Guida Tavares e Cidália Cabral não poderiam viver mais nos antípodas. As duas não moram assim tão longe uma da outra – de Carcavelos até às Avenidas Novas, em Lisboa, gastam-se no máximo 25 minutos de carro –, mas os seus dias são tão diferentes como se elas tivessem metade do mundo pelo meio.

A culpa é de um ser minúsculo e invisível a olho nu que foi batizado de SARS-CoV-2. Uma coisa microscópica capaz de, ao mesmo tempo, alimentar um medo enorme ou parecer insignificante.

Dizer a uma e a outra que, por terem mais de 70 anos, devem ficar em casa o maior tempo possível não surte o mesmo efeito. Pelo contrário. Quase podemos escrever que essa frase desencadeia reações opostas nestas mulheres. Só o sorriso de ambas é o mesmo quando falam dos cuidados por parte dos filhos, nestas últimas semanas redobrados e – queixa-se Cidália – algumas vezes até exagerados.

Sabemos que Guida sorri pela maneira como a sua voz se faz ouvir cantada ao telefone. Não temos autorização para entrar no primeiro andar onde mora com o marido, doente cardíaco. Pede desculpa, mas há quase dois meses que a porta do apartamento não se abre a não ser para a filha – e mesmo ela só passa da soleira para ajudar a levar os sacos das compras que vai fazer-lhes. A fotografia também há de, por isso, ser tirada de longe, da rua para a varanda.

Desde o dia 11 de março, esta antiga funcionária pública, de 74 anos, apenas pôs os pés fora de casa quatro vezes – duas para ir ao multibanco, uma para ir ao banco e, na quarta-feira, 6 de maio, para ir ao cabeleireiro. Saiu de máscara e de luva numa mão e saquinho de plástico na outra. E usou sempre tanto álcool que o telemóvel ficou manchado e os extratos bancários estão ilegíveis.

“Tenho muito medo, parece que vou fazer mal a mim mesma”, diz quando lhe falamos na hipótese de voltar à rua com regularidade. “E é já um medo instalado”, analisa. “O meu marido e os meus filhos precisam de mim. Gosto de viver, mas preservo-me por eles.”

À exceção de dores nos ombros e nas lombares, Guida é uma mulher saudável. Mentalizou-se de que deve ficar em casa pela família, mas confessa uma revolta grande. “Claro que queria fazer uma vida normal e sinto-me enjaulada – é esse o termo! O que me vale é a casa ser grande.”

Ela, que andava sempre de um lado para o outro, que gostava de visitar as amigas e de ir a Lisboa, já decidiu que tão cedo não volta ao café nem vai “sair à vontadinha”. Irá manter os “ultracuidados”, provavelmente mesmo no seu dia de anos, já a 25 deste mês. “Sou otimista, mas isto traumatizou-me muito.

A 20 quilómetros da casa de Guida, no 7º andar do prédio onde trabalha como porteira, Cidália faz as honras quase como de costume. As visitas continuam a ser encaminhadas para a sala de estar, mas ela há de sentar-se numa cadeira. Está com muita vontade de falar e nenhuma de tratar do jantar. É 1 de maio e à tarde foi, como sempre, à Alameda; este ano achou tudo demasiado certinho, mas sempre fez uma boa caminhada.

O dever especial de proteção para com os idosos acabou por se virar contra eles, estigmatizando-os e discriminando-os

Cidália quer acreditar que o pior já passou. Fazem-lhe falta as visitas a museus e os passeios organizados pela Junta de Freguesia, mas se lhe custa estar longe da neta, de 14 anos, ainda lhe custa mais ficar fechada em casa. Por isso não aceitou o convite para se mudar temporariamente para casa da filha mais nova, que mora em Carnaxide.

“É um 10º andar com uma linda vista, mas aqui saio todos os dias, bebo o meu café, vou ao supermercado”, justifica. “Sem uma conversa ficamos doidos – não apanhamos o vírus, mas apanhamos uma maluquice”, brinca. “Eu tenho de ir para a rua nem que seja para ouvir alguém dizer de longe ‘Ó vizinha!’, é um alívio para a minha cabeça.”

Em março, Cidália quase não saiu e acredita que foi por isso que a sua tensão arterial subiu aos 21. Uns tempos depois, passou uma semana sozinha na casa de fim de semana da filha, em Azeitão, e o stresse nem a deixava dormir. “Era para me proteger, mas foi um castigo”, recorda. “Tenho 78 anos, vou ficar fechada o tempo que me resta para viver? Nós, os mais velhos, se estivermos um mês em casa é como se nos roubassem um ano de vida!”

O “novo normal” apanhou-a já de máscara cirúrgica na mão, que estreou no final de abril, numa consulta de Oftalmologia. Anda habitualmente na rua de cara descoberta, a não ser nas lojas, mas aproveitou logo o primeiro dia do comércio local aberto para comprar elástico para as máscaras que quer costurar. “Agora, elas não podem faltar”, observa, pragmática.

O sedentarismo mata
Se há pessoa que sabe o que fazer num caso de saúde pública é Joaquim Alves, conclui-se ao fim de uns minutos de conversa. É natural. Trabalhou mais de 30 anos com idosos, na Suíça, onde aprendeu a tomar precauções sempre que havia “um mero vírus da gripe” na instituição. “Isolávamo-nos, deixávamos imediatamente de ter contacto com os colegas”, conta.

Há uns meses, “ao ver a mortandade” em Itália e em Espanha, Joaquim disse à sua companheira (agora ex): “Isto para mim é um risco porque tenho 72 anos, diabetes, tensão arterial alta e problemas respiratórios. Tenho de ter cuidados extremos e isolar-me.”

