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A tecnologia ajuda-nos a trabalhar ou escraviza-nos?

Web Summit

José Caria

A pergunta andou a pairar pelas conferências do terceiro dia da Web Summit e deixou muitas inquietações no ar. Apenas uma certeza: o mundo ’offline’ está em vias de extinção

Quando os empresários oferecem computadores e telemóveis aos seus funcionários, estão à espera que estes os usem ao fim-de-semana? E quando enviam um email… é suposto o trabalhador responder de imediato, existe essa expetativa? E os empregados gostam mesmo da flexibilidade de horários ou isso é conversa de patrão?

Estas foram algumas das questões que surgiram em várias conferências da Web Summit dedicadas ao mundo do trabalho e aos recursos humanos. E quando se julgava que o caminho inevitável passaria pela perda total dos direitos laborais, conquistados com sangue, suor e lágrimas, eis que surge uma sondagem surpreendente: 69% dos jovens europeus entre os 16 e os 35 anos colocam o equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal entre as suas maiores prioridades.

Portanto, calma com as conclusões precipitadas. E voltamos ao papel da tecnologia em tudo isto.

“A tecnologia é maravilhosa, mas definitivamente não nos ajuda a criar fronteiras entre os diferentes aspectos da nossa vida quando a última coisa que vejo antes de ir dormir é o email e a primeira ao acordar a conta do Twitter”, refere Bill Briggs, diretor de tecnologia da Deloitte.

Charles Manning, presidente da Kochava, uma aplicação que mede a eficiência de uma campanha de marketing, não concorda. Habituado a receber telefonemas de trabalho às três da manhã, diz que só a tecnologia lhe permite dirigir uma startup de sucesso e continuar a viver numa pequena cidade de 17 mil habitantes. Além disso… “Quando se é apaixonado pelo que se faz, isso não é trabalho, é vida”, conclui.

Não é bem assim, contrapõe Briggs. “Os estudos mostram que o cérebro não desliga e que isso é prejudicial. É verdade que podemos escolher desligar os aparelhos, mas quem nos manda um email tem uma expetativa de receber uma resposta e é muito difícil impor fronteiras, as pessoas ficam assoberbadas”.

O responsável da Deloitte deixa no ar uma pergunta inquietante: “O tema desta conferência é se a tecnologia está a destruir o equilíbrio trabalho/vida pessoal. Mas talvez a melhor pergunta é esta: está a tecnologia a destruir o equilíbrio vida/vida?”

Um mundo de profissionais liberais

Enquanto no palco dedicado aos temas da robótica se fala frequentemente do fim do trabalho e de como os robôs vão acabar com os empregados de mesa ou os carros sem condutor com os motoristas (Qual Uber qual quê! A grande ameaça é outra), no palco das empresas de SaaS (Software as a Service) dominam as questões sobre as formas de trabalho flexíveis, liberais, sem benefícios.

Por exemplo, Oisin Hanrahan, fundador e presidente da Handy (uma plataforma online que disponibiliza os serviços de profissionais como canalizadores, eletricistas ou empregadas de limpeza, etc.) é defensor destas formas de trabalho dos profissionais liberais, totalmente flexíveis nos seus horários.

À semelhança dos motoristas da Uber, os trabalhadores da Handy não são empregados da empresa, trabalham por conta própria. A plataforma só os liga aos clientes. “A motivação das pessoas para o trabalho mudou. Já não é apenas o dinheiro que comanda, mas a flexibilidade de horários. Uns têm filhos pequenos, outros estão a cuidar dos pais idosos, outros são desempregados a fazer pela vida e outros procuram aqui um segundo emprego para compor o ordenado…”, refere.

Para um mercado como o dos Estados Unidos, grande e com múltiplas saídas e possibilidades, parece ser algo muito positivo. Mas, por outro lado, esta gente não tem os benefícios tão desejados (e essenciais à sobrevivência) na América: seguro de saúde, férias pagas, descontos para o plano de reforma, ajudas ao pagamento dos estudos dos filhos, segurança social…

“É preciso dar o passo seguinte”, acrescenta o investidor Bradley Tusk, “dar a esta gente os benefícios que merecem. Porque isto vai acontecer, é imparável, sobretudo quando se aliar a flexibilidade aos benefícios”.