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Tolentino Mendonça: O poeta que o Papa quis ouvir

Sociedade

Marcos Borga

Convidado a orientar o retiro espiritual da Quaresma de Francisco e dos seus colaboradores, o português respondeu dizendo “sou apenas um pobre padre” e acabou a citar Pessoa. Agora, foi ordenado arcebispo pelo Papa Francisco e vai ser arquivista e bibliotecário da Santa Sé

Uma única vocação

Aos 16 anos, teve o primeiro encontro poético com a palavra ao ler Herberto Helder (madeirense como ele), mas começara a escrever bastante antes. Adolescente, descobria que a poesia, como a vida religiosa, é uma vocação única. 
Em 1990, publicou o livro de poesia Os Dias Contados e foi ordenado padre. O poema A Infância, de Herberto Helder, que é na verdade sobre ele próprio, traz berlindes ordenados sobre a erva, relatórios sobre o silêncio e Deus pelos baldios.

Elogio da sede

Aos 52 anos, é também vice-reitor da Universidade Católica, diretor do Centro de Investigação em Teologia e Estudos de Religião, e consultor do Pontifício Conselho para a Cultura da Santa Sé. Quando o Papa o convidou para orientar o retiro espiritual da Quaresma, respondeu “sou apenas um pobre padre” e acabou a propor dez meditações sobre a sede, “um tema bíblico que nos ajuda a ficarmos sintonizados com a vida de todos os dias”, escreveu no site da Pastoral da Cultura. “Interessa-me sobretudo uma espiritualidade do quotidiano.” Durante uma semana, recorreu à Bíblia, a Pessoa, a Roland Barthes e a Clarice Lispector, entre outros. 
“Os escritores são mestres espirituais importantes”, lembrou.

A avó-biblioteca

José Tolentino Calaça de Mendonça tinha 9 anos quando encenou a despedida de Angola. Abraçou--se ao cão e quis chorar, contaria já adulto, porque regressava à Madeira, terra que nada lhe dizia. 
A dor era verdadeira, 
as lágrimas 
nem por isso. 
“A mudança teve um dramatismo mais literário do que literal”, disse numa entrevista a Anabela Mota Ribeiro. Ao desembarcar, a ilha mesmo no pós-25 de Abril pareceu-lhe de uma pequenez opressiva. Habituado a espaços de brincadeira enormes, valeram--lhe as histórias da avó materna 
– “a minha primeira biblioteca”. Dois anos depois, ainda um miúdo inconsequente, entrou no seminário e numa biblioteca a sério.

Entre aulas e missas

Depois de ordenado padre, fez o mestrado em Roma e, de regresso a Lisboa, foi nomeado capelão da Universidade Católica. Ali deu aulas, doutorou-se e continuou a contaminar tudo aquilo em que se envolvia com a sua poesia. Especialista em Estudos Bíblicos, desde cedo mostrou ser capaz de traduzir a tradição da Igreja para a linguagem atual. Talvez por isso a Capela de Nossa Senhora da Bonança, conhecida como a Capela do Rato, onde é capelão, seja procurada por pessoas que não tinham por hábito ir à missa.