Ficou com medo, conta ao telefone, acabado de chegar da caminhada que faz todos os dias pela falésia, entre Porto de Mós e a Praia da Luz, em Lagos, onde mora. “Não saí de todo na primeira semana de confinamento, arranjei quem me trouxesse as compras. Depois, deixei de usar o elevador do prédio e nunca mais toquei no corrimão das escadas nem na porta de entrada (abro com a chave e fecho com o pé).

Para se manter ativo, de início Joaquim andou às voltas no seu apartamento e no terraço do prédio. Mas a tensão começou a subir e a médica de família receitou-lhe passeios maiores e ao ar livre. “O sedentarismo mata, os mais velhos podem e devem fazer saídas”, já tínhamos ouvido a Rui Nogueira, presidente da Associação Portuguesa de Médicos de Família.

Joaquim tem a sorte de viver rodeado de campo, com o mar por perto. Evita cruzar-se com pessoas e usa uma máscara se atravessa a cidade a pé. “Sei o risco que corro, mas acho incorreto imporem-me ficar em casa só por causa da idade. Eu e os outros, que estamos bem de cabeça, sabemos proteger-nos.”

Noutra vida, como gosta de dizer, Joaquim militou na esquerda revolucionária e viveu na clandestinidade; foi, aliás, por causa das suas atividades políticas que saiu do País da primeira vez. Agora, gere a página A Velha Toupeira no Facebook, nome inspirado na conhecida livraria parisiense e editora La Vieille Taupe, e recusa “rótulos abusivos”. Ouviu, por isso, com agrado o primeiro-ministro afirmar que o dever cívico de recolhimento domiciliário é aplicável a todos os cidadãos, independentemente da idade ou de apresentarem fatores de risco.

É verdade que a faixa etária acima dos 70 anos é a mais afetada pelo novo coronavírus (ver infografia). “Há uma assimetria de faixa etária – é muito setorizado nos mais velhos”, sublinha o médico Rui Nogueira. Mas, ao anunciar as medidas do estado de calamidade, a 30 de abril, António Costa disse ter constatado que muitas vezes foi mal interpretado o que significava o dever especial de proteção para com o idoso, “estigmatizando-o, encarando-o como uma ameaça à sociedade”.

Maria do Rosário Gama, presidente da APRe!, ela própria com 71 anos, ouviu-o com alívio. “Não pode haver discriminação pela idade – só pelo estado de saúde” tem sido o seu mantra nos últimos meses.
Em meados de abril, já a Associação de Aposentados, Pensionistas e Reformados que lidera tinha tomado uma posição pública contra a vaga que defendia o isolamento dos mais velhos, escrevendo uma carta aberta ao Presidente da República. Por essa altura, outras vozes se levantaram, entre elas as do cardeal Tolentino Mendonça e do constitucionalista Bacelar Gouveia.

Desde o início da pandemia que Maria do Rosário Gama limitou as saídas e usa uma máscara em espaços fechados. Ainda só esteve à distância com os dois netos, de 5 e 8 anos, e passou a falar por Skype na Praça da Alegria (RTP1), onde tem a rubrica Consultório do Reformado. “Sou saudável”, sublinha. “Já passei por um carcinoma no útero, mas correu tudo bem e foi há muito tempo. Se eu tivesse 50 anos, faria o mesmo que faço.”

Quando alguém lhe fala dos idosos a jogarem às cartas no jardim, a dirigente da APRe! compara-o com os jovens que tem visto à conversa na rua. “Há inconscientes em todas as idades”, nota. “E é preciso as pessoas lembrarem-se de que o futuro é mais exíguo para nós, que este tempo roubado à nossa vida faz-nos muita falta.”

Confinamento antinatural
Se não fosse o Skype, Álvaro Pereira ainda se sentiria mais perdido em São Miguel. Pelo menos três vezes por ano, o especialista em seguros voa de Boston a Ponta Delgada para ver os pais, que vivem num lar. Este ano, aterrou a 9 de março, dia em que a mãe fez 87 anos, e ainda conseguiu dar-lhe os parabéns pessoalmente antes de serem proibidas as visitas. Desde então, só mesmo pelo computador, como se estivesse nos Estados Unidos, para onde não prevê poder regressar antes de junho.

Todos os finais de tarde, Alice Sá vê como o primo troca mimos com os pais e se emociona. “E fiquei impressionada quando a minha madrinha me agradeceu por estar a dar de jantar ao Álvaro, deixou-me de rastos”, confessa.

Alice tem 68 anos, apenas mais 11 do que o primo, a quem chegou a dar aulas. A cerca sanitária imposta aos seis concelhos de São Miguel acabou por os aproximar ainda mais, conta a antiga professora primária, que se diz “feliz da vida” por ter alguma companhia.

Os cuidados em sua casa na Maia, a meia hora de carro de Ponta Delgada, são muitos. “Não corremos riscos desnecessários”, observa. Álvaro anda sempre de máscara na rua e com desinfetante no carro. E ela própria só sai uma vez por semana para ir a pé ao supermercado – vai uns minutos antes de a porta abrir, para ser a primeira, e quando chega a casa pousa as compras no “quarto das máquinas”, onde os sacos ficam a arejar.

Viúva há sete anos, do escritor Daniel de Sá, Alice está habituada a passar os dias sozinha e em casa. “Tive um treino de exílio”, brinca. O marido pouco saía, e ela, por gostar muito da sua companhia, tornou-se caseira. Faltou-lhe o chão quando ele morreu, mas teve amigas que a ajudaram a sair do poço. Tem três filhos e seis netos, mas é sobretudo com elas que viaja até ao Continente e mapa acima rumo a Espanha. “Quando estamos juntas, somos mais alegres”, lembra.

