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Millennials: o que quer, afinal, a geração da descrença?

Economia

D.R.

Vivem ainda as consequências da crise. Dão nota negativa a políticos. Desconfiam das intenções das empresas e temem pelo futuro do planeta. A desilusão e a descrença tomaram conta dos millennials

Rui Barroso

Rui Barroso

Jornalista

As gerações são também as suas circunstâncias e as que envolvem os millennials levaram a sentimentos de descrença e desilusão. A grande recessão originada pela crise financeira de 2008 moldou a forma como se vê o mundo e se perspetiva o futuro. E os tumultos sociais e políticos dos últimos anos não ajudaram a acender o otimismo e a esperança aos que nasceram entre janeiro de 1983 e dezembro de 1994.

“Porque estão as gerações mais novas preenchidas de desconfiança em vez de otimismo? Talvez porque estão perpetuamente apanhadas no fogo cruzado de tumultos sociais, políticos e económicos”, refere a consultora Deloitte na edição deste ano do Global Millennial Survey, um estudo que envolveu inquéritos a 13 416 millennials de 42 países. O inquérito abrangeu ainda 3 009 pessoas nascidas entre janeiro de 1995 e dezembro de 2002, a chamada geração Z.

Diogo Santos, partner da Deloitte, explica à VISÃO que “a barreira de ceticismo e descrença que as novas gerações têm perante as diferentes instituições tem origem em múltiplos fatores, como sejam a crise financeira do final da década de 2000, falências de grandes empresas, instabilidade social e política, e terrorismo à escala global”. A grande recessão originada pela crise financeira de 2008 ainda causa estragos. “Há estudos a sugerir que a entrada no mercado de trabalho durante a recessão tem efeitos negativos nos salários subsequentes e no percurso da carreira”, indica a Deloitte. No caso dos EUA, por exemplo, a consultora indica que “os millennials que entraram no mercado de trabalho durante a recessão ou nos anos de crescimento fraco que se seguiram tiveram menos melhorias económicas na sua primeira década na vida ativa do que qualquer das outras gerações”.

Nos últimos anos, as maiores economias mundiais têm-se regenerado. Mas, dos inquéritos que fez, a Deloitte conclui que “apesar da atual expansão e de oportunidades económicas, os millennials têm expressado inquietação e pessimismo – sobre as suas carreiras, as suas vidas em geral e sobre o mundo à sua volta”.

Mas a descrença e o pessimismo dos millennials vai além da situação económica. “Contrariamente ao pós-guerra da década de 1950 – caracterizado pela cooperação internacional, o baby boom e a expansão económica que beneficiou a maioria –, a última década foi marcada pela subida acentuada da desigualdade económica, pela redução das redes de segurança social, por governos isolados e disfuncionais, pelo maior tribalismo alimentado pelas redes sociais e pelas alterações radicais nos contratos entre empregados e empregadores”, detalha a consultora.

Circunstâncias que provocam um pessimismo crescente nos millennials. “A cada ano, perguntamos aos millennials sobre os desafios para a sociedade global e sobre as suas preocupações sociais para percebermos como estão a evoluir. Este ano, assistimos a uma deterioração palpável do otimismo e a um leque alargado de ansiedades, relacionadas com fatores macroeconómicos e do dia a dia, a pesar nas suas mentes.”

As expectativas de melhoria da situação financeira são reduzidas. E isso altera as prioridades das gerações mais novas. “Esta realidade cria nas novas gerações uma nova matriz de ambições, na qual viajar e conhecer o mundo e ter salários elevados se sobrepõem, ainda que ligeiramente, a aspetos como adquirir uma casa e constituir família”, afirma Diogo Santos.

Desconfianças e convicções

A desilusão é gerada por um sentimento de insatisfação que sobressai nos inquéritos feitos pela Deloitte. “Não estão particularmente satisfeitos com as suas vidas, situações financeiras, empregos, líderes de governos e empresas, redes sociais e a forma como os seus dados são usados.” Assim, é normal que sejam céticos. “Os inquiridos expressam uma forte falta de fé nas instituições tradicionais.” Governos, políticos, líderes religiosos e órgãos de comunicação social não inspiram grande confiança aos millennials.

