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Carlos Sá, nascido para correr

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Lucília Monteiro

Ao longo dos últimos 4 anos, Carlos Sá atravessou alguns dos locais mais extremos do planeta, como o deserto do Saara e o Monte Branco, nos Alpes. O ultramaratonista português prepara-se agora para tentar bater o recorde mundial de subida e descida do Monte Aconcágua, a mais alta montanha do continente americano

A montanha é uma paixão antiga para Carlos Sá. O que nunca lhe teria passado pela cabeça era, aos 38 anos, vir a ser um dos melhores ultramaratonistas do mundo na modalidade de trail running, uma versão radical de corrida, disputada na montanha ou no deserto, muitas vezes em condições extremas.



Um reconhecimento confirmado na última edição da Maratona das Areias, uma prova de 250 km, disputada no sul de Marrocos, em pleno deserto do Saara. Terminou em 4.º lugar, tornando-se o melhor atleta não africano de sempre a concluir a corrida.



"Já tinha alguma projeção internacional, mas foi essa prova que me tornou bastante falado no meio", reconhece Carlos Sá que, antes de se começar a dedicar ao trail, nunca antes tinha corrido.



Até então, o seu desporto de eleição era o montanhismo, uma paixão que se prolongava no seu dia-adia, enquanto operário da construção civil, especializado em trabalhos verticais. E foi o seu amor à montanha que o levou a participar, em 2008, numa maratona de trail no Gerês, na qual acabou em 2.º lugar, ao fim de 45 km. "Nunca tinha corrido uma maratona, nem sequer de estrada e acabei ao sprint com o primeiro classificado. Percebi que até tinha jeito para aquilo", recorda. Tomou-lhe o gosto e, nos anos que se seguiram, começou a participar regularmente em provas, tornando-se presença assídua no pódio. As primeiras grandes vitórias internacionais surgiriam em 2010, ao vencer a ultramaratona dos Peregrinos, de 101 km, em Espanha, e o Grande Raide dos Pirenéus, de 170 km, em França. "Aí achei que, se calhar, tinha mesmo nascido para isto. Mas se há apenas 4 anos me dissessem que ia atravessar desertos e subir montanhas a correr, dizia que era impossível", afirma com humor.



Um dos responsáveis pelo sucesso é o treinador Paulo Pires, 42 anos. Antigo companheiro de Carlos dos tempos do montanhismo, Paulo é professor de Edução Física, com especialização em alto rendimento, e é ele quem prepara os planos de treino de Carlos Sá, que incluem 4 sessões de uma hora durante a semana e uma mais longa ao fim de semana.



"Pediu-me para o treinar e eu disse-lhe que só aceitava sob a condição dele perder a barriga.



O Carlos cozinha bastante bem e gosta muito de comer (risos). Elaborámos então um programa de treino transdisciplinar, de modo a evitar lesões, e o resto veio por acréscimo, porque o Carlos tem de facto um talento natural para esta modalidade, que lhe vai permitir ter ainda mais uns bons anos pela frente, ao mais alto nível", sublinha o técnico.





Um desporto diferente

No ano passado cumpriu finalmente o sonho de participar nas duas mais prestigiadas provas de running trail do mundo: o ultra trail do Monte Branco, a montanha mais alta dos Alpes e a Maratona das Areias. E começou em definitivo a dar nas vistas junto do pelotão internacional, ao terminar as provas, respetivamente, em 5.º e 8.º lugar.



O Monte Branco é uma corrida de uma só etapa de 170 Km e a Maratona das Areias é composta por seis etapas, num total de 250 km. "Andamos literalmente com a casa às costas a correr pelo deserto. Há check points a cada 12 km, onde apenas nos é dada uma garrafa de água de litro e meio", explica Carlos que, quando este ano voltou à prova do Monte Branco, era já apontado como um dos favoritos ao pódio.



Só não o conseguiu porque parou a meio do percurso, para ajudar um corredor espanhol lesionado, já em estado de hipotermia. "Havia chuva, neve e as temperaturas rondavam os 12 graus negativos, não podia simplesmente passar por ele e não o ajudar", lembra. Uma atitude que mereceu os maiores elogios e que foi motivo de reportagem em diversos meios de comunicação do país vizinho, mas que o próprio desvaloriza. "O trail caracteriza-se por um grande espírito de entreajuda e em momentos como este esquece-se por completo a competição. É isto que diferencia este desporto dos outros", sustenta Carlos Sá, que, mesmo assim, ficou a apenas pouco mais de 3 minutos do terceiro classificado.





Uma maratona por continente

Após ter perdido o emprego, devido à crise da construção civil, Carlos passou a dedicar mais tempo ao treino. E o que parecia ser um azar, acabou por transformar por completo a sua vida, ao conseguir, no início deste ano, o patrocínio de uma marca desportiva, que lhe permitiu tornar-se no primeiro profissional de running trail português. Em paralelo, começou também a organizar provas e estágios em Portugal, onde este desporto está em franco crescimento. "Uma das grandes vantagens desta modalidade é permitir-nos conhecer locais onde quase ninguém vai, em estreito contacto com a natureza.



Ainda hoje continuo a ficar espantado com algumas das paisagens que vejo. Não posso é parar para fotografar, como fazia no início, mas estou sempre muito atento ao que me rodeia", confessa.



Para o ano que vem, quer "voltar às provas de referência mundial", Monte Branco e Maratona das Areias, para lutar pelo pódio. Pretende ainda fazer o circuito dos quatro desertos (Gobi, Atacama, Saara e Antártida), composto por provas de 250 km em total autonomia. O objetivo é completar o chamado grand slam das ultramaratonas, que implica correr em todos os continentes, mais o Polo Norte.

Mas o próximo projeto é bem mais ambicioso: vai à Argentina tentar bater o recorde mundial de subida e descida do Monte Aconcágua, a mais alta montanha do continente americano, que está atualmente em 14h e 5m para uma distância de 84 km. "Subir de uma forma alpina já é para poucos e fazê-lo a correr é praticamente impossível, pois, a quase 7 mil metros de altitude, só temos 40% do oxigénio. Mas se já houve alguém que o fez, eu também vou tentar", assegura.