Alice não se sente deprimida, talvez por ser mentalmente resiliente, e no confinamento descobriu que ainda sabe fazer crochet. Para não se sentir enclausurada, ajuda ter uma casa espaçosa, rodeada de campo e de mar, e os muitos livros e revistas que gosta de ler sem método. “Não me sinto obrigada a nada”, ri-se.

Foto: Lucília Monteiro

Tínhamos ouvido coisa parecida a Fernanda Melo de Sousa, nascida e criada no Porto, nos seus 83 anos muito vivos. Quando não está a dar caminhadas no terraço, a fazer de conta que foi até ao mar, “Nandinha”, como é conhecida pelos seus amigos e vizinhos nas Antas, lê. A televisão está habitualmente ligada no canal Mezzo, a debitar música de fundo.

“Ando a reler livros, mas só as partes de que tinha saudades”, conta esta antiga professora primária que, já reformada, fazia voluntariado num lar. E sobra-lhe tempo porque acabaram as conversetas com as amigas, as idas ao café e ao cinema, as voltinhas pelo bairro. Agora, conversas só por telefone. Com o filho, que mora em Lisboa, fala três vezes ao dia, “como um antibiótico”, mas tem a sorte de o neto ir todas as semanas ao Porto, visitando-a à janela. “Disseram ‘Fique em casa’ e eu fiquei, fiz o sacrifício.”

Ao fim de quase um mês sem pôr um pé na rua, Fernanda ia chorando quando, pela Páscoa, uma amiga lhe fez chegar um bolo, dentro dum cesto que içou com uma cordinha. Agora, começou a ir até ao fim da rua e ao supermercado, mas nada é como dantes, analisa. “Estamos todos aparvalhados e perturba-nos não sabermos quando isto acaba. Sou obediente, embora por dentro esteja a chorar. Nasci no tempo de Salazar, mas tenho as minhas revoltas intelectuais.”

A empregada nunca deixou de ir lá a casa, de segunda a sexta. “Por isso, ao fim de semana custa-me mais, fico numa meditação, no Monte do Calvário”, brinca. “Porque isto é antinatural, somos um animal social. No fim disto pode haver muitas depressões.”

Um parêntesis para reproduzir os receios do psicólogo David Dias Neto: “As descompensações tendem a surgir mais a longo prazo, e é também preciso não esquecer que há uma depressividade nos mais velhos que não ajuda – faz com que não se cuidem. Portanto, algumas dessas pessoas podem ter uma falta de cuidado.” Não é esse o caso de Fernanda, que aceitou o sacrifício a bem da saúde pública. “Se há uns meses me dissessem que ia passar os dias em casa… Mas, agora, consummatum est.”

Foto: Diana Tinoco

Abaixo o gueto
Sim, aceitemos que tudo está consumado, pensamos dali a uns dias, ao visitar uma outra mulher dotada de uma capacidade de aceitação invejável. Quando entramos no apartamento de Maria Velez, um 6º andar na Graça, com uma vista panorâmica sobre Lisboa, sabemos que estamos a quebrar-lhe a rotina. Mas também sabemos que não se queixa dos seus dias agora passados em casa e sozinha, só com a visita de Manuela Fernandes, ajudante de ação direta da Voz do Operário.

Porque é antinatural, somos um animal social. No fim disto pode haver muitas depressões”

Fernanda Melo de Sousa

“Bom dia, princesa! Hoje para o almoço tem um primo do linguado com batata cozida, bem bom.” Todos os dias, a antiga oleira-formista na Fábrica Viúva Lamego, há 14 anos a dar apoio domiciliário a idosos, lhe entra no apartamento de voz alegre e sorriso escondido pela máscara cirúrgica.

Aos 89 anos, Maria ainda gosta de tomar o pequeno-almoço numa pastelaria, de almoçar fora, dar umas voltas pelo bairro, comprar o Público e ir supermercado. Ou gostava. Agora, valem-lhe a companhia de Manuela e as plantas que tem no terraço e que rega até quase as afogar.

“É um pouco chato uma pessoa perder a liberdade”, diz, no seu ar doce, ganhando mais um mimo de Manuela, que já tinha confidenciado dar-lhe abraços sempre que a sente triste. A verdade é que os abraços ajudam mais do que a televisão, a que liga pouco. Prefere as notícias em papel.

Além das 35 pessoas que recebem apoio domiciliário, a Voz do Operário fornece refeições a mais cerca de 30. Os cestinhos estão guardados – agora a comida segue em sacos de plástico e material descartável. Quem vai ao refeitório leva os seus próprios tupperwares, e são muitas vezes os filhos que o fazem, para poupar os pais.

É essa também a lógica seguida pela família de Eulália Matos Pinto, cuja fotografia abre este artigo. Desde meados de março que a antiga professora de Educação Física trocou o apartamento em Oeiras pela casa de fim de semana junto à Azóia, no concelho de Sesimbra, onde mora temporariamente com o marido e duas netas. Tiago, o pai das miúdas, está com a mulher numa outra casa, ao fundo do terreno, e é ele quem vai às compras.

A avó “Lau” tem uns 76 anos ativos, zero doenças no currículo e “a grande sorte” de poder passar os dias com as gémeas Joana e Maria, de 10 anos. “Tenho a perfeita consciência de que somos uns privilegiados, e de que maneira!”, diz, antes de mais uma tarde a acompanhar as aulas online e os TPC das netas. “É trabalho, mas alivia o isolamento.”

