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Quo Vadis, Salazar?

Quo Vadis, Salazar?

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Piotr_J/Wikimedia Commons

Prazeres tátricos

Depois dos Himalaias, são os Cárpatos, e em particular os Tatras eslovacos, as montanhas menos exploradas da Europa. Caminhar numa das mais belas e desconhecidas cadeias montanhosas do mundo é uma experiência incontornável na Eslováquia.



Felizmente ainda a salvo dos excessos do turismo que fizeram a ruína dos Alpes...



Não é uma cadeia montanhosa extensa, mas é íngreme e exigente. O mais alto dos seus picos, o Gerlachovsky, encontra-se a 2655 metros. Num raio de 20 quilómetros ou seja, um dia a pé de caminho não haverá mais do que um par de abrigos de montanha para dormir. Quem pretenda cruzar as montanhas de uma tirada deve pernoitar na Chata Pri Zelenon. Uma das formas de começar um trekking memorável é subir a montanha até ao abrigo de Zbojnícka Chata. A alternativa aos abrigos de montanha é fazer caminhadas de um dia, voltar e escolher para estada um dos hotéis do sopé das montanhas, em Tatranská Lomnica, como o Grandhotel Praha, um monumento de Arte Nova.



De Tatranská Lomnica segui até Banska Stiavnica.



A cidade tem a sua história ligada indiretamente ao grande viajante Marco Polo. Dois anos após o regresso do genovês da Banska Stiavnica (Stia-vnitza, na pronúncia eslovaca) se tornou um El Dorado e terra de mineiros, bem como a cidade mais rica do Império Austro-Húngaro até à descoberta das minas da América Latina. Os indígenas apregoam de cotovelos fincados nos balcões dos cafés (a maioria portas de entrada para as velhas minas) que nem o Klondike produziu tanto ouro e prata. A falta de certidão histórica não impede a experiência, entre o medonha e o prazenteira, de descida aos infernos. Outra das hipóteses de estadia no caminho é Strbské Pleso, para onde o checo Franz Kafka recolheu no inverno dos anos 20 (de 18/12/1920 a 27/8/1921) atacado de tuberculose.



A morada certa para a grande família de kafkianos é a Villa Tatra, em Tatranske Matliare, onde se encontra o seu memorial.



Nas imediações, e perto do abrigo de montanha Téryho Chata, há uma descida a pique que dá avesso a Poprad e aos baixos Tatras. Não tem o impacto da alta montanha, mas é já o suficiente para deixar os montanhistas em pontas. Na povoação de Zdiar, nos limites orientais dos Altos Tatras, em território dos Gorale, há camponeses que se vão casar à Polónia e regressam no dia seguinte, o que prova que as relações entre eslovacos e polacos são cordiais. Esta amizade entre os povos vem do tempo em que a Eslováquia e a República Checa eram ainda a Checoslováquia e um satélite da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Desde então deu-se a Revolução de Veludo, em 1989, quando a Checoslováquia se separou pacificamente do Bloco de Leste, e quatro anos mais tarde foi a vez de se dar a separação da República Checa, depois de 70 anos "de casamento ". Apesar de uma infinidade de hábitos comuns, entre eles a língua, os políticos não hesitaram em dar o caso por encerrado sem consulta pública.



Desde então também, a Eslováquia tem vivido ingloriamente na sombra da República Checa. Após a queda do comunismo, os camponeses viram-se obrigados a deixar o cultivo das terras e a procurar trabalho como guias ou pastores de montanha no Parque Nacional dos Tatras. Os hábitos de séculos, de resto, mantêm-se, como a matança do porco.



Mas a maneira mais genuína de conhecer os Tatras, e que mobiliza um milhão de visitantes por ano, é ensacar umas peúgas acolchoadas, um anoraque de penas e umas calças coleantes e fazer-se à montanha livre de ornamentos e exigências urbanas. Isto se não for renitente a uma higiene elementar e a alimentar-se um par de dias de gulash, cogumelos e tarte de maçã. O século comunista ocultou os Tatras do resto do mundo, e só durante o consulado de Alexander Dubcek as "marchas" ganharam popularidade.



Marchar era o verbo, antes de haver trekkings, hikings e turismos de aventura. Não espanta que os eslovacos, apesar de escassos cinco milhões, dominem os desportos de inverno. A melhor maneira de entrar no tantrismo tátrico é instalar-se no Hotel Kolowrat, um prenúncio da hotelaria hip e posh de variante kitsch fundado nos alvores do socialismo (1978), para aqui respirar os pinheiros curativos ou o mofo do falecido aparelho de Estado. Até 1999, o Hotel Kolowrat era um exclusivo das elites do Partido Comunista Checoslovaco, caso do ex-presidente Gustav Usak. Na verdade, foi na chamada Sala Vermelha, com vista escancarada para o pico Novy Vrch e o Gerlachovsky Stit, que Vladimir Meciar e Vaclav Klaus assinaram com um sherry diplomático a separação de Praga de Bratislava. Hoje o Kolowrat é o hotel ideal para uma paragem no caminho entre Bratislava e os Tatras. É de resto a melhor maneira de reviver o passado em grande estilo soviético.



O único lugar no mundo onde um Salazar pode erguer na paz dos bosques um sherry ao camarada Lenine.