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“Pai” da Web lança contrato por uma melhor internet

Web Summit

Marcos Borga

Tim Berners-Lee aproveitou a audiência de mais de 20 mil pessoas que estiveram na cerimónia de abertura da Web Summit, em Lisboa, para apelar à sua ajuda na promoção do novo “Contrato para a Web”, que pretende tornar a internet mais livre e responsável

Tim Berners-Lee, o homem que criou a internet, aproveitou a sua intervenção na cerimónia de abertura da Web Summit para apelar a todos os governos, empresas e indivíduos a assinar o “Contrato pela Web”, que define alguns princípios para defender uma internet mais livre, responsável e mais aberta.

“Precisamos de um Contrato para a Web com responsabilidades claras e duradouras para aqueles que têm o poder de a fazer melhor” disse o chamado “pai” da internet. E, nesta matéria, “os governos, as empresas e os utilizadores da rede terão um papel fundamental a desempenhar”.

Tim Berners-Lee lembrou que quando criaram a Web, pensavam “se ligarmos as pessoas e conseguirmos manter a rede aberta, decerto essas pessoas irão fazer coisas boas. O que poderia correr mal? Quase tudo. Problemas de privacidade, notícias falsas, manipulação…”

Para o cientista britânico de 63 anos, os utilizadores terão um papel fundamental nesta mudança. Mas o projecto não pode ir para a frente sem a ajuda das empresas e dos decisores políticos.

“Há aspectos políticos, como a neutralidade, que terá de envolver governos. Mas, noutros casos terão de ser a empresas, quer sejam grandes, pequenas ou startups. Se for um ISP (Fornecedor de Serviço de Internet) terá de fornecer uma internet neutra, se for uma empresa de uma rede social terá de garantir que sejam os utilizadores a controlaram os seus dados pessoais”, salientou.

O Contrato para a Internet está ainda a ser ultimado e a sua redação final só deverá ser conhecida em Março, mês em que a World Wide Web (WWW) fará 30 anos, e quando se espera que, pela primeira vez, metade da população mundial esteja ligada à rede. E cada indivíduo deve prometer que “respeita o discurso e a dignidade humana para que toda a gente se sinta segura e benvinda online”.

Os princípios descritos nesta primeira versão do Contrato para a Web já tiveram o apoio de mais de 50 organizações, entre as quais o Governo francês, o primeiro país a subscrever o contrato.

“Somos todos responsáveis pela criação de uma Web melhor. Peço a vossa ajuda para fazerem parte desta mudança”apelou Tim Berners-Lee às mais de 20 mil pessoas que esgotaram as cadeiras do Altice Arena neste primeiro dia da Web Summit.

Tim Berners-Lee foi considerado pela revista Times uma das 20 personalidades mais importantes do século XX. Em 1989, quando trabalhava para a Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (CERN), quis criar uma rede através da qual os cientistas pudessem partilhar informação de uma forma rápida. Baseou-se num modelo de partilha de dados do governo dos EUA e desenvolveu a World Wide Web (WWW). No entanto, ao decidir abolir qualquer tipo de códigos de acesso, criou uma plataforma aberta e democrática que, em poucos anos, acabou por ganhar vida própria.

Berners-Lee percebeu muito cedo do poder da sua criação e do impacto que ela poderia ter na sociedade, nos negócios e até na política. Tal como Robert Oppenheimer, o homem que liderou o projecto Manhattan, que levou ao desenvolvimento da bomba atómica, também Tim Berners-Lee percebeu que a sua invenção poderia destruir a sociedade atual caso caísse em mãos erradas.

Após os célebres casos da Cambridge Analytica, que trabalhou com a campanha de Donald Trump, tendo acesso a mais de 80 milhões de perfis de utilizadores do Facebook, Tim Berners-Lee decidiu “combater” a sua invenção.

Atualmente, o cientista de 63 anos, luta para que a Web saia do posse das grandes corporações e regresse às suas origens.