Joana e Maria estão habituadas a passar temporadas com os avós na Azóia, onde têm um quintal bom para andar de bicicleta e muito espaço para fazer caminhadas. Agora, todos lavam mais as mãos, mas sem paranoias, graças ao isolamento natural da propriedade.

No Domingo de Páscoa, Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, disse ser “preciso limitar, tanto quanto possível, os contactos dos seniores”, enquanto não houver uma vacina para o novo coronavírus. “As suas orientações mantêm-se”, nota a socióloga Maria João Valente Rosa (ver entrevista). “Há sempre essa nuvem a pairar sobre os mais velhos…”

Eulália vê-se tranquilamente a ficar na Azóia até setembro, mas também vai gostar de voltar de vez em quando a Oeiras, onde espera não ser apontada a dedo na rua. “Não tenho a sensação de ser velha, sinto-me perfeitamente capaz de fazer as coisas. Se estou válida para tomar conta das miúdas, por que razão não posso ir comprar batatas? Não podemos ser colocados num gueto, como se fôssemos os grandes culpados da propagação do vírus. Não é justo.”

Foto: José Carlos Carvalho

Maria João Valente Rosa demógrafa e antiga diretora do projeto Pordata, 58 anos
“Não podemos colocar 
os idosos numa caixa singular”

A idade biológica conta mais do que a cronológica, lembra a socióloga

Devemos continuar a pedir aos mais velhos que se mantenham em casa, mais do que à restante população?
A Covid-19, pelo pouco que se sabe, é um vírus que tem particular incidência em pessoas mais frágeis do ponto de vista da saúde. E há uma ligação entre a idade e o risco. Mas extrapolar isso para a população em geral é abusivo porque a idade não é definida pela data de nascimento – a idade biológica conta mais do que a cronológica. Portanto, quando fazemos uma barreira nos 70 anos, estamos a usar uma barreira artificial. Não são todos os idosos, a ligação não é tão direta quanto isso. É incorreto e injusto mandá-los ficar em casa.

Mas vemos que são eles quem mais morre.
Quando olhamos para os dados que temos – que são poucos e contraditórios –, percebemos que grande parte das situações de morte aconteceu em lares de idosos. Portanto, são pessoas que já tinham uma saúde débil e a mobilidade reduzida. E que, num lar, muitas vezes com pouco espaço e em convivência com outras pessoas infetadas, são bombas atómicas. Acho estranho que se fique tão espantado pelo facto de os óbitos estarem a acontecer com mais intensidade nos lares, que são terrenos tão propícios.

A percentagem de mortes em lares é realmente enorme – 40% do total dos óbitos.
É preciso perceber quem são as pessoas que estão a morrer. A grande fatia é das pessoas mais velhas – cerca de 88% eram pessoas com 70 ou mais anos. Mas este padrão de comportamento da Covid-19 não é muito diferente do padrão de mortalidade. As doenças respiratórias são a terceira causa de morte em Portugal e 90% desses óbitos são de pessoas com 70 ou mais anos. Há uma incidência nas idades avançadas, sim. A idade em termos genéricos está associada a um aumento da prevalência de certas doenças, mas cada idoso é diferente do outro.

Quando começaram a morrer pessoas que nem tordos em Itália, veio logo alguém lembrar que é o país mais envelhecido da Europa. Faz sentido?
Não encontrei relação entre países mais envelhecidos e maior vulnerabilidade. Por exemplo, Portugal é um país quase tão envelhecido como Itália e não tem a mesma incidência. Em Itália, ela pode ser explicada por aspetos como o estilo de vida e as relações familiares. A verdade é que muitas vezes tentamos tirar ilações a partir da observação com pouca distância temporal. Queremos concluir alguma coisa, mas são conclusões precipitadas. Deixem pousar a poeira! Neste momento, pouco se sabe sobre o comportamento da Covid, até há variantes do vírus… É tudo muito plural, não podemos colocar os idosos numa caixa singular.

Palavras-chave:

Não há melhor pretexto para abrir uma garrafa de vinho do que o simples desejo de bebê-lo, seja porque se conhece e aprecia, seja porque se apresenta como novidade. E nunca o mercado foi tão rico de sugestões como agora: os vinhos de todos os tipos e estilos crescem em número e qualidade. Isto é verdade quando se fala de um champanhe francês clássico (passe o pleonasmo, porque champanhe só em Champagne, na França), como o Veuve Clicquot; de um espumante português despretensioso, como o Lancers; ou de um vinho branco também português, como o Alvarinho Deu La Deu, da Adega de Monção.

A marca Veuve Clicquot perpetua a memória de Madame Clicquot, mulher que assumiu a liderança da empresa familiar, aos 27 anos – com Napoleão no poder, em 1805 –, e fê-lo de forma tão inovadora e ousada que obteve grande popularidade em França e no mundo. Até hoje. A divisa da casa é inspiradora: La joie de vivre. E o tão característico rótulo amarelo do Veuve Clicquot Brut Yellow Label (Carton Jaune, em França), que leva a assinatura de la grande dame de Champagne, tornou-se o seu símbolo.

O espumante Lancers foi criado em 1944 pela empresa José Maria da Fonseca, por sugestão de um cidadão americano, com a ideia de lançar um vinho rosado nos Estados Unidos. O resultado foi um sucesso que se estendeu a outros países e perdura. Pretendia-se um produto agradável e despretensioso, e assim é, ainda hoje, insinuando-se para momentos festivos e/ou de descontração.

A Adega de Monção é um caso de estudo pela qualidade consistente, quer da gestão, quer dos produtos, mormente o vinho. Tem 1 720 produtores associados com uma área conjunta de vinha de 1 237 hectares, que produzem cerca de oito milhões de quilos de uvas por ano, sendo 60% da casta Alvarinho. Escolhemos um vinho singular, não por ser só da casta Alvarinho, ou por celebrar os 30 anos de enólogo do Engenheiro Moura, que o assina, mas por ter qualidade excecional. Prova obrigatória.

