tem mais desejo, e a mulher deve satisfazer esse desejo. São ainda as relíquias da herança cultural Judaico-Cristã. Tudo isto está a mudar. O duplo padrão está a diluir-se, o binómio de género está ultrapassado, proclama-se a diversidade, mas as mulheres continuam a sofrer atitudes dominadoras, opressivas e agressivas. O “machismo” está a desaparecer mas as mulheres continuam a morrer. No relatório da APAV* de 2017 no perfil geral da vítima, 83% é do sexo feminino. De acordo com os perfis baseados nos relacionamentos heterossexuais de cariz amoroso, houve 285 vítimas homens e 3,558 vítimas mulheres. Entre as vítimas de crimes sexuais, 85% são do sexo feminino. Entre as vítimas de stalking 99% são do sexo feminino. Em 2018 já foram assassinadas em Portugal 24 mulheres em contextos de intimidade com o agressor. Nos últimos 14 anos registaram-se 488 vítimas mortais no total, deixando mais de 1,000 crianças órfãs.

E porque 25 de novembro foi o Dia Internacional para a Erradicação da Violência Doméstica, foi lançada em Portugal uma campanha que apela à denúncia deste crime. "A violência doméstica é crime público. Denunciar é uma responsabilidade colectiva. Ligue 800 202 148"

* Associação Portuguesa de Apoio à Vítima. Uma instituição particular de solidariedade social, de âmbito nacional fundada em 1990, dá apoio aos cidadãos vítimas de infrações penais. Linha de apoio à vítima: 116 006 (chamada gratuita)

Ana Alexandra Carvalheira

Ana Alexandra Carvalheira

AMOR E SEXO

Ana Alexandra Carvalheira, é psicóloga clínica, licenciada pela Universidade de Cpombra e doutorada pela Universidade de Salamanca. É professora e investigadora no William James Center for Research, ISPA – Instituto Universitário. Realiza investigação na área da sexualidade, aliada à prática clínica que mantém desde 1997. É Terapeuta Sexual formada pela Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica em 1997, da qual foi presidente em 2013/14. É membro da International Academy of Sex Research e tem dezenas de artigos publicados em revistas científicas internacionais. O que mais gosta é do trabalho clínico com os clientes, onde mais aprende e de onde retira as questões que quer investigar. www.anacarvalheira.com