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Outras Coordenadas: À descoberta da Indochina [4]

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Slow Boat pelo rio Mekong

Entrar no Laos, de barco, não estava nos meus planos. De resto, quase nada do que me tem acontecido nesta viagem estava. Não planeei absolutamente nada. A única certeza que tinha era que a viagem ia começar e acabar no aeroporto de Banguecoque e sabia que países queria visitar.

Comigo trouxe apenas o guia do Vietname, país que me fascina há anos, sem qualquer razão em particular.

Preparava-me para sair de Banguecoque rumo ao norte da Tailândia quando, a caminho da estação de autocarros, fui abordado por um senhor sentado numa mesa, cujo tampo mal se via, de tal forma estava coberto de mapas. Aconselhou-me a consultar uma agência de viagens para não perder a oportunidade de conhecer alguns sítios verdadeiramente fascinantes. Cálculo que fosse um angariador de turistas para a agência. Resolvi seguir o seu conselho.

Depois de uma boa meia hora a regatear o preço para um passeio de dois dias no Laos, pelo rio Mekong, percebendo que estávamos muito longe de chegar a um consenso, a senhora da agência de viagens, irritada, aconselhou-me a voltar ao meu país para trabalhar e regressar com mais dinheiro. "Vou fazer isso, então", respondi calmamente antes da sair.

Enquanto esperava pelo condutor do tuk tuk, a senhora veio ter comigo e apresentou-me um valor que, embora ainda acima do meu orçamento, era quase um terço daquela que ela tinha dito ser o preço mais baixo, que "já quase nem dá lucro à agência". Aceitei. A expressão OK funciona como gasolina no motor dos vendedores. Mais do que isso, é um verdadeiro turbo.

Não estaria agora a escrever este texto, sentado à beira do rio Mekong, com o sol a pôr-se e com as formigas a fazer do meu corpo uma autoestrada se não tivesse aceite. Também não tinha conhecido os viajantes que têm sido a minha companhia nos últimos dias.

O primeiro dia de passeio de barco pelo Mekong estava quase a ser hipnotizante até um grupo de chilenos, com uma valente bebedeira, me despertar da letargia, com berros e canções (embora berrar e cantar seja quase a mesma coisa, quando o álcool é o único instrumento) e outras atividades - todas ruidosas - normais em grupos alcoolizados.

Uma das descrições mais comuns na literatura de viagens é a dos rios que "serpenteiam". Olhando para o mapa, o Mekong encaixa nesta descrição mas, pela beleza cénica dos montes verdes que se repetem, sem nunca se tornarem monótonos, diria que o Mekong não serpenteia, caracoliza. Apesar de ter uma corrente forte, as águas castanhas do Mekong quase não parecem mexer-se, tal o encanto da paisagem. Diria que se assiste a uma redundância verdejante.

Depois de passar a noite num hotel a caminho, o segundo dia começou com uma chuva fortíssima, que a parou á hora que o rapaz do hotel, o Holand (duvido que se escreva assim, mas é como soa) preconizou: às 9.30h.



Mais da mesma redundância verdejante, sem que as expressões "mais do mesmo" e "redundância" signifiquem uma repetição monótona. Grande feito do rio Mekong, este de contrariar as leis da gramática.

O bónus destas cerca de cinco horas de passeio, o mesmo que demorou no primeiro dia, foi ver um grupo de elefantes tomar banho - e agora podia dizer "alegremente", "aliviados", "satisfeitos" e tantas outras expressões embelezadoras, mas não sei analisar as reações dos elefantes nem, muito menos ver como se sentem através da sua expressão facial - para quem se perdeu no meio deste aparte gigante - curiosa descrição para o aparte, já que estamos a falar de elefantes (e com isto fiz mais um aparte) - dizia eu que o bónus do dia foi ver uns elefantes a banhos no rio Mekong.

Foram dois dias a bordo de um barco que devia muito, para não dizer tudo, ao conforto, com uma paisagem que se repetia, exceção feita a algumas casas à beira-rio ou nos montes, mas que não tiveram nada de incómodos e, muito menos de monótonos