Veuve Clicquot Champagne Brut
Este champanhe tem como sinal distintivo o rótulo amarelo, que marca o estilo e a qualidade da casa. Por isso se designa Veuve Clicquot Carte Jaune (ou Yellow Label). Resulta de um lote de 50 a 60 vinhos de reserva com as castas Pinot Noir (mais de 50%), Chardonnay (28 a 33%) e Meunier (15 a 20%) e apresenta cor amarela-dourada, bolha finíssima, aroma muito frutado, paladar elegante e sedoso com enorme frescura. Gastronómico por excelência. €49,90

Lancers Espumante Brut Rosé
Inicialmente destinado aos Estados Unidos, conquistou outros países, incluindo o de origem, sendo tão fácil de encontrar como de beber. Tem cor salmonada viva, bolha entre fina e média, aroma expressivo a frutos vermelhos com um toque floral, paladar suave com boa fruta, acidez equilibrada, final longo e agradável. Vocacionado para aperitivo, também acompanha pratos leves e sobremesas. €5,99

Alvarinho Deu La Deu 30 Anos Engenheiro Moura Branco 2016
Só de uvas da casta Alvarinho com estágio sobre as borras finas, em cuba, até à execução do lote. Tem aspeto brilhante, cor amarela–palha aberta, aroma complexo com notas de frutos secos e um toque citrino, paladar encorpado, untuoso, redondo, elegante, com muito boa fruta, frescura, mineralidade e sabor. Cola-se ao palato de forma persistente e sedutora. Irresistível. €19

Os Estados Unidos registaram 749 mortos devido à covid-19 nas últimas 24 horas, elevando o total para quase 110 mil óbitos desde o início da pandemia, segundo a contagem realizada pela Universidade Johns Hopkins.

De acordo com os números contabilizados diariamente pela Universidade Johns Hopkins, sediada em Baltimore (leste), até às 20:30 de sábado (01:30 de hoje em Lisboa) os Estados Unidos superaram atingir 1,9 milhões de casos de contágio, sendo que cerca de 500 mil pessoas foram dadas como curadas.

O país tem o maior número de vítimas fatais e de casos confirmados em todo o mundo.

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse na sexta-feira que os Estados Unidos “superaram amplamente” a pandemia da covid-19 e voltou a apelar aos governadores a suspenderem o confinamento e outras restrições ainda em vigor.

De acordo com uma média de nove modelos epidemiológicos produzidos por pesquisadores da Universidade de Massachusetts, o número de mortes por covid-19 deve atingir as 127 mil no país até 27 de junho.

Embora a pandemia tenha desacelerado nos Estados Unidos desde o pico atingido em meados de abril, os profissionais de saúde estão preocupados com um agravamento ao nível de casos e de mortes nas próximas semanas, devido aos atuais protestos contra o racismo e a brutalidade policial.

A pandemia da covid-19 já provocou quase 400 mil mortos e infetou mais de 6,8 milhões de pessoas em 196 países e territórios, der acordo com a agência de notícias France-Presse.

A doença respiratória é causada por um novo coronavírus detetado no final de dezembro, em Wuhan, uma cidade do centro da China.

JMC // JMC

Ao todo, o Brasil já confirmou 672.846 casos e 35.930 mortes provocadas pela covid-19.

No sábado, o Governo brasileiro confirmou que realizou mudanças na divulgação dos dados consolidados sobre casos e mortes provocadas pela pandemia.

Após quase 24 horas fora do ar, o site do Ministério da Saúde no qual se divulga os números de infeções, mortos e outros informações relevantes sobre a pandemia regressou ao ar com informações parciais, que excluem o número total de mortos e o total de casos da doença registados no Brasil.

Dessa forma, o Governo brasileiro passou a relatar apenas o número de casos e de óbitos registados nas últimas 24 horas.

Além da suspensão da divulgação de parte dos dados consolidados, o Presidente, Jair Bolsonaro, também confirmou que o Governo informará os números após as 22:00, horário local, muito depois dos horários em que os números eram divulgados desde que o vírus chegou ao país.

“Para evitar subnotificação e inconsistências, o @minsaude optou pela divulgação às 22h, o que permite passar por esse processo completo”, escreveu o chefe de Estado brasileiro na sua conta na rede social Twitter.

A mudança na metodologia causou protestos em diferentes setores, que acusaram o Governo brasileiro de dificultar o acesso à informação.

A alteração também foi associada à intenção de impedir que as informações sejam divulgadas nos noticiários noturnos da rede Globo, que têm a maior audiência do país, e nas edições impressas dos jornais brasileiros.

Na sexta-feira, em declarações aos jornalistas, o próprio Bolsonaro disse que, com a mudança, a rede Globo deixaria de ser a “TV Funeral”.

O ex-ministro da Saúde do Brasil Luiz Henrique Mandetta, que deixou o cargo por discordar do Presidente brasileiro sobre as melhores ações para o combate à pandemia, afirmou hoje durante uma transmissão ao vivo na internet que a decisão de suspender a divulgação do número total de mortes e infetados no país “é uma tragédia”.

O Conselho Nacional de Secretários de Saúde, que reúne autoridades de saúde dos 27 estados brasileiros, emitiu uma declaração afirmando que as mudanças juntamente com a sugestão de executar uma revisão de dados consolidados por governos regionais enviados diariamente ao Ministério da Saúde visam “dar invisibilidade aos mortos”.

