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Qualquer coisa nos lugares [7]

Qualquer coisa nos lugares

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Dívida de gratidão aos cicerones de Mombaça

Forte Jesus, exterior da muralha.
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Forte Jesus, exterior da muralha.

Forte Jesus, interior das muralhas.
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Forte Jesus, interior das muralhas.

O ferry que nos leva ao centro histórico de Mombaça.
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O ferry que nos leva ao centro histórico de Mombaça.

Porto antigo, ainda em uso.
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Porto antigo, ainda em uso.

Habitantes da cidade velha.
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Habitantes da cidade velha.

Todas as tuas da cidade velha levam ao Forte de Jesus.
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Todas as tuas da cidade velha levam ao Forte de Jesus.

Estão ali à sombra, na base da muralha, enquanto não passa o calor ou enquanto não chega um turista mais interessado, desses que gostam de saber sobre os lugares. Estão ali à sombra, jogam xadrez e discutem política e comentam os tempos e o mundo, certamente a partir de uma perspetiva muito diferente da nossa.

São os cicerones do Forte Jesus, ilha de Mombaça.

Podem argumentar, sem fugir muito à verdade, que Mombaça é um dos lugares fundamentais da Humanidade. Recordarão que foi ali que um europeu barbudo, fedorento e intolerante, Vasco da Gama, foi mal recebido e percebeu onde encontrar alguém que o levasse até à Índia encontrou na concorrência, em Melindre. Se da Gama não tivesse sido expulso de Mombaça, mas apenas enganado com falinhas mansas, a Europa provavelmente nunca teria entendido a navegação no Índico, a Cristandade nunca teria contornado o Islão na economia mundial, e o mundo hoje seria um lugar melhor. É uma perspetiva, diferente da nossa.

Fundada por volta do ano mil, Mombaça é antiga, o que implica que foi fulcral.

Grandes viajantes do passado o marroquino Ibn Batuta, o chinês Zhang He, incluíram-na nos seus relatos. O mapa explica: navegar o Índico pede escala em Mombaça. Hoje, o turismo faz dela objeto de desejo de nórdicos, israelitas, italianos durante o inverno europeu. Todos vão pelas praias nas redondezas, que oferecem mar azul-turquesa e temperaturas tropicais.

Mas desses turistas, muitos reservam um dia para uma visita ao centro histórico de Mombaça. Cuja principal atração é o Forte Jesus.

À sombra, na base da muralha, com a sua perspetiva do mundo, os cicerones estão à espera. Cada turista que visita o Forte de Jesus ouve esta história: "Os portugueses chegaram três vezes ao longo do século XVI. Destruíram, pilharam e pejaram Mombaça de cadáveres, primeiro de soldados, depois, não satisfeitos, de mulheres, crianças e velhos." Mombaça não esquece.

É natural, nós também não esquecemos Alcácer-Quibir ou o Ultimatum inglês.

"Na quarta vez", continuam os cicerones, "temendo que os turcos invadissem o Índico pelo mar Vermelho, os portugueses decidiram ficar e construir um forte, este." Que depois foi árabe, inglês, queniano.

Os cicerones contam-me o resumo de Mombaça com orgulho e determinação. Eu gosto. Penso no meu país, de onde veio, o que se tornou. Sim, éramos nós, queimávamos crianças e mulheres, acreditávamos que Deus queria assim. Hoje, estamos aqui, pensamos de outra maneira, mas temos um passado único e coerente que nos torna diferentes dos outros, bússola de nós próprios.

E o que pensarão os turistas nórdicos, israelitas, italianos em férias em Mombaça ao saber da história do Forte Jesus? Vão pensar que os portugueses marcaram de alguma maneira a história da Humanidade.

Desses turistas, alguns pensarão, com curiosidade: como será esse país, Portugal, que gerou tudo isto, que gerou o Forte Jesus, os Descobrimentos, o predomínio do Ocidente? Será Portugal tão único como o lugar que ocupa na História? Ou será que se contaminou de cidades anónimas, litorais vandalizados, multinacionais de comida e hotelaria, música pop americana? Dessa curiosidade, alguns entre esses turistas talvez decidam visitar, um dia, Portugal.

Não temos mar azul-turquesa nem temperaturas tropicais para aliciar turistas.

Temos património, identidade e passado.

Não apenas o se encontra cá mas o que se encontra espalhado pelo mundo. Promover o turismo em Portugal passa também por investir na herança material ou imaterial que deixámos espalhada pelo mundo.

Parafraseando o que se diz em Hollywod, não nos deve preocupar se falam bem ou mal de nós o que nos deve preocupar é se deixam de falar de nós porque se esqueceram que existimos...