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Saramago: Nobel "doido por mulheres" em nova biografia

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Em 'José Saramago: Rota de Vida', uma biografia exaustiva dedicada ao Nobel português, o jornalista Joaquim Vieira aí retrata o escritor como uma “personagem literária extraordinária”, um “doido por mulheres”, um “pragmático” e um comunista que deu dores de cabeça ao PCP

Houve, seguramente, um sobressalto no batimento cardíaco nacional, quando, em 1998, o português José Saramago foi agraciado como Prémio Nobel da Literatura. E na rural Azinhaga, freguesia ribatejana do concelho da Golegã, cem quilómetros a norte de Lisboa, onde ele fora feliz nadando no rio Almonda ou conduzindo os bácoros da família, talvez um vento doce tenha soprado sobre a lezíria dos pobres. Um homem da terra, nascido 76 anos antes em barraca de chão de barro, filho, dizia, de um “vulgar cavador de enxada”, bisneto de um berbere “marginal e assassino” e “arranca-corações”, serralheiro mecânico de formação, recebia agora a cobiçadíssima medalha maior das letras. E, num discurso desencaixado do protocolo tradicional, frente a um público vestido de cerimónias várias, José Saramago enalteceria o avô Jerónimo Melrinho: “O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever.” Aquele que, às quatro da madrugada, “quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher”.

Às primeiras linhas da biografia José Saramago: Rota de Vida (Livros Horizonte), o jornalista Joaquim Vieira, autor experiente no género (só nos anos recentes, publicou Mário Soares, Uma Vida; Álvaro Cunhal, O Homem e o Mito; e Francisco Pinto Balsemão, O Patrão dos Media que Foi Primeiro-Ministro), refere que nunca se saberá se tal homenagem “expressava um pensamento genuíno ou tão-só uma tirada literária concebida para a ocasião”. É que, refere, após escrever na imprensa sobre o familiar, o escritor havia confessado em carta ao amigo José Rodrigues Miguéis: “Ontem, deu-me para recordar o meu avô camponês − e fiquei assim: amargo. Felizmente para a literatura portuguesa deu crónica... Manha de literato, defeito de escriba: tudo acaba por se transformar em literatura...” E o tudo é muito, neste caso. Os três anos de trabalho neste volume dedicado a José Saramago, arrumados em 25 capítulos e mais de 700 páginas, publicado no timing perfeito da celebração dos 20 anos da atribuição do Nobel, abordam “um relevante protagonista da História portuguesa, com uma personalidade complexa e enigmática”, define o biógrafo na introdução. Uma personalidade indiscutivelmente literária, dirá ao vivo. Joaquim Vieira conta à VISÃO ter aceitado o convite feito pela editora por uma razão “mais prosaica”: “Foi o Nobel, tenho de confessar.” E elabora: “É uma figura perfeita para um biógrafo, sobretudo pela parte da ascensão, o facto de José vir de fora do meio. Aliás, ele valorizava muito isso, dava-lhe um prazer secreto ter ultrapassado os outros. Porque, durante muito tempo, ele era desprezado pelo meio académico, pelos literatos, era visto como um tipo que estava ao serviço deles [durante os anos em que trabalhou na editora Estúdios Cor]. Quem olhasse para o Saramago nos anos 1960/70, já ele era um adulto com 40, 50 anos, a caminho dos 60, veria como absolutamente improvável que ele viesse a ganhar o Nobel.”

