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O projeto que "paga" a jovens para não se tornarem criminosos

Mundo

Paul Bradbury/ Getty Images

O projeto que nasceu há 10 anos numa pequena cidade da Califórnia já chegou à capital do Estado, Sacramento

Foi em 2009 que as autoridades de Richmond, na Califórnia, concluíram que 70% dos crimes com arma de fogo que ocorriam na cidade, então com pouco mais de 100 mil habitantes, eram obra de um pequeno grupo de deliquentes. Nessa altura, Richmond estava entre as 12 cidades mais violentas dos Estados Unidos.

"Mesmo com a presença de mais forças de segurança vimos que a violência não diminuía. Como não estávamos a conseguir tirá-los das ruas, pensamos em dar-lhes uma alternativa que os motivasse e os fizesse mudar o seu comportamento", explica à BBC News DeVone Boggan, diretor executivo do Advance Peace.

Do programa faz parte uma seleção de mentores, geralmente indivíduos que já cumpriram pena de prisão e que acompanham os jovens vulneráveis e os ajudam a desenvolver um "plano de vida".

"Os mentores, que vemos como agentes de mudança, vêm dos mesmos bairros, conhecem essa vida", continua Boggan. "E a intervenção consiste em desenvolver relações com esses meninos vulneráveis, relações fortes, de confiança, para poder avançar com as outras etapas do programa", diz.

E é uma dessas outras etapas que tem causado mais polémica, sobretudo agora que chegou a Sacramento: o pagamento de um valor mensal aos jovens.

A capital da Califórnia é uma das cidades onde a violência urbana mais aumentou nos últimos anos, com os gangues a serem apontados como os responsáveis por mais de um quarto dos homicídios cometidos anualmente na cidade.

"Todos concordamos que esses indivíduos provavelmente serão alvejados ou dispararão contra alguém nos próximos seis meses. Isso vai ter um custo para nós. Se os prendemos, teremos gastos altos. Há um custo de 400 mil dólares [350 euros] por tiroteio ou 1 milhão por homicídio, e esse é um cálculo conservador", diz Khaalid Muttaqi, diretor do grupo de Prevenção e Intervenção em Gangues da Prefeitura de Sacramento.

"Mas os participantes do programa custam, por 18 meses, 30 mil dólares no máximo. Mesmo que não se não concorde com o programa, faz sentido economicamente", afirma.

Também Boggan considera que as críticas são feitas por falta de informação: "Concentram-se num só elemento, o incentivo económico, quando há um conjunto de coisas que o programa faz, como o contacto diário com o jovem, a atenção constante, o desenvolvimento de um plano de ação que inclui estabelecer objetivos de educação, emprego, habitação, saúde etc. ou viagens a outras cidades para que conheça outras realidades."

Khaalid Muttaqi enumera os fatores por detrás do ingresso destes jovens no mundo do crime: vingança entre membros de gangues e consumo e venda de drogas, mas também questões pessoais, estado mental, traumas. "São coisas em que não costumamos pensar", acrescenta.

"Vemos essas pessoas que cometem crimes como más. Muitos deles foram também vítimas de violência. Pode ter sido abuso infantil, podem ter visto muita violência na infância, e essa pode ser a raiz do problema, mas não se fala muito disso", defende. "Debaixo da tatuagem, do cabelo, da forma de falar, quase todos querem ter uma vida melhor."

Foi esta premissa que levou os responsáveis de Sacramento a decidirem trabalhar com os jovens em maior risco de recorrerem à violência, antes de estar premirem o gatilho ou se tornarem vítimas.