Diogo Santos defende que essa desconfiança não implica uma “ausência de referências” por parte dessa geração. Reflete, isso sim, “a opinião negativa que tem de várias instituições”. Os números demonstram o grau da desconfiança. Dos participantes no estudo, 73% consideram que os líderes políticos estão a falhar no objetivo de ter um impacto positivo no mundo. Há 66% dos inquiridos que pensam o mesmo dos líderes religiosos e 43% consideram que os média têm um impacto negativo no mundo.

A opinião sobre as empresas também está longe de ser favorável. “Apenas 37% dos millennials acreditam que os líderes de empresas têm um impacto positivo no mundo”, salienta Diogo Santos. A esmagadora maioria acredita que as empresas querem saber apenas das suas agendas individuais em vez de se focarem na sociedade, e que a única ambição é a maximização do lucro. E isso pode vir a ser um problema para os líderes empresariais que não venham a alinhar-se com os valores das gerações mais novas, já que têm uma maior propensão para colocar o dinheiro onde têm as convicções. “Falam com as carteiras de formas diferentes das anteriores gerações”, constata a Deloitte. “Todos os consumidores são suscetíveis à publicidade e ficam frustrados com serviços ou produtos de fraca qualidade. Mas os millennials e a geração Z começam e acabam relações com empresas por razões muito pessoais, muitas vezes devido ao impacto positivo ou negativo que a empresa possa ter na sociedade.”

Diogo Santos detalha que “existe uma perceção negativa sobre o contributo das empresas para o top 3 de preocupações das novas gerações: ambiente e alterações climáticas, desigualdades sociais e desemprego. As empresas que sejam capazes de demonstrar um impacto positivo nestas matérias serão mais valorizadas pelos millennials”. Os líderes empresariais parecem estar a tomar nota. Num outro inquérito da Deloite junto de executivos de empresas, 73% dos responsáveis disseram que as suas organizações desenvolveram ou alteraram produtos e serviços para gerar um impacto social positivo. Boas intenções ou preocupações de negócio? Talvez um pouco das duas.A relação das novas gerações com as empresas é exigente no que diz respeito ao consumo. Mas pesa menos na perspetiva de carreira. “Estas novas gerações são extremamente pragmáticas na avaliação dos fatores determinantes para a escolha do seu emprego, pelo que a dimensão ética e social das empresas, ainda que seja importante, é largamente superada por fatores como condições financeiras e benefícios”, afirma Diogo Santos. A cultura e o ambiente de trabalho, a flexibilidade e as oportunidades de aprendizagem e desenvolvimento são outras das características que os millennials valorizam no emprego.

Amor-ódio na tecnologia

As alterações climáticas estão no topo das preocupações das gerações mais novas, como ficou demonstrado este ano pelas centenas de milhares de jovens que fizeram greve pelo clima um pouco por todo o mundo. Mas as novas gerações, apesar de totalmente digitalizadas, temem também pela privacidade e pela utilização que as empresas tecnológicas fazem dos seus dados pessoais.

Apesar de 71% dos millennials terem respondido que se sentem bem a utilizar redes sociais ou aparelhos digitais, uma leitura mais fina dos resultados disputa essa conclusão. Cerca de dois terços dos inquiridos admitem que seriam mais saudáveis e felizes se reduzissem o tempo gasto em redes sociais. Mais de metade veem mais fatores negativos do que positivos nessas plataformas. E quatro em dez confessam que desejam abandonar as redes sociais. O problema é que ficar desligado durante apenas um ou dois dias é uma causa de ansiedade para quase metade dos millennials inquiridos. Ou seja, reconhecem que é um problema e querem uma solução. Mas daí até à ação vai um longo caminho.

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