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Cientistas chineses clonam cão geneticamente modificado para encontrar cura para a aterosclerose

Sociedade

Reprodução CNN

Longlong parece mas não é um beagle igual aos outros. Ou melhor, é mesmo igual a um em particular: É um clone de um outro, por sua vez geneticamente modificado para desenvolver problemas ao nível da coagulação sanguínea. Uma investigação que tem levantado diversos problemas éticos

Cátia Leitão

A Sinogene, uma empresa de biotecnologia em Pequim, tem vindo a clonar cães para mais tarde usá-los em investigações científicas. "Os cães partilham as mesmas doenças hereditárias que os seres humanos, o que os torna os melhores modelos para estudar doenças", justifica Feng Chong, diretor técnico da companhia, à CNN.

Longlong é um beagle, nascido em maio deste ano, clonado a partir de Apple, geneticamente modificado para ter colesterol, uma das causas de aterosclerose, uma doença vascular crónica e progressiva que ocorre quando o material adiposo se acumula e engrossa as paredes das artérias, o que pode provocar AVC e doenças cardíacas.

A partir de Longlong, os cientistas da Sinogene esperam conseguir estudar a doença e encontrar possíveis curas.

Além de Apple e Longlong, a empresa tem mais dois cachorros geneticamente similares - Xixi e Nuonuo. Os quatro cães vivem nas instalações da Sinogene e não podem sair. São mantidos dentro de uma pequena sala para que possam ser monitorizados com frequência. Mais cedo ou mais tarde, os quatros animais vão começar a demonstrar sinais da doença e podem ter uma morte prematura. No entanto, os investigadores afirmam que tratam os animais com "carinho e respeito". Mi Jidong, diretor geral da Sinogene, acrescenta que na firma "todos adoramos estes cachorros, eu venho ver se eles estão bem assim que chego ao trabalho".

Mi Jidong diz que até à data nenhum dos animais revelou sintomas da doença. No entanto, toda esta investigação tem levantado questões éticas e tem sido alvo de várias críticas por parte da PETA, organização que se dedica à defesa dos direitos dos animais. Citada pela CNN, a organização classifica a investigação da Sinogene como "antiética" além de referir que "a clonagem além de ser bastante dispendiosa, é também inerentemente cruel". A PETA defende que modelagem em computador e uso de amostras de tecido humano seriam "igualmente eficazes" e que "a grande quantidade de dinheiro usado para clonar poderia ajudar a salvar milhões de gatos, cachorros e outros animais de companhia que são sacrificados em abrigos todos os anos porque não há casas suficientes para eles".

Estima-se que na China, existam 20 milhões de animais por ano em laboratórios, na maioria ratos, para ser testados. Além das questões éticas, estes números levantam ainda questões legais. Deborah Cao, autora do livro "Animais na China: Lei e Sociedade", diz que o bem-estar animal no laboratório é uma das poucas áreas de pesquisa científica protegidas por lei. No entanto, a aplicação e transparência sobre o tratamento dos animais de laboratório é irregular.

Segundo a Sinogene, Longlong é o primeiro cão clonado de um dador geneticamente modificado e também o primeiro clone criado através da combinação de duas tecnologias diferentes: uma ferramenta de edição de genes chamada CRISPR e outra de clonagem de células somáticas - o método usado na clonagem da ovelha Dolly. A China espera assim igualar a Coreia do Sul na tecnologia de clonagem canina.