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Blair quer combater o populismo a partir do centro. E com pontes para os descontentes

Web Summit

Marcos Borga

Ligações com os que se sentem à margem da globalização e reflexão, análise e criatividade que gerem benefícios para todos e não apenas para uma elite: as chaves do antigo primeiro-ministro britânico para trancar o populismo no Ocidente.

Era para ser um painel sobre a “história interminável” do Brexit, mas a discussão acabou por extravasar para lá das quezílias entre Londres e Bruxelas e trouxe para a sala as próximas eleições no Reino Unido e as formas de combater o populismo nas democracias ocidentais. E, aí, Tony Blair deixou um aviso: não se apaga fogo com gasolina. O mesmo é dizer que não se combate populismo de extrema direita com populismo de extrema esquerda.

“Populismo não é política popular. É quando exploramos o descontentamento em vez de lidar com ele. Se queremos derrotá-lo [o populismo], temos de construir a partir do centro,” defendeu esta terça-feira o ex-primeiro-ministro britânico em Lisboa, perante uma sala cheia na Web Summit.

Para o antigo líder trabalhista, essa construção a partir do centro passa por “fazer pontes,” seja com o eleitorado descontente que nos EUA elegeu Donald Trump, seja com o que no Reino Unido votou maioritariamente pela saída na União Europeia no referendo de 2016. Ambos os casos ligados a populismo, referiu, e onde é preciso estabelecer ligações que mostrem que os problemas que mais dividem os cidadãos estão a ser tratados de forma responsável (deu o exemplo da imigração) e que respondam aos anseios de todos aqueles que se sentem à margem da globalização.

“Quem queira candidatar-se a um cargo político no ocidente, a imigração é um problema. Tem de ter uma política para lidar com ela. Tem de se celebrar o lado positivo da imigração, mas as pessoas também querem saber que existem regras,” argumentou. A chave está, especificou, em capacidades como reflexão profunda, análise detalhada e criatividade, essenciais para gerar benefícios “não para uma elite, mas para todos”.

A pouco mais de um mês de o Reino Unido ir a eleições gerais em que as sondagens dão os conservadores à frente nas intenções de votos, o protagonista da Terceira Via disse que a esquerda está a enfrentar dificuldades porque não está a conseguir incorporar a análise de como o mundo mudou. “É necessário para a esquerda ter uma nova agenda política para se sobrepor às duas escolhas: a da direita, de culpar imigrantes, e a da esquerda, a ideia de voltar aos anos 70 em que mais poder do Estado é mais poder para os cidadãos. Ninguém vai acreditar nisso,” sublinhou.

Blair voltou a manifestar-se contra o Brexit, as expetativas exageradas que estão a ser criadas junto dos cidadãos sobre a saída e frisou que além do “impacto da destruição”, a questão da saída da UE gera também o “impacto da distração”: “Suga a energia política do sistema e impede que se resolvam problemas como o impacto da revolução tecnológica ou as alterações climática.”

E insistiu na realização de um novo referendo, sob o argumento de que as pessoas estão hoje muito mais bem informadas sobre as consequências da saída da União Europeia. “Porque é que eles têm medo? Como é que isso [segunda consulta popular] é não democrático?,” questionou. Mas deixou uma garantia: caso haja novo referendo, saia que resultado saia– a favor ou contra a permanência na UE -, será o definitivo.