A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) informou, por sua vez, que “enquanto o número de mortos e contaminados atinge níveis recordes no país, devastando a vida de milhares de brasileiros, o Governo de Bolsonaro escolhe dificultar o acesso a informações sobre o progresso do vírus”.

No início da noite, a Defensoria Pública da União (DPU), órgão governamental que indica gratuitamente advogados aos carenciados (advogados oficiosos), informou que avançou com um pedido judicial para exigir que o Ministério da Saúde volte a divulgar os números suprimidos no portal que relata dados da doença.

A pandemia de covid-19 já provocou mais de 397 mil mortos e infetou mais de 6,8 milhões de pessoas em 196 países e territórios, segundo o balanço feito pela agência francesa AFP.

CYR //JMC

Palavras-chave:

Os protestos são promovidos por grupos como a Frente Povo Sem Medo e Mais Democracia e por adeptos de grupos organizados de adeptos de equipas de futebol, e que já protestaram contra o Governo brasileiro no último fim de semana, em atos que terminaram em confrontos.

“Vamos à Avenida Paulista pela democracia. Todos de máscara e garantindo o distanciamento para não propagar o vírus. Pela vida e contra o fascismo. Aqui está o povo sem medo de lutar!”, diz a convocação do Mais Democracia, difundida na rede social Facebook.

O grupo também afirmou querer sair à rua em defesa da democracia para “não deixar o fascismo crescer no Brasil”.

Enquanto grupos opositores ao chefe de Estado se organizam para protestar, o governante tem pedido aos seus apoiantes que não saiam às ruas no domingo para evitar confrontos.

Durante uma transmissão ao vivo na rede social Facebook realizada na quinta-feira passada, Bolsonaro clasificou os grupos que convocam protestos contra ele como “idiotas”, “viciados” e que “não servem para nada”.

Bolsonaro também disse que os manifestantes que o consideram e ao Governo que lidera uma ameaça para a democracia apenas procuram causar tumultos e são violentos.

“Os governadores, que têm compromisso com a democracia de verdade, com a Constituição, com as leis, com o bem-estar da população, estão se preparando para reagir, caso o pessoal ultrapasse o limite da racionalidade”, afirmou o Presidente brasileiro.

Há uma semana, protestos contra o Governo brasileiro foram organizados por adeptos de equipas de futebol do país.

Em São Paulo, a iniciativa acabou em confusão, após confrontos entre os adeptos das equipas de futebol e apoiantes do chefe de Estado brasileiro, que também convocaram uma manifestação para o mesmo local, a favor do governante.

Até às últimas semanas, as ruas do país estavam tomadas apenas por pequenos grupos que apoiam Bolsonaro, que organizaram ações frequentes para defender o Presidente brasileiro e criticar membros dos outros poderes e as medidas de isolamento social decretadas por autoridades locais em estados e cidades do país.

Bolsonaro contactou diretamente com vários manifestantes em protestos deste tipo, em Brasília.

No último domingo, porém, atos contra Bolsonaro também ganharam força nas ruas do país, mostrando a profunda divisão que vive a sociedade brasileira.

CYR // JH

Palavras-chave:

A resolução do Conselho de Ministros que aprova este programa foi publicada no sábado à noite no suplemento do Diário da República e inclui as previsões do Governo para 2020 e 2021, que não tinham sido apresentadas na quinta-feira, na conferência de imprensa que se seguiu à reunião do executivo.

“Em virtude do efeito das medidas de apoio ao emprego adotadas [no âmbito da pandemia da covid-19], estima-se que a redução no emprego seja significativamente inferior à redução do PIB”, lê-se nas explicações que acompanham o quadro macroeconómico.

Em 2019, a taxa de desemprego foi de 6,5%, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) citados no documento.

O Governo apresenta na terça-feira a proposta de orçamento suplementar deste ano.

MLS // JLG

Palavras-chave:

O Governo estima uma queda do PIB de 6,9% este ano, devido à pandemia da covid-19, e prevê um crescimento de 4,3% em 2021, segundo o Programa de Estabilização Económica e Financeira, aprovado na quinta-feira.

A resolução do Conselho de Ministros que aprova este programa foi publicada no sábado à noite no suplemento do Diário da República e inclui o cenário macroeconómico 2020-2021, que não tinha sido apresentado na quinta-feira, na conferência de imprensa que se seguiu à reunião semanal do executivo.

“Para 2020, perspetiva-se uma forte contração da economia portuguesa, em resultado do choque económico provocado pela pandemia da doença covid-19 e das medidas de contenção implementadas. Neste contexto, prevê-se uma queda abrupta na taxa de variação real do PIB [Produto Interno Bruto] para 6,9%, a maior contração de que há registo nas últimas décadas”, lê-se no documento.

O Governo estima que o impacto ocorra principalmente no segundo trimestre do ano, “após a quebra de 2,3 % registada no primeiro trimestre de 2020”.

O crescimento do PIB em 2019 foi de 2,2%, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) citados no documento.

O Governo apresenta na terça-feira a proposta de orçamento suplementar deste ano.

MLS // JLG

Palavras-chave:

A informação foi prestada à agência Lusa pelo presidente da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV), Manuel Pinheiro, a propósito do Dia de Monção e Melgaço, que se celebra domingo a propósito daquela portaria (n.º152/2015), que permite liberalizar o uso da denominação Alvarinho na região dentro de um ano.

Volvidos cinco anos, Manuel Pinheiro salienta que o vinho verde de Monção e Melgaço reforçou a sua autonomia dentro da região, “ganhou o seu próprio selo de garantia” e uma campanha promocional específica e tudo isto graças a esse acordo alcançado em 13 de janeiro de 2015 e vertido naquela portaria em maio desse ano.