Personagem literária

Havia as suas origens rurais e pobres, claro. Um rapazinho que há de descrever um episódio, “para ele memorável, da condução de uma vara de leitões até à capital de distrito, 25 quilómetros de uma espécie de viagem iniciática” − poeira e mantas emprestadas e castração de um porco, testemunhados aos 12 anos. Temporadas no “paraíso”, assegurará José, que cresceu em Lisboa. Recorda a amiga de infância Otelinda Nunes que “ele foi o primeiro rapaz a ter uma bola de cauchu aqui na terra, porque os outros jogavam com umas bolas feitas de meias velhas que as mães cosiam”. A pobreza dos pais, José de Sousa e Maria da Piedade, desaguados na capital em plenos anos 1920 à boleia de um mais próspero trabalho de polícia para o patriarca (chegará a subchefe), não evitou que a família dividisse casa com a família Barata durante toda a infância e adolescência do escritor, ou que durante anos houvesse “cobertores penhorados” pela mãe à chegada da primavera para os ir buscar no outono (“depois de pagar mês a mês os juros”). Zézito recorda-se de “comer a sopa do mesmo prato da mãe”, e o futuro Nobel recorreu muitas vezes à caridade pública da sopa dos pobres para atamancar a fome. A família reclamaria, aliás, “o estatuto de pobreza para isentar o filho de pagamento de propinas”. E, incrível facto no currículo de um Nobel da Literatura, e sublinhado pelo biógrafo, o jovem Saramago só saberia o que era ter uma estante de livros (uma prateleira interior do guarda-loiça) aos 19 anos (ausência colmatada com anos sucessivos de leituras noturnas na lisboeta Biblioteca das Galveias, onde descobriria o poeta Ricardo Reis: “Foi para mim como outro sol que tivesse nascido”, escreveu em Cadernos de Lanzarote Diário III). E a então obrigatória Mocidade Portuguesa? “Sendo mais alto do que a média, não havia uniformes à sua medida. O José livrou-se dos desfiles fascistas pela sua estatura... que bela metáfora”, dirá Pilar Del Río, o grande amor declarado da sua vida, viúva e “presidenta” da Fundação José Saramago, num email dirigido ao biógrafo.

Zonas de sombra

Arredado da escola e com notas sofríveis a Português, Saramago formou-se como serralheiro mecânico. “Entendo que cada um é, acima de tudo, filho das suas obras, daquilo que vai fazendo durante o tempo que cá anda”, dirá. O seu primeiro emprego, aos 17/18 anos, foi numa oficina de automóveis. Um erro, envolvendo água e um radiador, inspirou-lhe esta confissão num dos Cadernos: “Possivelmente, terá sido nesse dia que comecei a pensar em tornar-me escritor. É um ofício em que somos ao mesmo tempo motor, água, volante, mudanças de velocidade e tubo de escape.” O Saramago que emerge desta biografia, construída também com recurso às muitas páginas deixadas pelo próprio, não é apenas o rapaz que finta as suas origens. José Saramago: Rota de Vida é uma biografia ambiciosa, meticulosa, abrangente, monumental até − mas não é um volume hagiográfico. A escrita, jornalística, por vezes aparentemente irónica, recorda um percurso ímpar, aprofunda facetas menos conhecidas e também expõe fraquezas, marialvismos, tropeções do seu biografado (uns mais públicos do que outros).

“Em qualquer biografado há sempre aspetos nem sempre simpáticos. 
O Saramago tem uma zona de sombra, por exemplo quando foi a grande autoridade no Diário de Notícias e houve o saneamento dos jornalistas”, recorda Joaquim Vieira. O episódio, eterna pedra no sapato do escritor português, é amplamente dissecado na biografia. No Verão Quente de 1975, Saramago era (desde abril) diretor-adjunto do jornal, então acusado de ser “órgão oficioso” do PCP. Os cerca de 30 jornalistas da casa que manifestaram a insatisfação com a linha radical seguida pelo diário foram alvos de repúdio por Saramago, e confrontados com o saneamento. Luís de Barros, então diretor do Diário de Notícias, foi uma das pessoas que não quiseram dar o seu testemunho para este livro. Joaquim Vieira diz: “Saramago sempre se defendeu, ao longo da sua vida, dizendo que não tinha a responsabilidade. Mas eu acho que teve a responsabilidade moral. Porque a palavra de Saramago tinha um peso tremendo dentro do Diário de Notícias: se ele se tivesse manifestado contra os saneamentos, estes não tinham acontecido. Mais do que um entrevistado o disse.”

