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Os tremores de Merkel e o tabu das doenças dos políticos

Mundo

Michele Tantussi/ Getty Images

As misteriosas tremuras da chanceler provocaram um animado debate: os titulares de cargos públicos podem invocar a privacidade ou devem respeitar o direito à informação e revelar os seus eventuais problemas de saúde?

A mais poderosa e longeva líder da Europa cumpriu no dia 17 de julho, 65 anos. No entanto, pela primeira vez em três décadas de vida pública, os alemães manifestam sérias dúvidas sobre o estado de saúde da antiga académica que se doutorou com uma tese sobre física quântica. A idade não perdoa e Angela Merkel exibiu em junho e julho, em três ocasiões diferentes, sinais de extrema debilidade física, tremendo de forma incontrolável. Doença neurodegenerativa, fadiga e ansiedade acumuladas ou qualquer outra coisa sem grande importância?

A chanceler tem feito um enorme esforço para desvalorizar o assunto e, talvez para tentar explicar de forma simples o que lhe aconteceu, voltou a comparar-se com o mais conhecido animal do deserto: o camelo. O facto de dormir poucas horas por noite, após longas e desgastantes jornadas de trabalho, e sobretudo de não ingerir líquidos em quantidade suficiente podem justificar o que ocorreu, por exemplo, a 18 de junho, quando teve a primeira crise de tremuras, ao lado do Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenski. Nesse dia, quando os hinos germânico e ucraniano começaram a tocar, o Sol estava a pique e faziam-se sentir 29 graus em Berlim. Daí que as declarações feitas pela própria, nessa mesma tarde, fossem bastante verosímeis: “Estou bem, bebi três copos de água – pelos vistos era o que eu precisava.”

Especulações e sondagens

Só que o segundo episódio de tremuras, a 27 de junho, já não se registou ao ar livre. Sob o ar condicionado do Palácio de Bellevue, igualmente na capital do país, e a meio do discurso de Frank-Walter Steinmeier, o Presidente da Alemanha, na cerimónia de posse da nova ministra da Justiça, Christine Lambrecht, a chanceler acabou por tornar-se o centro das atenções: durante quase dois minutos, os seus braços e pernas mexeram-se de forma descoordenada, como se estivesse à beira de um ataque de epilepsia. Uma assessora ainda lhe ofereceu um copo de água mas ela recusou, já com os braços cruzados e com as mãos bem agarradas aos cotovelos, como que para disfarçar o incómodo. No entanto, algumas horas depois, apareceu no Bundestag (a câmara baixa do Parlamento) como se nada fosse, sorridente e em amena cavaqueira com o social-democrata Olaf Schulz, o vice-chanceler.

O caso deu logo origem a todo o tipo de especulações e os alemães perceberam que algo de estranho se passava com a mulher que sempre demonstrou ter uma saúde de ferro e que é conhecida, em Bruxelas, por nunca se desconcentrar face aos seus congéneres europeus nas maratonas negociais que se prolongam madrugadas fora. Ao terceiro incidente, a 10 de julho, ao lado do seu homólogo finlandês, a polémica sobre as capacidades de Angela Merkel estava mais do que lançada. A tese de que ela costuma ter a tensão baixa e bebe pouca água deixou de convencer muita gente. “O estado de saúde de um chefe de governo não é um assunto privado. Os cidadãos da Alemanha têm o direito de saber se um chefe de governo está fisicamente apto para exercer o seu mandato”, escreveu no Twitter Hans-Georg Maassen, o polémico jurista e antigo diretor dos serviços secretos germânicos. Uma outra personalidade muito influente, Gabor Steingart, comentador político e antigo editor do jornal Handelsblatt, defende precisamente o mesmo. “A confiança que as pessoas depositavam nela está a desaparecer por completo. (...) Continua sem haver resposta para uma questão crucial – ‘Está ela ainda na posse das suas capacidades?’”, interrogava-se ele ao britânico Financial Times.

O jornal mais lido do país, o tabloide Bild, na sua edição de 11 de julho, tinha um artigo em que se titulava e escrevia o seguinte: “Empatia. Compaixão. Comiseração também. Mas cima de tudo – perplexidade. A chanceler ainda está suficientemente em forma após catorze anos de mandato?” Exatamente no mesmo dia, uma outra publicação de referência, a revista Spiegel, manifestava uma posição diferente: “Na República Federal, é de bom-tom não especular sobre o estado de saúde dos dirigentes políticos. E não existem regras que possam ser impostas aos detentores de cargos públicos para que realizem exames médicos regulares.”

Até ao momento, Angela Merkel e a sua porta-voz, Ulrike Demmer, negam haver qualquer problema e dizem não estar interessadas em alimentar as especulações. Esta estratégia de comunicação parece estar a dar frutos: apenas 34% dos alemães considera que a chanceler deveria divulgar o seu boletim clínico e 59% são da opinião que este é um assunto da esfera privada e, como tal, a governante não deve explicações dessa natureza a ninguém, de acordo com uma sondagem publicada no último fim de semana pelo Augsburger Allgemeine Zeitung. Ou seja, é a prova de que os alemães continuam a ter um enorme respeito pela mulher a quem se habituaram a chamar Mutti (mamã). E que perdoam quase sempre aos líderes que lhes mentiram ou nunca lhes disseram toda a verdade sobre as respetivas doenças (ver caixa).

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