Ao contrário de Usain Bolt, que domina qualquer ambiente onde apareça, Yohan Blake é quase invisível na sala apinhada de jornalistas. Não fosse terem-lhe dado o palco para apresentar os sapatos de 99 gramas com que vai correr no Estádio Olímpico de Londres e ninguém teria dado pela sua presença. Parecia apenas mais um atleta (isso nota-se!) tímido, ofuscado pelos outros mais exuberantes e por algumas velhas glórias que costumam estar no lounge da Adidas, em Statford, ao lado do Parque Olímpico.

Percebe-se o seu pouco à vontade, pois foi tudo muito rápido na sua vida: após uma infância num ambiente de grande pobreza, foi "salvo" pelo atletismo. Há quatro anos, estava na Jamaica a ver Bolt coroar-se rei em Pequim, mas no ano passado foi ele, Blake, quem se sentou no trono de campeão do mundo. E já este ano, nas provas de qualificação jamaicanas, derrotou Usain Bolt por duas vezes, tanto nos 100 como nos 200 metros.

Como se sente aqui nos Jogos Olímpicos?

Estou excitadíssimo. É a minha primeira vez nuns Jogos e estou a adorar o ambiente na Aldeia Olímpica, com uma atmosfera maravilhosa.

Com quem partilha o quarto?

Bem, por acaso com ninguém. Estou num quarto single...

Sente que há uma grande pressão à sua volta depois de ter derrotado Usain Bolt?

Não dou importância a isso. Eu só tenho é que me preocupar em fazer o meu trabalho. Olhar para a linha que me derem e correr o máximo que puder. É só isso. E para o fazer só preciso de me sentir confortável, não preciso de intimidar ninguém ou deixar-me intimidar por quem quer que seja.

Mas não teme que a maior experiência de Usain Bolt seja determinante?

Numa corrida de 100 metros a experiência não conta para nada. O que conta é quem corre mais depressa. E o mais rápido sou eu, este ano (9,75 nos trials da Jamaica) ninguém fez melhor do que eu. É nisso que tenho que me fixar.

Pensa, então, em bater o recorde do mundo dos 100 metros?

Eu acho que esta vai ser uma corrida histórica. Todos os que estamos a apontar à final somos muito rápidos: eu, o Usain (Bolt), o Tyson (Gay), o (Justin) Gatlin, o Asafa (Powell)... Mas uma coisa posso garantir; nenhum de nós vai procurar recordes. O que todos queremos é a medalha de ouro.

É verdade que, desde que lhe ganhou, a sua relação com Usain Bolt se modificou?

Isso é totalmente falso. Nós continuamos a dar-nos lindamente. Treinamos juntos, rimo-nos juntos. O Usain é um tipo fantástico. Agora, claro, quando chegar a hora da corrida será cada um por si...

Onde estava, há quatro anos quando Usain Bolt espantou o mundo com aquela corrida nos Jogos de Pequim?

Estava em casa a ver a prova pela televisão. Tinha saído da escola e fui para casa ver, claro. Eu ainda tentei pertencer a essa equipa olímpica, mas era novo e não tão bom. Em quatro anos vejam como tudo mudou. Uahau!

Na final vai estar focado em vencer Usain Bolt?

Não. Na final, como já disse, vou estar focado na minha pista e executar bem tudo o que tenho para fazer. Esse é o meu único foco. A minha filosofia é sempre a mesma: sê como és e acredita que o céu é o limite.