Do outro lado, o Partido Comunista Português não vira com bons olhos que Saramago, ao tomar posse do cargo no jornal, tivesse suspendido a sua militância na Célula dos Escritores. “Ele ultrapassa o PCP pela esquerda. O Saramago está um bocado em roda livre. Aparentemente, não estava a seguir uma linha que fosse imposta pelo Comité Central. Há quem diga [como refere o escritor Mário de Carvalho na biografia, então controleiro da Célula dos Escritores] que ele reportava mais acima mas também há quem defenda que ele era autónomo, com a sua própria leitura sobre a linha política que se devia aplicar ali”, conta o biógrafo à VISÃO. José defenderá a um jornalista francês: “Estamos em plena luta de classes. É uma batalha de vida ou de morte entre eles e nós.” Perante os “editoriais muito inflamados”, Joaquim Vieira refere que o ex-dirigente do PCP Carlos Brito lhe disse que “o partido se sentia, então, na obrigação de explicar aos militares comunistas que aquilo que o Diário de Notícias estava a publicar não era o pensamento do PCP”.

O “pinga-amor”

A grande história de amor que integra igualmente a biografia e a mística saramaguiana é a vivida por José Saramago e Pilar Del Río, já documentada em filme pelo realizador Miguel Gonçalves Mendes em José e Pilar (2010). Joaquim Vieira apresenta-a, logo na introdução de José Saramago: Rota de Vida como “a sua maior defensora e divulgadora”: “Era assertiva, radical e impulsiva em matéria de comunicação e de política, com um toque de Passionaria andaluza, que me parecia empurrar Saramago para posições mais à esquerda do que seriam naturalmente as suas.”

O primeiro encontro de ambos em Lisboa, a pretexto de uma entrevista, que acabará no Cemitério dos Prazeres, lendo poemas pessoanos, é também referido pelo biógrafo como tendo uma certa componente mágica, temperada na simetria etária: Saramago tinha 63 anos, Pilar somava 36. Mas uma das facetas mais surpreendentes desta biografia elaborada por Joaquim Vieira será a do “doido por mulheres”, o sedutor insistente, o homem que deixava as mãos assentarem em cima de joelhos femininos debaixo das mesas, o homem que tinha affaires que o deixavam num estado de desorientação emocional (ao ponto de afetarem as suas responsabilidades na Editorial Estúdios Cor, sua porta de entrada para o meio literário). Garante Joaquim Vieira que esta visão mais passional é um testemunho da “esmagadora maioria” de pessoas com quem falou a propósito de Saramago. E muitos lembram a história vivida com Isabel da Nóbrega, escritora com obra própria, que, sugere a biografia, se anulou para que a luz de Saramago brilhasse. Isabel, filha de boas famílias, era conhecida (e repudiada) em Lisboa após ter protagonizado o escândalo de abandonar o marido médico, e os filhos, para viver uma paixão com o crítico literário João Gaspar Simões. Doze anos depois, Isabel e José (então casado com Ilda Reis) começam uma relação extraconjugal que causou espanto.

Na biografia, Isabel da Nóbrega é apresentada como sendo o Pigmaleão que mostrou Saramago a círculos intelectuais e ao jet set que passava férias no Algarve e em Madrid: o escritor reservado e orgulhoso passa a frequentar novos grupos, a vestir roupa de marca, a ter oportunidades profissionais. Joaquim Vieira diz à VISÃO: “Ela acreditou nas potencialidades dele. Ela achava, logo nos anos 1980, que Saramago ia chegar ao Nobel.” O biógrafo conta esta história: “Quando o pai de Isabel da Nóbrega morreu, em 1985, os irmãos fizeram as partilhas. Na casa, todos estavam à volta das pratas na sala, mas ela só estava preocupada com a roupa no quarto, queria a casaca do pai. A filha perguntou-lhe porquê. Ela respondeu: ‘Porque o José, qualquer dia, vai ser Nobel e eu tenho que levar a casaca para ele receber o prémio.’” A separação deixará a escritora incrédula. Pilar será o futuro.