A portaria estabeleceu, ainda, que se manteria a exclusividade de Monção e Melgaço na produção de Vinho Verde Alvarinho até 2021.

A nível promocional, ficou também acordado que a CVRVV lançaria um plano de investimento de três milhões de euros na marca Monção e Melgaço, focada na casta Alvarinho, tendo Manuel Pinheiro revelado, a propósito, que a Comissão avançará já em julho próximo com “uma campanha específica” para aquela sub-região.

O presidente da CVRVV, que desempenhou um papel ativo nas complexas negociações entre as partes envolvidas, considera que “o acordo provou ser um sucesso e não se confirmaram os receios” de muitos produtores locais, que por várias vezes ameaçaram abortar um entendimento.

Monção e Melgaço pagam hoje o” mais elevado preço pelas uvas em Portugal, um euro por quilo”, exemplificou ainda o mesmo responsável, destacando, ainda, que os vinhos Alvarinho originários dali são os mais valorizados pelos consumidores apreciadores dessa casta.

Aquela sub-região produziu em 2019 seis milhões de litros de vinho branco, 500 mil de vinho tinto e quase 190 mil de rosé, tendo “50 engarrafadores e dois mil produtores”, de acordo com o mesmo dirigente.

“São mais de mil hectares de vinha plantada, a grande maioria de Alvarinho”, acrescentou, frisando que o vinho é um dos principais pilares da economia local.

A pandemia de covid-19 teve “dois grandes impactos” negativos na sub-região, um causado pelo encerramento da restauração, que absorvia uma boa parte da produção local de vinho, e o outro devido ao encerramento das fronteiras, que Manuel Pinheiro diz ter sido “muito duro” para o negócio.

Devido às restrições ainda em vigor devido à covid-19, as feiras de Monção e de Alvarinho tiveram de ser cancelada e as celebrações do Dia de Monção de Melgaço estão confinadas ao espaço digital, com “iniciativas promovidas por vários produtores” através da internet.

AYM // MSP

A reunião do órgão máximo do partido entre convenções volta a realizar-se por videoconferência devido à pandemia de covid-19 e, no final, está marcada a habitual conferência de imprensa da coordenadora do BE, Catarina Martins, a partir da sede nacional, em Lisboa.

Fonte oficial do partido adiantou à agência Lusa que “a Mesa Nacional debaterá a adaptação da atividade do Bloco de Esquerda às condições exigidas para garantir a segurança sanitária em tempo de pandemia”.

“Será tomada uma decisão sobre a data da próxima Convenção Nacional. Este processo, como é público, foi suspenso na última reunião da Mesa Nacional”, refere a mesma fonte.

Em relação às questões nacionais, o órgão máximo entre convenções liderado por Catarina Martins bloquista deverá “debater a resposta à crise económica e social”.

Apesar dos avanços que dizem já terem conseguido, o BE promete continuar a lutar, no âmbito das negociações do Programa de Estabilização Económica e Social e do Orçamento Suplementar, “por uma resposta que proteja os salários e o emprego, a habitação e todos os trabalhadores precários”.

A XII Convenção Nacional do BE estava prevista para 24 e 25 de outubro, no Porto, mas o seu adiamento está agora em cima da mesa.

A Mesa Nacional em 18 de abril suspendeu os prazos e regulamento da reunião magna do partido e remeteu uma decisão final para este mês.

Em meados de maio, questionada pela agência Lusa, fonte oficial do partido garantiu que a Mesa Nacional deste domingo tomaria as decisões sobre a realização da Convenção Nacional e do Fórum Socialismo, a `rentrée´ bloquista, bem como todas as iniciativas que juntam muitas pessoas e que estão suspensas devido à pandemia.

JF // SF

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“É muito triste, a gente tinha sempre muita gente. Era um bairro, nesta altura do Santo António, em que estava tudo enfeitado, era uma alegria, mas agora parte das pessoas também já não moram cá, umas morreram, outras foram despejadas”, conta Maria Helena Dias, de 84 anos, à porta de casa.

Perante a “desgraça” da pandemia da covid-19, a alfacinha apoia o cancelamento das Festas de Lisboa, inclusive arraiais e marchas populares. “Se Deus quiser, para o ano, havemos de estar cá todos”, perspetiva, sem deixar de apregoar que “Santo António é Alfama”.

“Fechada em seu desencanto/ Alfama cheira a saudade/ Alfama não cheira a fado/ Cheira a povo, a solidão/ Cheira a silêncio magoado/ Sabe a tristeza com pão.” Estes versos, interpretados por Amália Rodrigues, voltam a traçar a atualidade de um dos bairros históricos de Lisboa, precisamente no ano em que se assinala o centenário do nascimento da fadista.

“Devido ao turismo, despejaram as pessoas. Devido ao vírus, os turistas fugiram. Por isso, o bairro está vazio e, claro, as pessoas estão muito tristes, porque nesta altura todas as ruas estavam enfeitadas, toda a gente estava a viver os santos populares”, afirma a presidente da Associação do Património e da População de Alfama (APPA), Maria de Lurdes Pinheiro, em declarações à agência Lusa.

Em pleno mês das Festas de Lisboa, estas ruas estreitas, com becos e travessas, estão quase sem ver passar vivalma. Sem a agitação de pessoas a subir e a descer as escadinhas, numa espécie de labirinto sob orientação do rio Tejo, os poucos vestígios de folia são os enfeites nas varandas, alguns a teimar em sair desde os festejos de outros anos.

