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As questões de género também mexem com a tecnologia

Web Summit

Danny Moloshok / Reuters

Era Bruce, agora chama-se Caitlyn. A transgénero mais conhecida do planeta veio contar como a internet ajudou a fazer uma outra revolução na cabeça das pessoas

"Quando é que souberam que eram raparigas?". A pergunta ecoou pela sala, dirigida a todas as mulheres presentes, naquele que foi o palco principal da cimeira que reuniu visionários, empresários e demais interessados no mundo da www, em Lisboa, nos últimos três dias, a Web Summit. "Provavelmente, desde sempre, certo? Pois comigo não foi sempre assim".

A mulher anteriormente conhecida como Bruce Jenner, estrela da televisão americana e ex-atleta olímpico, medalha de ouro no decatlo, em 1976, começou a sua palestra com uma confissão. "Senti-me muito tempo uma fraude, a enganar as pessoas sobre quem era". Do alto dos seus 68 anos, e com um vestido vermelho, usou dos seus 20 minutos de microfone aberto para revelar que não queria ficar refém a vida toda daqueles 48 minutos de fama, que o – ou melhor, a – perseguiam desde que ganhou a tal prova olímpica nos Jogos de Montreal. Até que chegou o momento de assumir quem realmente era. "Foi quando decidi enfrentar a minha audiência e dizer que tinha o soutien e a cuequinha vestida. Sem mais segredos".

Palmas.

Aproveitou para falar da sua comunidade (LGBT) e sublinhar que do L e do G e do B e do T este último era ainda o menos compreendido - e que todas as ferramentas são mais que bem-vindas para combater estereótipos. "O que é ser trans? Toda a gente tem questões para resolver. Eu tinha esta..." Foi então que atirou com a tal pergunta às mulheres da audiência - para depois dizer que essa é a grande questão que aflige alguém trans, a todos os minutos, horas do dia, todos os dias do ano. "E não se trata de sexo, trata-se de identidade".

E seguiu a lembrar que há transgéneros em todo o lado, em todos os países – e que a mensagem terá de passar. "Por exemplo, também sou canhota. E o que a sociedade pensou das pessoas canhotas durante muito tempo? Até as cadeiras da escola eram construídas com um tampo para escrever só do lado direito". Até que deixou de se preocupar. "Foi também isso que aconteceu com a minha identidade", depois de se encher de hormonas e psicoterapia.

Eram ainda os anos 1980, e foi um longo caminho, desde então, sempre a debater-se sobre quem era, e criando filhos pelo meio. "Tenho o maior orgulho neles". Até que separado, e com os miúdos crescidos, a dúvida aumentava na sua cabeça. "É assim que queres acabar os teus dias? Não".

Ouvimos ainda Caitlyn recordar que, nesses anos de 2004, já havia piadas de gosto duvidoso por todo o lado, fotos de uma cabeleira de mulher sobre o seu corpo de homem. Começou por falar com a família, que claro já sabia, bem lá no fundo, sobre o que aí viria. "Tenho todo o orgulho em ser teu filho, e ainda mais agora", ouviu do seu filho. Foi quando decidiu tornar a decisão pública, torná-la uma bandeira para o mundo, fazer com que as gerações seguintes tenham outra herança, fazer a diferença. E aqui que entra em campo a tecnologia, para ajudar a passar a mensagem. "Nunca quis falar em nome de todos. Esta é a minha história, e cada um tem a sua. Conheci as pessoas mais extraordinárias nesta minha nova comunidade, mas o mais importante para toda a gente é sentir-se bem na sua pele. E que sentimento maravilhoso, esse".

Mais palmas.

Sabemos que a questão não está de todo longe dos acontecimentos mais recentes. Há um mês, uma mulher transgénero foi morta nos EUA. No verão, a administração Trump tinha anunciado a suspensão de transgéneros no exercito – mesmo depois de, no início do ano, a National Geographic ter dedicado o seu número de janeiro à questão do género e das mudanças que a própria definição do conceito tem sofrido, e de como vai além do binómio rapaz e rapariga, homem e mulher. "Uma revolução", considerou. "'É disso que estamos aqui a falar: de uma revolução que está em curso", rematava Caitlyn, depois de recordar que já deu esse primeiro pequeno grande passo há mais de dois anos – foi quando ouvimos pela primeira vez "Call Me Caitlyn" -, e que esse foi também o nome do documentário que a Vanity Fair disponibilizou no You Tube, em julho de 2015, no primeiro dia em que a transgénero Caitlyn Jenner, em tempos conhecida por Bruce, veio dizer ao mundo de sua justiça.