Em As Pequenas Memórias, a sua autobiografia evocativa publicada em 2006, Saramago falará das aventuras amorosas de juventude: Deolinda, que vivia nas traseiras do prédio da Rua Padre Sena de Freitas, em Lisboa (uma das muitas moradas que a família Saramago há de experimentar); a prima “um pouco mais velha” com quem fez algumas explorações (“Recordo que o primeiro movimento da minha parte, a primeira abordagem, por assim dizer, levou o meu pé direito a tatear o púbis já florido da Piedade”, contará); Alice que nas férias grandes de 1938 chamará as atenções do “aprendiz de galanteador” de 15 anos; e Ilda Nunes dos Reis, colega na Escola Afonso Domingues, onde ela frequentava o 3º ano do curso de Costura e Bordados (mais tarde, tendo expandido a veia artística na Escola de Artes Decorativas de António Arroio). “Ter-lhe-á pedido namoro por volta de 1941 e ela nem resistiu: ‘Estava à espera disso.’” Casam-se. Mas, refere a biografia, foram muitas as aventuras amorosas, incluindo as extraconjugais, do futuro Nobel. “Revela uma fonte familiar”, lê-se, que “não foi ele que tomou a iniciativa de sair de casa pelo seu pé e sim a mulher que lhe pôs as malas à porta pouco após o matrimónio da Violante [a filha de José e Ilda].” A filha única, que não desejou reabrir velhas feridas nesta biografia, demorará anos a reencontrar a harmonia com o pai (também porque os separava um fosso ideológico, com Violante mais radical face ao sovietismo do pai).

Posteriormente, Saramago apagará as dedicatórias dos seus romances feitas a Isabel da Nóbrega − e é este facto, por exemplo, além do caso Diário de Notícias, que faz Joaquim Vieira dizer sobre o homem: “É impossível colocá-lo num pedestal.”

O meio literário... e a glória

Dois anos após o casamento com Ilda Reis, a ambição literária começa a concretizar-se sob a forma de ensaios de escrita, composições poéticas, mais tarde contos enviados para revistas e peças de teatro... Joaquim Vieira destaca a relação algo ambígua que José Saramago estabelece com os outros escritores, sobretudo na época em que colabora com a Editorial Estúdios Cor, a partir de 1959, desempenhando “as funções de diretor de produção”, o que implicava contacto com os autores, avaliação e revisão de textos, apresentação de livros e escrita de badanas − e o ter de lidar com a censura oficial dos que escreviam e publicavam sob a ditadura. “De facto, ele é sempre posto à margem pelo meio, não é considerado um deles. Creio que, durante muito tempo, terá havido alguma chacota em torno de Saramago: as pequenas piadas, a pequena maldade, o dichote... David Mourão-Ferreira inventa-lhe a alcunha de ‘gafanhoto’.” O biógrafo inclui vários excertos de cartas trocadas entre Jorge de Sena e José Rodrigues Miguéis com comentários menos abonatórios às intervenções de José, e que demonstram uma natureza algo dúplice na forma como lidavam com ele: “As cartas do Jorge de Sena e do José Rodrigues Miguéis sobre o Saramago são coisas terríveis: sempre muito respeitosos pela frente, mas críticos por trás...”

Fernando Canhão, filho de um dos fundadores da Editorial Estúdios Cor, descreve o Saramago de então como “um ser de conluios e subserviência”. “É alguém que se adaptava às circunstâncias para se adaptar ao meio; há umas cartas dele que indicam isso: também há muito pragmatismo na carreira de Saramago”, declara o biógrafo. Alude às cartas enviadas pelo escritor, em que este pedia cuidados extra aos seus autores e amigos: em janeiro de 1960, aconselhava Miguéis a fazer cortes na sua peça O Passageiro do Expresso, para fugir à possibilidade de ver o livro apreendido por razões políticas. Recomendaria idêntica atitude a Jorge de Sena, a propósito da preparação do seu livro de contos Andanças do Demónio.

As décadas seguintes transfiguram o percurso de Saramago, fazendo-o adotar os temas universalistas − que o ajudam a chegar a Estocolmo, defende Joaquim Vieira à VISÃO. “Saramago é uma personagem literária fortíssima. Alguém que vem da Azinhaga, começa como serralheiro mecânico e depois ganha o Prémio Nobel da Literatura? Desculpem todos os literatos deste país, mas o Saramago mete-os a todos a um canto nesse aspeto”, declara Vieira. Um sinal precoce desse futuro? O biógrafo descobriu que, em fevereiro de 1939, “escassos meses depois de completar 16 anos, o nome de José Saramago surge de supetão no cabeçalho do primeiro número da revista cultural Síntese, publicada em Coimbra, como seu editor e administrador”. Um mistério não incluído nos textos autobiográficos do Nobel e que o biógrafo confessa nunca ter conseguido deslindar.