“É triste, dá um ar de abandono”, lamenta a presidente da APPA. Apesar de sobressair a tristeza, a situação traz algum contentamento, pelo alívio da enchente de turistas. “Respira-se melhor, não há barulho, porque era horrível”, indica Maria de Lurdes Pinheiro, acrescentando que agora se voltou a ouvir falar português.

A pandemia veio pôr a nu alguns dos problemas em Alfama, onde é preciso um equilíbrio entre turismo e moradores, para “não transformar este bairro num deserto, num bairro quase fantasma”, defende a representante. “Precisamos de ter o comércio tradicional, voltar a ter as mercearias, as tabernas, a frutaria, a peixaria e também pessoas a viver dentro do bairro”, reclama.

Proibidos os arraiais em Lisboa, os moradores vão recordar “como se fazia antigamente” e festejar à porta de casa, reunindo a família à volta de um fogareiro para a sardinhada e a troca do manjerico, adianta Maria de Lurdes Pinheiro, perspetivando que não se registem aglomerados e que os festejos do próximo ano possam ser vividos “com mais qualidade em tudo”.

Há três décadas em Alfama, Judite Gomes, de 62 anos, tem raízes transmontanas, esteve emigrada em Paris, mas foi aqui que encontrou um lar. Conhecida por “a francesa” ou “a morgadinha de Alfama”, alcunha que dá nome aos seus três restaurantes, a comerciante assume que “custa imenso” não ter arraiais.

“Não conheço Alfama assim. Infelizmente, nem moradores, nem festas, não há nada”, conta, lembrando que este era “um mês cheio de vida e de alegria”, com a visita de turistas nacionais e estrangeiros.

Compreendendo a decisão de proibir os festejos, a comerciante alerta que é impossível “sobreviver sem pessoas”. Apesar de ter aberto as portas dos seus restaurantes há duas semanas, após meses de confinamento, os clientes tardam em chegar, enquanto os gastos de funcionamento se vão somando, inclusive luz e água.

“Que sejamos todos unidos, que consigamos chegar ao ano que vem e que façamos uma festa a dobrar”, realça Judite, mostrando-se preparada para lutar contra o impacto da pandemia: “Tudo o que desejo é que não fique doente com este vírus.”

À entrada do bairro, no miradouro das Portas do Sol, é visível a falta de turistas, com o elétrico 28 a circular vazio e as esplanadas desafogadas. Entre os comerciantes, há quem aproveite para dizer que não faz falta o “turismo de autoclismo”, que era descarregado nos pontos icónicos de Lisboa e descia em direção ao rio, sem acrescentar valor.

Sob o tema “Assim Deus quis”, Alfama conquistou o 2.º lugar no concurso das marchas populares de Lisboa de 2019. Com os arcos alusivos às varinas e pescadores a serem aproveitados para decorar o bairro, a marcha de Alfama espera pelo próximo ano para voltar à rua. No Centro Cultural Dr. Magalhães Lima, coletividade que organiza a marcha, o salão está carregado de boas memórias, a que se junta hoje a saudade.

“É uma tristeza não haver marcha, é uma tristeza muito grande, muito triste, a gente está habituada, isto é uma folia, só visto”, enaltece Maria Helena Dias, que vive em frente à coletividade, recorda que marchou pela primeira vez em 1955, participando desde os 14 até aos 60 anos.

Para o figurinista e cenógrafo da marcha de Alfama, Nuno Lopes, o cancelamento do concurso “é um marco que vai ser difícil de digerir, pelo menos no mês de junho”, mas a ideia de celebrar o Santo António fora de época “não faz sentido nenhum”.

Com o trabalho guardado na gaveta, destaca-se a vontade de marchar, que virá “em dobro para o ano seguinte”, prevê Nuno Lopes, referindo que este ano “não há qualquer tipo de possibilidade de fazer nada físico, infelizmente”.

Se não fosse a organização de anos de trabalho, faltavam marchantes em Alfama, em consequência do despejo de moradores: “Olhamos para a marcha e dizemos assim ‘quantos moram cá agora? Dez por cento’, já ninguém mora aqui”, reconhece.

Filha do bairro, Carina Rocha, de 37 anos, cresceu no meio da marcha, tanto que participa como marchante “há 20 anos, desde 1999”.

“Estamos muito tristes com este cancelamento, mas todos temos consciência de que esta era a decisão mais certa”, sustenta, sem esquecer a mão na cintura, porque “não há nada que possa amenizar a dor, que isto é uma dor mesmo para quem vive as marchas populares”.

Sem a correria dos ensaios, Carina anseia pela vitória da marcha no próximo ano, com “vontade a dobrar” para trabalhar nessa conquista e um “orgulho imenso”.

“Quem vem aos arraiais em Alfama sabe que, às vezes, nem conseguimos pôr os pés no chão, parece que andamos no ar, todos juntos, e era muito perigoso, não fazia sentido sequer fazer arraiais neste ano”, diz.

Fundado em 1916, o Grupo Sportivo Adicense é uma das coletividades que vão sentir o impacto direto da proibição dos arraiais, que organiza com ‘comes e bebes’.

“É estranho e é triste, numa perspetiva emocional dos sócios e das pessoas. Tem algum impacto na vida da comunidade, não só social, cultural, e também um pouco na vertente económica, mas apesar de tudo as pessoas compreendem a necessidade de este ano não haver santos populares, nem arraial”, observa João Monteiro, secretário do Sportivo Adicense.

No âmbito da pandemia, a coletividade está preocupada com as dificuldades de moradores e comerciantes – foi pedido aos sócios que substituam o pagamento das quotas por entrega de produtos de mercearia que serão entregues no projeto Mesa dos Afetos, da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, para assegurar refeições.

SSM // ROC